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segunda-feira, 10 de novembro de 2025

CONVERSANDO


 Morrer de amor como o King Kong, escreveu o Eduardo Guerra Carneiro.

Pode-se morrer de qualquer coisa.

O Pedro Oom morreu de felicidade.

Uma pequena notícia na última página dos jornais de 27 de Abril de 1974, dizia-nos que, na véspera, fulminado por um ataque cardíaco, morreu o poeta Pedro Oom. Não resistiu à emoção de ver a ditadura cair. Tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto.

Ao entrar no “13” restaurante no Bairro Alto, onde habitualmente se encontrava com os amigo, abriu os olhos, escancarou o sorriso e caiu fulminado em cima do seu amigo e editor Victor Silva Tavares. “Não tinha o pulmão preparado para a corrente de ar provocada pela liberdade”, explicou o editor da “& Etc”, num programa evocativo transmitidoo há alguns anos pelo Canal 2 da RTP.

Conotado com o Surrealismo escreveu, nos anos 40, sobre o Estado Novo: “Até onde pode chegar um homem desesperado quando o ar é um vómito e nós seres abjectos.”.

Em 1980 a “& Etc.” publicou a dispersa obra de Pedro Oom no livro “Actuação Escrita”.

No entanto, no livro Coisas, publicado pela &etc., são reunidas algumas história de Pedro Oom. Como esta:

                      UM TOSTÃO PARA O ENSINO

«Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupava-se muito com a ignorância do seu povo.
A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram a “Cartilha Paternal”, onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.»
A “Cartilha Paternal” foi distribuída gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a tudo o que fosse papel, liso ou impresso.”

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

PODE-SE ESCREVER

Pode-se escrever sem ortografia

Pode-se escrever sem sintaxe

Pode-se escrever sem português

Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua

Pode-se escrever sem saber escrever

Pode-se pegar na caneta sem haver escrita

Pode-se pegar na escrita sem haver caneta

Pode-se pegar na caneta sem haver caneta

Pode-se escrever sem caneta

Pode-se sem caneta escrever caneta

Pode-se sem escrever escrever plume

Pode-se escrever sem escrever

Pode-se escrever sem sabermos nada

Pode-se escrever nada sem sabermos

Pode-se escrever sabermos sem nada

Pode-se escrever nada

Pode-se escrever com nada

Pode-se escrever sem nada

Pode-se não escrever


Pedro Oom

sábado, 27 de abril de 2024

OS DIAS SEGUINTES A ABRIL 25


 27 de Abril de 1974

A  imprensa diária continuava a publicar notícias, fotografias, reportagens sobre o Movimento dos Capitães, a libertação dos presos políticos, o desmantelamento da PIDE/DGS, bem como reacções internacionais aos acontecimentos verificados no país.

 Título da 1ª página do “Diário de Lisboa”:

“170 Pides nas celas de Caxias.”

Em baixo, à direita, uma fotografia com a seguinte legenda:

“Máscaras de medo, de terror caracterizavam os Pides ao darem entrada nos camiões que os conduziram da Rua António Maria Cardoso para a prisão de Caxias – medo e terror que durante largos anos se comprazeram em espalhar no povo indefeso e nos estoicamente lutavam para restituir a Portugal a justa liberdade”.

Neste sábado, o “Expresso” fazia, após os acontecimentos do dia 25, a sua primeira edição. 

Em editorial declarava que “não precisamos fazer meia volta como tantos outros (…) continuaremos, portanto, naturalmente, pelo mesmo caminho. Aceitando sem reticências o desafio necessário que a nova situação política nos lança. Participando na batalha contra os outros necessários desafios. Lutando por que o país e cada um dos seus cidadãos saibam adaptar-se e beneficiem da mudança que já estamos a viver.”

Também em editorial, o “Diário de Notícias” dedica-se, à moralidade, ao perfeito cinismo, ou o começar de pôr água na fervura do caldo, género portem-se bem meninos, que isto não é o da Joana:

“O que os Portugueses não devem entretanto perder de vista é que para se ter liberdade é preciso merecê-la. Cada um de nós tem de provar por si que é digno dela, adquirindo hábitos de tolerância e respeito pelo próximo que andam muito esquecidos. Só por esse modo poderemos triunfalmente refutar o argumento dos que negam ao povo português a maturidade necessária para ser livre”

Na sua página 5 dava conta da romaria que ia acontecendo pela rua onde reside Spínola:

 “Milhares de pessoas de todas as camadas sociais têm-se dirigido à residência do general Spínola, na Rua Rafael de Andrade, dando àquela artéria um movimento sem precedentes. A intenção é sempre, de saudar o presidente da Junta de Salvação Nacional e de lhe manifestar a sua adesão.”

Na sua 1ª página “O Século” noticiava que Mário de Soares partiria de Paris de comboio, estando prevista, para domingo a sua chegada a Santa Apolónia.

Após demoradas negociações, são libertados os presos políticos que se encontravam nas prisões da PIDE. Os presos tinham decidido que ou saiam todos ou não saia nenhum.

Palavras de Hermínio Palma Inácio, ao sair da prisão de Caxias, captadas para uma reportagem publicada na página 5:

 “Isto é maravilhoso!.. Sabemos ainda pouco sobre os objectivos da Junta… Oxalá não seja só uma liberdade de doze meses.”

Noticiava, ainda “ O Século” que grupos de populares invadiram as instalações da Comissão de Exame Prévio, ex-Censura, destruindo mobiliário e vasta documentação e colocava um apelo do capitão Salgueiro Maia, pedindo aos populares que não  destruíssem arquivos de valor histórico inestimável.

Pelas ruas da cidade os populares começavam a caça aos pides, publica-se uma fotografia que ficou para a História. Da notícia retiro este pormenor: “entretanto eram presos vários agentes da DGS entre os quais um morador no Bairro Espírito Santo em Odivelas, que foi denunciado por uma senhora. Trazia uma pistola de guerra nas “roupas íntimas inferiores.”

Em “Ultimas Notícias” referia-se que o embaixador de Portugal no Brasil, José Hermano Saraiva” dirigiu-se pela rádio e televisão à comunidade portuguesa:

“O processo que o país atravessa é pacífico, sem violências, e representa um caminho em busca da solução dos seus problemas, disse.

A página desportiva, falando do regresso da equipa do Sporting, tinha este curioso título: 

A eliminação da Taça das Taças esquecida na Cortina de Ferro por razões óbvias.

O jogo realizara-se em Magdeburgo, na então chamada Alemanha Oriental.

