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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

OLHAR AS CAPAS


Uma Época no Inferno

Jean-Arthur Rimbaud

Versão Portuguesa, prefácio e notas de Mário Cesariny de Vasconcelos

Colecção Documento Humanos nº 9

Portugália Editora, Lisboa, Junho de 1960

Outrora, se estou bem lembrado, a minha vida era um festim em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam.

Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos. — E vi que era amarga. E injuriei-a.

Armei-me contra a justiça.

Fugi. Ó feiticeiras, ó mistério, ó ódio, éreis vós a guarda do meu tesoiro?

Consegui destruir em mim toda a esperança. Contra toda a alegria lancei o bote cego da besta feroz. Estranguladas!

E chamei os carrascos para morder, na agonia, a corunha dos fuzis. Conjurei as pragas para sufocar na areia, mergulhar em sangue. O infortúnio foi meu vero deus. Estiracei-me na lama. Sequei ao ar do crime. E preguei boas partidas à loucura.

E a primavera trouxe-me a terrível risada do idiota.

quarta-feira, 15 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS

 A CEO da Sonae, escreveu uma carta aos trabalhadores da empresa em que declara que, face aos aumentos que se verificam na cadeia alimentar, existe  uma «campanha de desinformação» e que tal provoca «danos gravosos para a reputação do sector da distribuição alimentar», não deixando de lembrar trabalhadores, pagos quase miseravelmente e com horários de escravatura que: como sabem, baixámos as nossas margens para acomodar o aumento dos custos». 

Agora, «Os Mesmos de Sempre a Pagar» fizeram a entrega nos escritórios da Sonae em Matosinhos de uma carta-resposta à CEO:

«Esquece-se, Cláudia Azevedo, que os trabalhadores a quem se dirige conhecem os lucros anunciados pela Sonae e sentem na pele as dificuldades provocadas pelos preços praticados pelos supermercados, cujo grande número é propriedade da Sonae». A essas dificuldades, afirma o movimento, acrescem os «salários miseravelmente baixos que levam para casa»: responsabilidade directa de Cláudia Azevedo.

Não vale a pena tentar disfarçar, «eles sabem bem que os vossos lucros foram e continuam a ser acomodados no aumento dos preços».

Se mais não houvesse a condenar na missiva, o facto de colocar o ónus da questão numa campanha de desinformação sobre as causas da inflação alimentar, com danos gravosos para a reputação do sector da distribuição já seria suficiente: afinal, num momento tão difícil, a Sonae registou um lucro consolidado de 143 milhões de euros em 2022, mais 19% do que em 2021.

«Como cidadãos preocupados com estes aumentos escandalosos dos preços, principalmente nos bens alimentares e de primeira necessidade, consideramos urgente e necessário o controlo e fixação dos preços

dos bens essenciais, para além do aumento geral dos salários, tal como consideramos totalmente desnecessárias e desrespeitosas campanhas de desinformação, venham elas de onde vierem», mas «muito especialmente quando vêm de quem efectivamente especula»

 1.

Segundo o Jornal de Notícias, um professor da Escola Secundária de Baião foi hoje agredido por um aluno à cabeçada e ao pontapé, tendo ficado ferido.

Pelo que foi possível apurar, as ameaças de agressão a professores e a auxiliares de ação educativa eram frequentes. 

2.

Gavril Yushvaev é, segundo a Forbes, uma das cem pessoas mais ricas da Rússia.

Cinco meses depois de ter sido sancionado pelo Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia por ligações próximas ao Presidente russo, Vladimir Putin, o multimilionário Gavril Yushvaev, com nacionalidade russa e israelita, continua a aguardar pela naturalização portuguesa, ao abrigo da lei dos sefarditas, que possibilita a atribuição da nacionalidade aos descendentes de antigos judeus que habitavam na Península Ibérica no final do século XV. O oligarca tem cadastro criminal e foi apontado, nomeadamente pelo Governo espanhol, como estando ligado a um dos mais poderosos grupos de crime organizado da Rússia.

Recorde-se que Roman Abramovich, oligarca russo ex-dono do Chelsea, por portas e travessas mais que escuras, obteve a nacionalidade portuguesa numa operação consentida pela autoriddaes portuguesas e repleta de irregularidades cometidas.

3.

As obras de modernização da linha ferroviária do Oeste estão paradas há dez meses e correm o risco de perder financiamento comunitário.

