quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


João Carlos Raposo Nunes, nasceu em Lisboa, em 1955 é livreiro e alfarrabista na baixa de Setúbal, perto da Câmara Municipal.

O Raposão passou a ser um dos comparsas do Luiz Pacheco e que amiúde lhe mandou, durante 13 anos bilhetes-postais, cartas, o que calhava.

Convém lembrar, se há escriba que deram largo trabalho aos Correios portugueses, Luiz Pacheco está em lugar de topo.

Segundo João Pedro George, Luiz Pacheco sofria «de compulsão epistolar.»

O próprio Pacheco escreveu:
«No gesto de guardar cartas há uma certa afectividade ou interesse ou coisa que o valha. Um gajo que está numa cadeia, num hospital, numa aldeia, se comunica com alguém, se gosta de comunicar, a carta é um derivativo».

Postal de Pacheco para o poeta Zé Gomes Ferreira em 14 de Abril de 1968:

«Chego a Lisboa de Albarraque e encontro um postal muito circunspecto (Ex.mo Senhor Dr. José Gomes Ferreira) do Luiz Pacheco a pedir-me 50 escudos.

«Encontro-me numa fase em que não me repugna pedir porque o meu caso é daqueles que, talvez, a tempo, um empurrãozinho me liberte da cadeia (outra vez), ou do hospício, ou da fome. Tenho outro livro ente mãos, Exercícios de Estilo, título larapiado ao Queneau.»

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Temos, pois, mais um livro de cartas do Pacheco.

Talvez coisas banais mas, acima de tudo o livro vale pelo prefácio e as notas do António Cândido Franco. 

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