Como os restantes jornais, O Século noticiava o assalto que populares fizeram ao edifício do jornal Época, que não se publicou neste dia, e que obrigou à intervenção de elementos das Forças Armadas.

Face a este incidente, e outros que iam acontecendo, a Junta de Salvação Nacional emitia um comunicado: 

 Noticia “A Capital” que foram demitidos os governadores de Angola, Moçambique e Guiné, nomeados novos comandos para as regiões militares, GNR e PSP, as tomadas de posição de diversos sindicatos, que no Técnico reabria a Associação de Estudantes bem como a reunião da Junta de Salvação Nacional com a CDE, a Sedes, a Convergência Monárquica e directores dos diversos órgãos de informação.

A CDE fazia-se representar por Francisco Pereira Moura, José Manuel Tengarrinha, Herberto Goulart, Pedro Coelho e Gilberto Ramos, a Sedes por Sá Borges, Magalhães Mota, Teodoro da Silva, A Convergência Monárquica por Rodrigo Montezuma, Pedro Paiva Pessoa e João Vaz Serra e Moura.

Exilado no Brasil o Prof. Rui Luís Gomes anunciou o imediato regresso a Portugal.

Na primeira página o “Diário Popular” informava que os bancos reabriam ao público na segunda-feira, enquanto na pág. 17 realçava um comunicado da assembleia da Conferência Episcopal da Metrópole. Os senhores bispos, tão silenciosos em tempo de ditadura, entenderam formular votos para o bem-estar da Sociedade portuguesa.

 Diário Popular dava conta que, em Beja, foi preso pela polícia um homem que ostentava um cartaz a pedir a extinção da PIDE.


A edição do “República” salientava que ainda continuavam à solta, e armados, mais de dois mil agentes da PIDE/DGS.

Na sua agenda de  espectáculos, podia ler-se a seguinte nota:

“Como os nossos leitores se têm apercebido, a programação da RTP foi profundamente alterada, não sendo ainda possível a organização de horários. Aconselhamos portanto a manterem os aparelhos ligados para a captação de qualquer informação importante ao País.”

No meio da alegria generalizada, a notícia da morte do poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. O poeta que tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto, e não resistiu à emoção de ver cair a ditadura.

quarta-feira, 26 de abril de 2023

TAMBÉM SE MORRE DE ALEGRIA!


 Pedro dos Santos Oom do Vale, nasceu em Santarém no dia 24 de Junho de 1926.

No dia 26 de Abril o coração não resistiu à alegria que a Revolução lhe trouxera.

Poema de Pedro Oom, escrito com tinta azul, no Catálogo da 1ª Exposição dos Surrealistas, 1949.

Tirado do Catálogo do «Legado de Mário Henrique Leiria na Colecção Manuel de Brito».

 Pedro Oom tem colaboração em Coisas, 1º volume da Colecção  & ETC:

UM TOSTÃO PARA O ENSINO

«Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupava-se muito com a ignorância do seu povo.

 A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.

O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram a “Cartilha Paternal”, onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.

A “Cartilha Paternal” foi distribuída gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a tudo o que fosse papel, liso ou impresso.

 Moral: a instrução não custa um tostão…»

 Na revista Grifo também encontramos colaboração de Pedro Oom:

Poesia não é uma medalha para por no peito dos tiranos mas uma imensa solidão feita de pedras, onde o despotismo pode encomendar o ataúde. Cada um de nós odeia o que ama. Por isso o poeta não ama a poesia que é só desespero e solidão mas acalenta ao peito as formigas da revolta e da rebeldia, que todos os déspotas querem submissas e procriadoras. Só os voluntários da miséria e da submissão patriarcal querem a poesia na arca da aliança com a tradição pacóvia e regionalista dos pretéritos dias, glórias patrioteiras, heroicidades frustres, pirataria ignara. Todo o verdadeiro poeta despreza o pequeno monte de esterco onde o dejectaram no planeta e a que os outros chamam pátria, e só ama os grandes continentes mares e oceanos da liberdade e do amor. Só nos vastos espaços incriados a poesia serve o seu destino – catapultar o homem nos abismos do desejo incontrolado onde o próprio assassinato é um acto de poesia e de amor. Este assassinato de que falo é o grande amplexo de homem para homem a solidariedade e a ternura, não a caridade hipócrita ou a cama de família, com todo o seu pequeno cortejo de horrores, onde a exploração do filho pelo pai dita a sua lei.

Pedro Oom

terça-feira, 27 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ATÉ MAIO


27 de Abril de 1974.

O terceiro dia da nossa vida em liberdade.

Todos os jornais dão conta das reuniões que vão ocorrendo, no Palácio da Cova da Moura, com a Junta de Salvação Nacional, das manifestações de apoio ao Movimento das Forças Armadas, que vão acontecendo por todo o País.

1.

Mas a ÚNICA notícia é apenas uma:

Após demoradas negociações são libertados os presos políticos que se encontravam no Forte de Peniche e em Caxias. Os presos tinham decidido que ou saiam todos ou não saia nenhum.

2.

Anuncia-se que está prevista para amanhã a chegada a Lisboa de Mário Soares e que os bancos reabrirão na segunda-feira dia 29.

 3.

No topo a 1ª página de A Capital que na sua página 4 noticia que o presidente da assembleia nacional, Engº Amaral Neto cancelou a reunião marcada para este dia e aguarda, apenas, que a Junta de Salvação Nacional decrete a dissolução da assembleia.


4.


Diário Popular dava conta que, em Beja, foi preso pela polícia, um homem que ostentava um cartaz a pedir a extinção da PIDE.


5.

Destaque na página 14 para a reunião que a Conferência Episcopal iniciou, no dia 23, em Fátima, ainda em tempo de ditadura, e que teve o encerramento ontem ao final da tarde.

Os senhores bispos mudaram de agulha e emitem um comunicado em que formulam votos para que os acontecimentos destes dias contribuam para o bem da sociedade portuguesa, na justiça, na reconciliação e no respeito

por todas as pessoas. Apelam para a virtudes cívicas dos católicos e demais portugueses de boa vontade. E rezam a Deus pelo povo de Portugal.

A conferência aproveita para se solidarizar com o Bispo de Nampula, expulso de Moçambique, nos primeiros dias de Abril, pela ditadura.


Essa solidariedade teria sido bem-vinda aquando dos acontecimentos, que também envolveram a expulsão de diversos missionários acusados de atentados e de se oporem à guerra colonial.

Mas apenas um beato silêncio.

