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terça-feira, 7 de maio de 2024

SABUGOSA

 Reservou mesa no terraço para o chá,

no miradouro das Furnas. Diz-se que fazia versos

noutra vida e que, especialmente no soneto,

ombreava com Gonçalves Crespo.

Diz-se ainda que este velho sabia estimar os livros.

De resto, a vida é perfeitamente suportável

enquanto a música toca. É mais difícil quando pára.


Estou por isso curioso sobre o que quero

Perguntar-lhe. O que leva um homem a desfazer-se

Da sua própria biblioteca? Relações baseadas

 em circunstâncias extremas? Dívidas

causadas pela seca? Barcos atracados

na escuridão? E como superamos algo assim?

Um correspondente que se arranja? Alguém

com interesses parecidos? Dezenas de cartas

trocadas entre duas solidões?

 

De repente, parece um alvo fácil.

Como fica nervoso. E como tenta encobri-lo.

(Ora, sujeito poético, de regresso

Ao campo de tiro. Francamente, nem parece teu.)

Voltemos talvez ao princípio; reservou mesa

no terraço para o chá, no miradouro das Furnas.

No, this is nice and quiet. Deixemos as coisas assim.


Vítor Nogueira de Quem Diremos Nós que Viva? em  Resumo: a poesia em 2010. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Carrossel

Não enxergas. Quer dizer, olhas para isto e não vês
nada. Em rigor a manhã só desperta com o gesto
de um miúdo. Estender o braço e fazer pontaria.
Há quanto tempo está ali, a observar-te?

À volta de toda a praça, o grande carrossel gira,
o grande ciclo da vida, a morte e o renascimento.
Vozes desconhecidas ecoam por todo o lado, palavras
que se transmitem de uma geração para outra.

Pois bem, o balanço do mar largo continua.
Não te deixes enganar pela harmonia da calçada.
Hoje é dia das mentiras, és capaz de ter razão.

Vítor Nogueira em Resumo: a poesia em 2009