Profundo foi também o silêncio que os senhores bispos mantiveram, durante quarenta e oito anos, com um regime que oprimia e perseguia um povo e mantinha em África uma guerra  que matou, estropiou milhares de portugueses e africanos.

6.

O República revelava que no Forte de Caxias estavam presos 228 membros da Ex-PIDE-DGS e que ainda continuavam à solta mais de dois mil agentes.


Oportuna a entrevista que na página 13, do República, o desembargador Rocha Cunha concedeu a Fernando Assis Pacheco.

 Está por fazer a história da participação dos juízes dos Tribunais Plenários.

 Pior ainda o sabermos que, após o 25 de Abril, esses mesmos juízos foram integrados no sistema judicial sem nunca terem sido responsabilizados e julgados. Eles foram protagonistas do aparelho repressivo da ditadura.

 Uma impunidade que há-de estender-se aos agentes da PIDE-DGS e outros servidores do Estado Novo.

 Não por uma questão de vingança, apenas por uma questão de justiça.

 Na sua página de espectáculos o jornal avisava que, por motivos óbvios, não era possível publicar a programação da RTP:


7.

Como os restantes jornais, O Século noticiava o assalto que populares fizeram ao edifício do jornal Época, que não se publicou neste dia, e que obrigou à intervenção de elementos das Forças Armadas.

Face a este incidente, e outros que iam acontecendo, como a invasão das instalações da A.N.P., a Junta de Salvação Nacional emitia um comunicado:


Na página 7,  publicava-se uma fotografia de Eduardo Gageiro  que registava o momento em que um membro da PIDE-DGS era preso.

Esta fotografia correrá mundo.


Também a notícia da morte do poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. O poeta que tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto, e não resistiu à emoção de ver cair a ditadura.



8.

Fotografia na última página do Diário de Lisboa.


No Largo da Misericórdia, o povo largou fogo a um automóvel da PIDE, ontem á tarde. Três agentes transportavam-se nele quando, cerca do meio-dia, foram identificados por populares arrastados para junto do pelourinho do largo e desramados pelo Exército. O povo queria linchá-los, tendo sido contido só a muito custo pelo capitão e pelos poucos soldados que os guardavam.

domingo, 15 de março de 2020

NOTÍCIAS DO CIRCO


Mário de Carvalho, numa velha entrevista ao velho Mil Filhas do velho Público, disse, alto e bom som, que somos um povo de javardos, sem vergonha, sem dignidade.

Mário de Carvalho, numa velha crónica publicada em O Jornal, e incluída em   O Que Eu Ouvi Na Barrica das Maçãs, falava do portugalinho dos sacanas a ferver de mercenários, oportunistas, videirinhos e minúsculos troca-tintas.

Lêem-se estas afirmações de Mário de Carvalho, desfazadas no tempo, sente-se o pontapé no estômago, mas passados segundos concluímos do acerto das razões do escritor.

Um povo javardo!

É isso!

Lembre-se um tal D. Carlos que, como escreveu Fialho d’Almeida, andava «sempre cercado de gastrónomos e de toureiros, e que chamava piolheira ao país de que era rei.»
       
E cada se vez se sente mais que não há volta a dar a isto.

A javardice, em pleno drama de quarentena devido à epidemia do coronavírus, invadiu os supermercados para os mais variados tipos de açambarcamentos.

Deixaram as prateleiras vazias.

Vitor Dias escreveu:

«Comprar em excesso por medo da escassez provoca escassez.
Um problema sério!»

Os javardos são  assim!

O que causa ainda mais espanto, é o açambarcamento do papel higiénico.

Não sei se vem a propósito, mas lembrei-me duma velha história do Pedro Oom:

«Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupava-se muito com a ignorância do seu povo.
A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram a “Cartilha Paternal”, onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.
A “Cartilha Paternal” foi distribuída gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a tudo o que fosse papel, liso ou impresso.»

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

AMANHÃ


Poema de Pedro Oom, escrito com tinta azul, no Catálogo da 1ª Exposição dos Surrealistas, 1949.
Tirado do Catálogo do «Legado de Mário Henrique Leiria na Colecção Manuel de Brito».

domingo, 18 de outubro de 2015

V.S.T. & ETC



Paulo da Costa Domingos é o meu nome, e os melhores anos da minha juventude, como desertor de uma sociedade que me é antipática, foram vividos, unha com carne, no companheirismo e no universo poético do Vitor Silva Tavares, editor de livros na sua & etc, mas também mentor de uma ética cultural, e ainda, embora parco, também escritor.

Agradeço à Cláudia Clemente por, ao ter dado pela nossa existência, isso tê-la interessado a ponto de levar a nossa acção poética para dentro da sua obra cinematográfica.

Agradeço ao editor do filme este formato-dvd, confortável na medida em que cada um de nós pode agora levá-lo consigo para casa para vê-lo e revê-lo.Agradeço ainda à FNAC-Chiado a abertura da sua sala de convívio aos admiradores da nossa razão de resistência (por certo, militantes). (Digo militantes, porque, no que toca a & etc, somente militantes de um gosto invulgar poderão tê-la debaixo de olho há já tantos anos.)

Bom, e hoje não estou aqui para fazer mal a ninguém; estou aqui para apresentar a impressão digital do meu companheiro de aventura Vitor Silva Tavares. O mesmo irredutível Vitor Silva Tavares que, desde 1973, veio apresentando-me à fina-flor da comunidade intelectual portuguesa... (não estou a falar daqueles animadores do acordo artístico para serviçais do bom-senso; refiro-me às mulheres e aos homens muito especiais que marcaram como ferro em brasa esta nossa época desleixada e de aborto de uma Revolução prometida, mulheres e homens de cultura que tocaram o coração de leitores avessos, exactamente, ao bom-senso.

Nomes: alguns nomes incontornáveis, e apenas de amigos mortos, porque esses – garantidamente! – já não podem mais asnear ou desiludir-nos: [por ordem de saída de cena] o Pedro Oom, o António José Forte, a Luiza Neto Jorge, o Fernando Ribeiro de Mello, o Virgílio Martinho, o José Cardoso Pires, o João César Monteiro, o Eduardo Guerra Carneiro, o Álvaro Lapa, o Mário Cesariny, o Manuel João Gomes, o Luiz Pacheco, o João Vieira,...)

Nada mais apropriado para apresentar esta aventura, de que também eu fui parte integrante e, reconheço, parte incómoda,... dizia eu: nada mais apropriado do que ler-vos – como se o tivesse escrito, de fresco, há dois minutos – o meu texto «Amarga Disposição», com o qual participei na celebração das duas décadas de existência da & etc (& etc hoje com 37 anos «de morte para amanhã»):

Foi ontem, há 20 anos, quando aqui cheguei. A um cubículo exíguo na Rua da Mãe d’Água 13-2.º dt.º, que servia de redacção ao quinzenário & etc, e foi para vir a integrar uma escassa equipa de jogadores permanentes então assistidos por inúmeros colaboradores externos. Lista de personagens quase do meu total desconhecimento, que, até à reviravolta dos humores em Abril de 1974, nunca parou de crescer, cumprindo as honras da linguagem da casa e as tarefas rebeldes de uma resistência bem disposta. Alguns deles – entre artistas plásticos, tradutores e os mais – devemos reconhecê-los como nucleares. As suas participações consigo levam o nome.

Nessa altura, poeta designava notavelmente inconfundíveis princípios de vida, sentido próprio contra ventos e marés. Hoje, como é sabido, a estética e os graus académicos ocuparam todos os terrenos baldios, não sobra nesga onde plantar uma couve portuguesa. Lugar às (ditas) “novas” “sensibilidades”!

Há duas décadas, portanto, a identificação dos inimigos do homem-de-rosto-descoberto-e-corpo-inteiro era tão fácil que ninguém, deste lado, declinava o oportuno instante, que se lhe aprazasse, para molhar na sopa. [...]Às vontades que fizeram a revista & etc, entre Janeiro de 1973 e Outubro de 1974, substituiu-se um leque de livros de autor algo estranhos, por comparação com a literatura de salamaleques e cócegas a prémio.

Sendo nós, hoje, cada vez menos, e cada vez mais amarga a disposição, o ideal não esmoreceu: sabotar o gozo de mandões e poderosos, instilar algum fel no reino da estupidez. As maçãs da sabedoria e da revolta colhem-se do chão. Ou mesmo do subsolo. Na Rua da Emenda – actual morada poética somente dos aventureiros que ainda acompanham o Vitor Silva Tavares – desce-se até ao subterrâneo 3 por uma rampa que sobe, e vice-versa.

Eu ligo sempre a & etc ao Vitor Silva Tavares, não por qualquer estigma personalista que pudesse assombrar a editora, mas porque – no sentido culto e cultural de que o Vitor é herdeiro, mestre e transmissor de mensagem – um editor é aquele que faz imprimir a sua marca pessoal, a sua impressão digital, sobre tudo quanto toca. É por isso que, ainda recentemente, à beira da publicação de um livro meu no catálogo da & etc, acatei com júbilo o parecer de primeiro leitor – e leitor também com a autoridade de escritor – que o Vitor sempre foi de todas as obras por ele publicadas.

Trata-se de uma regra que, por mim, faz escola. É de facto regra que eu próprio defendo e promovo, enquanto também editor autónomo de livros... numa terra onde estes industriais do livro, que há agora, nem lêem aquilo que publicam nem jamais entraram dentro de uma tipografia para proceder ao acompanhamento final daquilo que atiram para o mercado, em golfadas de vómito de novidades.

O filme, que agora poderão com tempo visionar, dá, muito acertadamente, a ideia de um grande rega-bofe, que é o nosso dia-a-dia. Essa partilha do gozo permanecerá inalterável até ao nosso fim!... porque fizemos dessa alteridade uma arma de guerra... Afinal, com razão lá dizia o outro: «a cantiga é uma arma».

Todavia, sempre existiu quem não fosse em cantigas, ou porque não gostasse da nossa música, ou porque fossem sisudos... A Igreja, por exemplo, é sisuda. Dos políticos não pode dizer-se o mesmo: destes só pode afirmar-se que são meramente estúpidos... Quero com isto dizer que, para desconforto do nosso natural e legítimo exercício cívico, para insulto da nossa alegria de estar a transformar o mundo e as mentalidades, ciclicamente e em doses calculadas ou o Estado ou a Igreja tentaram cobrir-nos com o seu visco censório.

Durante os anos em que a revista conseguiu existir sitiada pela ditadura do velho Estado Novo, lá íamos nós, de cada vez que era posta em marcha a feitura de mais um número, lá íamos nós, no inapelável cumprimento da lei, com resmas de papéis apaixonantemente escritos obter autorização para os imprimir! E apesar dos cortes, no geral a ignorância dos censores, ou o seu laxismo de funcionários mal-pagos, não lhes permitiam medir forças no terreno culto da mera alusão, ou da metáfora, ou de um dito sarcástico...

Curiosamente, nessa época, que eu testemunhei, já de regime fascista em estado de putrefacção, nunca enviaram sobre nós as polícias. O mesmo não veio a suceder após a tal revolução abortada. Em pleno regime apregoadamente democrático, a 7 de Julho de 1980, por movida queixa da Igreja, o Estado mandou a Polícia Judiciária apreender em sede de editor os possíveis exemplares de um folheto histórico, cujo conteúdo visara... em 1910!, repare-se, um então bispo no exercício das suas maldades. Inteligente, portanto, este assalto à história passada, quando nem o autor do texto nem o visado já tinham língua para terçarem razões.

Quanto ao filme que agora se encontra disponível para o visionamento doméstico, tanto podem encará-lo como um testemunho da verdade como tê-lo na conta de uma ficção – posso garantir que a Cláudia Clemente soube captar o espírito. E o espírito com o qual levámos por diante as nossas vidas tem sido a nossa mais nobre ficção, que irá desaparecer no esquecimento; são as nossas obras a verdade que vai ficar.

Texto lido por Paulo da Costa Domingos na apresentação do documentário &etc. de Claudia Clemente

sábado, 26 de setembro de 2015

V.S.T. & ETC


A Colecção &etc não está numerada.
Mas Coisas, um volume colectivo, é o primeiro livro editado.
Vi o anúncio da sua publicação na folheca nº 18, Dezembro de 1973.
Fiquei atento.
Mas à cautela pedi ao Carlos Porto, um dos autores antologiados, por esse tempo colaborador do República e um dos donos da Livraria Opinião, que me reservasse, logo que desse à luz, um exemplar.
Foi assim que o livro chegou às minhas mãos.
Tanto quanto me lembro, o livro não teve distribuição pelas livrarias.
Ainda existia a censura e a PIDE e era necessário tomar cautelas e caldos de galinha.
Os textos são da autoria de Adelino Tavares da Silva, António Manaças
Baptista-Bastos, Carlos Porto, José Martins, Nelson de Matos, Paulo da Costa Domingos, Pedro Oom, Virgílio Martinho e de Vitor Silva António Manaças.
Cada texto é antecedido de um desenho.
Os desenhos são da autoria de Ferreiro, Eurico, Lud, com dois desenhos, Figueiredo Sobral, João Rodrigues, Ana Machado, Gonçalo, Aurélia e Aldina.
Ao tempo da publicação de Coisas a &etc situava-se na Rua da Mãe d’Água nº 13-2º.Dtº.
A dedicatória do Vitor Sila Tavares, é colocada no livro, mais mês menos mês, quarenta anos depois da sua publicação.


O texto do Vitor Silva Tavares, publicado em Coisas, termina assim:

Que tal um lar saudável com espaços verdes à volta (na famosa costa do sol)? Nos subúrbios, tanto ranho nas ventas da criançada! Maria, vaza o penico. Morre-se confortado pela Santa Madre Igreja. Os mortos têm todo o tempo a seu favor. Que excitação para os pequeninos espectadores! BIB BIC BIC, a minha terceira escrita. Sofro de cancro na bic. E na tola. E enfim. E mais um automóvel: o Marine é de facto um carro a sério, um fora de série, e por isso dizemos que é tudo quanto se pode desejar num automóvel. Pois pois. Quem sabe comprar, sabe pagar! Segue-se um programa de variedades. Poetas doidos rebentam de sonho e fel nas noitadas a bagaço e cervejame. Como é triste Veneza ll n’y a plus rien. Para o mês que vem veremos. Cá vamos chorando e rindo. Tanta conversa fiada dá-me cabo da molécula. Assim como assim. Tive uma ideia maluca para pôr aqui. Esqueci. Bebi. Cichi. (…)

                 «Imoderato chorabile» é um excerto (ex certo) do texto
                 «Falar desta castração», escrito no Verão de 1972 e con-
                  servado (ainda bem!) inédito.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

OLHAR AS CAPAS


Coisas

Adelino Tavares da Silva – António Manaças – Baptista-Bastos – Carlos Porto – José Martins – Nelson de Matos – Paulo da Costa Domingos – Pedro Oom – Virgílio Martinho – Vitor Silva Tavares
Capa: João Vieira
&etc, Lisboa, Março de 1974

Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro preocupava-se muito com a ignorância do seu povo.
 A percentagem de iletrados era tal que não se descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram a “Cartilha Paternal”, onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.
A “Cartilha Paternal” foi distribuída gratuitamente a todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a tudo o que fosse papel, liso ou impresso.

Moral: a instrução não custa um tostão…


(Pedro Oom)

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

POEMA


POESIA NÃO É UMA MEDALHA PARA POR NO PEITO DOS TIRANOS MAS UMA IMENSA SOLIDÃO FEITA DE PEDRAS, ONDE O DESPOTISMO PODE ENCOMENDAR O ATAÚDE.CADA UM DE NÓS ODEIA O QUE AMA. POR ISSO O POETA NÃO AMA A POESIA QUE É SÓ DESESPERO E SOLIDÃO MAS ACALENTA AO PEITO AS FORMIGAS DA REVOLTA E DA REBELDIA, QUE TODOS OS DÉSPOTAS QUEREM SUBMISSAS E PROCRIADORAS. SÓ OS VOLUNTÁRIOS DA MISÉRIA E DA SUBMISSÃO PATRIARCAL QUEREM A POESIA NA ARCA DA ALIANÇA COM A TRADIÇÃO PACÓVIA E REGIONALISTA DOS PRETÉRITOS DIAS, GLÓRIAS PATRIOTEIRAS, HEROICIDADES FRUSTRES, PIRATARIA IGNARA. TODO O VERDADEIRO POETA DESPREZA O PEQUENO MONTE DE ESTERCO ONDE O DEJECTARAM NO PLANETA E A QUE OS OUTROS CHAMAM PÁTRIA, E SÓ AMA OS GRANDES CONTINENTES MARES E OCEANOS DA LIBERDADE E DO AMOR. SÓ NOS VASTOS ESPAÇOS INCRIADOS A POESIA SERVE O SEU DESTINO — CATAPULTAR O HOMEM NOS ABISMOS DO DESEJO INCONTROLADO ONDE O PRÓPRIO ASSASSINATO É UM ACTO DE POESIA E DE AMOR. ESTE ASSASSINATO DE QUE FALO É O GRANDE AMPLEXO DE HOMEM PARA HOMEM A SOLIDARIEDADE E A TERNURA, NÃO A CARIDADE HIPÓCRITA OU A CAMA DE FAMÍLIA, COM TODO O SEU PEQUENO CORTEJO DE HORRORES, ONDE A EXPLORAÇÃO DO FILHO PELO PAI DITA A SUA LEI.

Pedro Oom em Grifo, Abril, 1970

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

NOTAS PARA A RECORDAÇÃO DO MEU AMIGO JOÃO


 No arrazoado que acompanha os DVD da Integral João César Monteiro quase arrisquei opinião: “Apetece dizer que os filmes do César são mais “escritos” (ou “escritas”) do que as suas representações, ou ilustrações, audiovisuais.”

Valha isto o que valer, não enfatizo: afinal também eu, qual César pouco augusto, “não percebo nada de cinema” (piada dele aos especialistas?), isto apesar de ir às fitas desde a idade de chucha na boca – o que não dá direito a borla e capelo.

Gaguejei não muito afastado das vozes mais abalizadas de gente que faz cinema ou que, diminuindo, trabalha a fabricá-lo, coisa que remete para questões de finança e técnicas de fabrico. O resto são flores – nas entrevistas.

Segundo os profissionais, “o César escreve muito bem, só é pena que seja ele a realizar os filmes”. Pois: quando foi ele a dizer o mesmo sobre os seus charmes plumitivos, ressabiado prometeu logo ali assassinar o escrevente. Hossana!, não conseguiu.

Por mim acontece ou aconteceu que até o escrevinhei (na orelha do volume que reúne os argumentos de LE BASSIN DE J. W. e de AS BODAS DE DEUS): Melhor do que ele, ninguém escreve em português de – e para – cinema. São os seus scripts (ou filmes da galáxia Guttenberg) de lamber a língua canónica: volúpia e escarnho, ascese e escatologia numa ondulação de tal modo ritmada que é já quase erótico, cópula astral. E mais, de passo: Depois, quando iluminados por projecção mágica, viram ópera: teatro e música enquanto, e só, artes sacras – comédias, bufonarias sejam, libertinagens, profanações.

Logo aqui se vê que não estamos perante linguagem crítica, seja esta o que for. Não ousa o exegeta quejandas subjectividades impressivas, antes parte em romaria aos “Cahiers”, ou aos “Inrockuptibles”, petiscar ideia e jargão formatado. Ai de mim, que “também eu escrevi cartas de amor, como as outras, ridículas”. Já é azar.

Admirarei menos os filmes do César? – Nem vale, para o caso. Desconfio sempre de dicotomias com água (forte) no bico. E já o disse, assinado, que um só plano do bijagós (exemplo: “uma laranja sobre a mesa”), pela sua carga, pela sua densidade, pesa mais em mim que quanta estrelada filmografia: é que os instantes de graça (“instantes de Camões”, pressentia-os o Manuel Maria Barbosa du Bocage) só faíscam, só fulguram, em receptores sintonizados. A questão das agulhas magnéticas não é aqui despicienda.

Tem mais que idade para ter juízo, posto o não tenha, a minha queda pela escrita do César. E julgo saber, ou tão-só intuir (não vai dar ao mesmo?) de onde ela venha (aparte o pendor congénito), com seus recortes vicentinos, sem requebros barrocos, sem colagens “esquisitas”. Leituras dele, pois mais que muitas – e aí está a biblioteca, feita e refeita ao sabor de tempestades, a atestá-lo. Para não gastar papel, que está caro, aponte-se ao acaso os românticos franceses e alemães, os surrealistas e demais grandes transparentes, todo o Sade, meu caro Watson, todo o Nietzsche (esse que inundou de luz negra o script original de VAI E VEM), mais os modernistas portuguesas e seus egrégios avós, Nobre, Pessanha, Cesário, mais Dante, Molière, Shakespeare, Dostoievski, chega? Tivera ele mais uns meses de vida e arriscaria ter de sair de casa expulso pela cubicagem de livros e cêdês – mas esta é outra música.


Lá por onde rompemos solas e puímos fundilhos, canoras vozes a ambos excitaram as ávidas orelhinhas (sentenciou Mestre Aquilino que para se ser escritor “é prechijo orelha”). No palco sonoroso – pleno olho da rua ou suspeitos cafés tristes – era um rol de tenores: do grave, e probo, Carlos de Oliveira, sotto-voce alquimicado em cristal na Micropaisagem e em Finisterra, ao “corpo escrevente” Luiza Neto Jorge, passando – pare, escute e olhe – pelo Cesariny de Pena Capital e Nobilíssima Visão (ele que já louvara, simplificando, o Álvaro de Campos e dera o pontapé definitivo no “realismo socialista” com seus trolhas e suas couves, pelo picaresco Cardoso Pires, pelo atómico Herberto das viscerais magias, e pelas verrinas, pelos vitríolos, pelo negro humor sacana de um batalhão de pelintras alcoólicos (ou românticos inveterados, como queiram) tais o Virgílio Martinho, o Forte da faca nos dentes, o Sebag planeta precário, o Pacheco da crítica de circunstância, o Ernesto Sampaio da luz central, o Pedro Oom sonhador espacializado, o Manuel de Castro crocodilo, gente que oriunda ou nem por isso de idealismos igualitários e até, alguns, de militâncias ao jeito moscovita (tentação ditada pelo sufoco da ditadura que não por rigores ideológicos, sempre de pôr entre aspas em tão incorrigíveis egocêntricos), será o berro libertador, ou libertário, e se pusera cá fora, entre rancores que remédio literários, a “rir de tudo”.

César à coca. E a buscar contrapeso e medida na ática Sophia como nos labirintos caligráficos da Velho da Costa, com quem forjou cumplicidades digamos “dialéticas”.

Salgaram todos a língua já de si agilíssima daquele que em suas primícias de bardo (Corpo Submerso, ed, Do Autor, 1959), a par de um tocante, por ingénuo, lirismo amoroso e existencial à la Daniel Filipe ou Zé Gomes Ferreira do Eléctrico (mas lá está ela, a pulsão lírica, a assomar nos filmes, contrapontando bojardas), afirmara ter, como brincadeira preferida, “atirar merda à cara das pessoas” e , como religião, o Urinismo – O ritual de carácter absolutamente erético consistia em Mijar em igrejas e conventos: auspiciosas liberdades poéticas a configurar o “Surreal-abjeccionismo” proposto por Pedro Oom como saída, “para sobreviver livre”, a um surrealismo por cá agrilhoado (na ignomínia salazarenta, “que pode fazer um homem desesperado quando o ar é um vómito e nós seres abjectos?”) e que lhe hão-de enfarpelar uma imagem de marca não mais descartável.

[Setembro de 2003 (ver “Diário de Notícias”), meses depois da sua morte, ainda um tal Mexia, Pedro, o associava a Luiz Pacheco, ao Manuel João Vieira dos “Ena Pá 2000”, ao humorista José Vilhena e cá ao rapaz como fazendo parte de “uma sub-cultura lisboeta mais ou menos escabrosa” própria, logo concomitante, de “uma família devassa”. Em sacristia, muito educativo.]

Os tempos então vividos (décadas de 60-70, com a erupção académica de 61, a guerra colonial e, sobretudo, com o Maio de 68 a disparar formidáveis anarqueiradas e ardentes esquentações românticas sem virgens ao luar) jogaram de feição com o alto-contraste de um César em condição ontológica de vadio e pedinte, não raro roído de fomeca, mas senhor – alto lá! – de “todos os sonhos do mundo”, incluindo o de cinema, contrariado que fora em pequenino ao ver recusada pela progenitora a sua “visão cinematográfica de OS TAMBORES DE FU-MANCHU”: cineasta à vista?

Ora sonhar é fácil – posto que nem sempre sustente a vida, isto é, o estômago. Escrever poemas ou cartas de amor loucas loucas, encher granéis a exprimir amores e desamores sobre matéria de arte, a 7ª (o sublinhado anula o seu uso mercantil), sempre sai mais barato (basta papel, bic, bica e beata no beiço), pode render um que outro maravedi (perguntem ao Bénard de “O Tempo e o Modo”) e, hélas!, desde logo orientar azimutes para a poética (visceral, vivencial) da criação cinematográfica que havia de vir, desse lá por onde desse e custasse, a quem estas coisas custam, o que custasse. Saltando da literatura, pois que dela partindo, o verbo queria-se iluminado, refulgente, um dia animado na alvura da pantalha como violação, exorcismo, e sublimação. A cabeça fervia-lhe (autopsicografava-se já então o “esquizoide”), sendo que o sopro da combustão advinha, não por menos, do compulsivo ódio à burguesia (por uma vez, sem aspas) como do mais intenso, do mais radical fundamentalismo poético – Poesia e Revolução num corpo único e à prova de ara sacrificial. “Je est un autre”. O outro, obviamente, precatava-se: tem a bondade de me auxiliar?


Salivas trocadas, raivas, zangas, risos, no ir descendo nocturnamente a Fontes Pereira de Melo, e porque o abaixo assinado então em funções editoriais no “Literário” do “Diário de Lisboa”, vá de pôr o génio ao trabalho – e de facto ao tostão, fiéis seguidores ambos do preceito cesarínico “ganhar sim, mas pouco”, que era e é, nos sem jeito para o negócio, o que se paga pelo suplemento de oxigénio a que se pode chamar “liberdade”, dessa que abomina, e portanto dispensa, genuflexões de colete e respeitinho.

Vem daí o “pas de deux”, nunca mais abandonado. E quando irrompe (em 73) a revista & etc (aquela que se quis cultural q.b. porque ele há mais vidas e outros modos de se estar nas ditas) foi um fartar vilanagem: prosa de Joãozinho arrancada a ferros dos castos lápis censórios, e logo pois sob cobertura “das mais amplas liberdades” consentidas e fomentadas pela folheca – vá de ameaças de murro e pontapé ou, em alternativa, de processos judiciários. De pronto, a interrogação do energúmeno ao editor responsável: “Dá prisa?”. E logo a resposta do amigo da onça: “Que tabaco fumas?”

Porque ninguém, muito menos eu (se de um lado chove, do outro troveja), lhe travava a gana, lhe amaciava a pena, lhe comovia o músculo cardíaco, sequer por mor de amizades corporativas ou conveniências alimentícias. Vista a esta distância, e mesmo somando as “liberdades democráticas” prodigalizadas pelos poderes dominantes ajaezados de abrilistas, é ainda de espanto graúdo o destempero, o furor interventivo, a causticidade, a própria e sempre tão cuidada acutilância estilística do nosso homem em Lisboa – voz subterrânea alcandorada à polémica do tempo a partir de um subterrâneo da Rua da Emenda.

Cá entre nós, era um festim. E já o cinema por um binóculo, a vozearia (ainda que de papel, ou no papel) a percutir nos tímpanos dos decisores. Aqui, uma mútua conspiração, muda, inominável. E uma relação ao abrigo de transacções: nunca por nunca, quer na revista quer nos livros publicados, recebeu César um chavo da chafarica, nunca por nunca arrecadou esta (cá, “só amor gratuito”, como o Régio) um chavo pelo trabalho do César.

[Citando João de Deus, o outro, o de Campo de Flores mas também de Criptinas, “vou-vos contar uma história / em prova desta asserção”: estava pronto em chumbo na tipografia o livro Morituri quando a & etc dá o badagaio – nem um tuste para gastos. Que fazer, Vladimir Ilitch? Posto o autor ao corrente, das duas uma: ou chumbo para a caldeira, execução sumária, ou, bóia de salvação, propor a obra, sem despesas, ao editor Nelson de Matos, então na Arcádia.

César opta pela hipótese salvadora, corro ao Nelson, aceita este pagar à tipografia a impressão em troca de ficar a Arcádia com os exemplares da tiragem. Vivas e olés! Publicado o livro (todo & etc, capinha de João Vieira, extra-texto do João Rodrigues, sobrecapa kraft, anilina preta a dar patine às margens das folhas), recebe o autor por copygaitas 20 ou 25 exemplares e eu uns 5 ou 6 pelo trabalho.

Que de euforia! O livro estava cá fora, são e salvo.

… E mais ficou quando, por sua vez falida a Arcádia na enxurrada do 25 de Abril, foi parar a padiolas de venda na rua, contribuindo assim para almoços & jantares de uns tantos trabalhadores desempregados. Anos volvidos, ainda eu comprava, para o desvalido autor, qualquer exemplar que se encontrasse aí perdido.
Desse avantajado sucesso popular retenho um livro na estante. Creio que à altura da morte, o César nem um para amostra.]


Virá a talhe de foice (já que não pode vir a sabre ou a canhão: as letras têm destas limitações) relembrar a miserável campanha difamatória que almejou conspurcar o autor da BRANCA DE NEVE: os pipolares altifalantes da piolheira denominada de pagadora de impostos, no nítido nulo do pensamento crítico, vá de estrondearem o César como salteador de carteiras, burlão que saca o seu do bolso da maralha contribuinte para, costas ao alto quanto a trabalhinho que se visse, ter a lata de pôr em circulação um filme “todo negro”. O “puta que os pariu”, como o “quer que o público se foda” – léxico de Monteiro quando fera acossada –, ao invés de sublinhar a dramática condição do artista face à mais boçal ignorância mesclada de malvadez, cavou de vez o fosso entre uma súcia devoradora de lixos e um homem que sempre recusou submeter o seu trabalho à lógica mentecapta, e aos imperativos, do capital. De muito poucos se pode dizer o mesmo.

Por cá andou, devassado de sonhos de grandeza. Nesta feita cabisbaixa “revisited”, alguns palpitam, ou fosforescem, em forma de filmes. Outros ressaltam nos textos que escapou, espelhando. De costas viradas a uma contemporaneidade lorpa, promotora descarada de equívocos e embustes celofanizados pelo marketing, negou o oportunismo jornaleiro, dito “sociológico”, e avançou com seus próprios pés por um território dificultoso, em parte por desbravar, mas que livra o cinema do espartilho de “espectáculo” – no que este tem de pronto-a-comer & amanhã há mais – para o inscrever de pleno direito no plano superior do espírito, que é aquele a que o artista se obriga.

Este “Lord das Escócias d’outras eras” nosso contemporâneo, forçado a Nosferatu pela pestilência do tempo e do lugar, tornou público um ser endemoinhado, sarcástico, inconveniente até à insuportabilidade. Não poucos foram “vítimas” das suas fúrias incontroladas, das suas telhudas exigências, da violência das suas objurgatórias. Assim fardado (ocultando pois o Pierrot lunar), não é de admirar que o João César Monteiro fosse temido e, pior, odiado. Ele, que em tempos se diagnosticava “não sou uma natureza agressiva, antes pelo contrário” (in “A Minha Certidão”), apesar de ter pretendido estilhaçar uma garrafa de tinto na moleirinha do Cunha Telles por este o ter chamado oportunista, ressentia-se fundo – e devolvia a parada, com juros. A quem o julgou derrotado, ou afim domesticado, após o som e a fúria da borrasca BRANCA DE NEVE, respondeu com o script mais soberbo, mais feroz, de toda a lusa cinematografia – VAI E VEM – e, como num imenso adeus quiçá premonitório, com o seu filme mais hierático, mais conciso e contido, mais cristalino do seu cânone de rigor obstinado.

Com distanciamento irónico ou sem ele, confessou-se aos 20 anos “sempre heróico” e “de peito exposto às feras. Certo é que, algo zurzido por acidentes e disparates da vidinha, nunca lançou a toalha ao tapete nem se acomodou ao repouso do guerreiro. Não é que o percurso biográfico de razão ao promitente herói da Figueira da Foz?

Não sei se “o cinema” perdeu alguma coisa com a sua morte. Eu perdi – mas quem sou eu senão o que gostaria de afirmar que a Cidade também, aquela Cidade onde “tout homme rêve d’être dieu” (citação de André Malraux no pórtico de Corpo Submerso)?

Sabemos que a alturas tantas da sua vida, num desdobramento heteronímico, o César Monteiro passou a denominar-se João de Deus.

Em tal Diabo, foi e é para levar a sério, diz-me aqui a caneta.

Vítor Silva Tavares em João César Monteiro, Cinemateca Portuguesa.

Legenda:Anúncio, publicado no Diário de Notícias de 12 de Dezembro de 2003 e capas dos livros de João César Monteiro publicados pela & etc.

domingo, 25 de janeiro de 2015

PROJECTO DE SUCESSÃO


Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.

António Maria Lisboa, poema dedicado a Mário-Henrique Leiria

Legenda: Grupo Surrealista de Lisboa, Portugal 1949. Na foto, da esquerda para a direita : Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos. I Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho, 1949.

Imagem retirada de Citizen Grave

domingo, 27 de abril de 2014

ATENTA EXPECTATIVA


27 de Abril de 1974.

O terceiro dia da nossa vida em liberdade.

Todos os jornais dão conta das reuniões que vão ocorrendo, no Palácio da Cova da Moura, com a Junta de Salvação Nacional, das manifestações de apoio ao Movimento das Forças Armadas que vão acontecendo por todo o País.
Anuncia-se que está prevista para amanhã a chegada a Lisboa de Mário Soares e que os bancos
reabrirão na segunda-feira dia 29.


Após demoradas negociações são libertados os presos políticos que se encontravam no Forte de Peniche. Os presos tinham decidido que ou saiam todos ou não saia nenhum.

Esta é a 1ª página de A Capital que na sua página 4 noticia que o Presidente da Assembleia Nacional, engº Amaral Neto cancelou a reunião marcada para este dia e aguarda, apenas, que a Junta de Salvação Nacional decrete a dissolução da Assembleia.


O Diário Popular dava conta que, em Beja, foi preso pela polícia um homem que ostentava um cartaz a pedir a extinção da PIDE.


Destaque na página 14 para a reunião que a Conferência Episcopal iniciou, em Fátima, no dia 23, ainda em tempo de ditadura, e que teve o encerramento ontem ao final da tarde.
Os senhores bispos mudaram de agulha e emitem um comunicado em que formulam votos para que os acontecimentos destes dias contribuam para o bem da sociedade portuguesa, na justiça, na reconciliação e no respeito
por todas as pessoas. Apelam para a virtudes cívicas dos católicos e demais portugueses de boa vontade. E rezam a Deus pelo povo de Portugal.


A conferência aproveita para se solidarizar com o Bispo de Nampula, expulso de Moçambique, nos primeiros dias de Abril, pela ditadura.


Essa solidariedade teria sido bem-vinda aquando dos acontecimentos, que também envolveram a expulsão de diversos missionários acusados de atentados de se oporem à guerra colonial.
Mas apenas um beato silêncio.
Profundo foi também o silêncio que os senhores bispos mantiveram, durante quarenta e oito anos, com um regime que oprimia e perseguia um povo e mantinha em África uma guerra  que matou, estropiou milhares de portugueses e africanos..

O República revelava que no Forte de Caxias estavam presos 228 membros da Ex-PIDE-DGS e que ainda continuavam à solta mais de dois mil agentes.



Oportuna a entrevista que na página 13 o desembargador Rocha Cunha concedeu a Fernando Assis Pacheco.
Está por fazer a história da participação dos juízes dos Tribunais Plenários. Pior ainda o sabermos que, após o 25 de Abril, esses mesmos juízos foram integrados no sistema judicial sem nunca terem sido responsabilizados e julgados. Eles foram protagonistas do aparelho repressivo da ditadura.
Uma impunidade que há-de estender-se aos agentes da PIDE-DGS e outros servidores do Estado Novo.


Não por uma questão de vingança, apenas por uma questão de justiça.
Na sua página de espectáculos o jornal avisava que, por motivos óbvios, não era possível revelar a programação da RTP:


Como os restantes jornais, O Século noticiava o assalto que populares fizeram ao edifício do jornal Época, que não se publicou neste dia, e que obrigou à intervenção de elementos das Forças Armadas.
Face a este incidente, e outros que iam acontecendo, a Junta de Salvação Nacional emitia um comunicado:,, como a invasão das instalações da A.N.P. a Junta de Salvação Nacional tomava posição.


Na página 7 publicava-se uma fotografia de Eduardo Gageiro  que registava o momento em que um membro da PIDE-DGS era preso.
Esta fotografia correrá mundo.


Também a notícia da morte do poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. O poeta que tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto, e não resistiu à emoção de ver cair a ditadura,


Fotografia na última página do Diário de Lisboa.


No Largo da Misericórdia, o povo largou fogo a um automóvel da PIDE, ontem á tarde. Três agentes transportavam-se nele quando, cerca do meio-dia, foram identificados por populares arrastados para junto do pelourinho do largo e desramados pelo Exército. O povo queria linchá-los, tendo sido contido só a muito custo pelo capitão e pelos poucos soldados que os guardavam.

Como era sábado, saída para as bancas do semanário Expresso
Curiosidade sobre a abordagem que seria feita aos acontecimentos do 25 de Abril, mas os leitores encontraram uma edição inócua e hibrida.
A parte final do editorial do Expresso:


 Na página 14, em despudoradas afirmações, o ultra-salazarista Francisco Cazal-Ribeiro aguardava com atenta expectativa que a Junta de Salvação Nacional viesse a cumprir as promessas de liberdade constantes da sua declaração ao país.