4

Vão abrir 65 hotéis em Portugal durante 2123. mas o sector do turismo perdeu 45 mil trabalhadores durante a pandemia e debate-se com dificuldades em contratar pessoal.

 5.

 Ana Cristina Leonardo, no Café do Monte, regressa  Mário Cesariny de Vasconcelos:

 «… o homem precisa da mulher. É a tragédia dele. Inventou a Matemática, a Aritmética, a aviação, a Nona Sinfonia, a ida à Lua… (…) Ela, muito quietinha em casa, a tratar de coisas importantes, como a comida e a roupa, enquanto o sábio está a chorar frente às equações.»

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

CANTILENA PARA UM TOCADOR DE FLAUTA CEGO

Flauta da noite que se cerra,

Presença líquida de um pranto,

Todos os silêncios da terra

São as pétalas do teu canto.


Espalha teu pólen na alfombra

Do catre que por fim te acoite

Mel de uma boca de sombra

Como um beijo na boca da noite


E pois que as escalas que cansas

Nos dizem que o dia acabou,

Faz-nos crer que os céus dançam

Porque um cego cantou.

Marguerite Yourcenar

(Tradução Mário Cesariny)

terça-feira, 1 de março de 2022

QUOTIDIANOS

 Dias tão difíceis, tão impossíveis que o mundo vai vivendo.

O ateu empedernido que é, arrisca-se a perguntar, sabendo de antemão a resposta:

Onde está Deus que não desfere um tiro certeiro no bunker daqueles biltres loucos?

A mexer em papelada encontrou esta frase de uma carta do Mário-Henrique Leiria para o Mário Cesariny:

«Continuo lucidamente bêbedo, como de costume. Sabes que a felicidade é, afinal, uma coisa simples? Resume-se em conseguir não ter dores durante cinco minutos... só cinco, já bastam...»

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

POSTAIS SEM SELO

Mas dizia-me o Almada Negreiros, numa conversa de rua, que o maior grito pode ser um silêncio.

Mário Cesariny de Vasconcelos

CONVERSANDO


 No Corpo Visível do Mário Cesariny, eslão lá estes versos: o moço que há uma hora não fazia senão fumar cigarros, o mesmo que julgou ter a noite perdida, que maçada, sempre encontrou o seu par, lá vão eles já no extremo do outro lado da praça

e também há aquele outro poema

Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto, tão perto, tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

O Manuel António Pina, na morte do poeta (26 de Novembro do ano de 2006), disse que o Cesariny tinha vivido como quem aproveita uma oportunidade única e sabíamos do seu fascínio por marinheiros e várias vezes foi preso pela polícia de costumes o que, segundo Luiz Pacheco deitaram-no muito abaixo, ele tinha de ir todos os meses ao Torel, à apresentação, uma imposição muito chata, se faltava prendiam-no.

segunda-feira, 19 de outubro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Por Menos, Só Talvez no Biafra

Vitor Silva Tavares, Mário Cesariny, Sérgio Lima

Capa: Carlos Ferreira

Barco Bêbado, Lisboa, Setembro de 2020


Meu Caro Poeta

Desculpe-me o só agora. Mada por não ter ficado grato pelas suas cartas e o folheto «Noa Noa» do Le Clézio, este ao encontro do que muito prezo na intervenção editorial. Aconteceu que deambulei por outras geografias próximas do meu recolhimento – e tal foi este que até o propósito de lhe escrever se me ficou a leste. Não sem recriminações: é que não queria, não quero, que V. pensasse ter o seu contacto caído em nenhures. Julgo ter captado os sinais, a fala – afinal o que importa.

Reeditar o Pedro Oom? – Uma já neurótica tentação, sempre adiada por dúvidas, escrúpulos, falta de molécula para enfrentar as previsíveis dificuldades, talvez uma humildade castrante por exagero, talvez uma certa cobardia, talvez a assumição de uma desistência a somar ao real. Só de pensar na irmã do Pedro, senhora que me esgota a capacidade de classificação, sinto logo o desejo de não tirar a cabeça do buraco. Não que ela tenha o que quer que seja a ver com a obra do irmão, sim porque tal se atribui mais do que não seja por razões… de sangue (?!) e isso me incomoda sobremaneira.

Pretextos meus? Admito. Mas também admito que o seu convite (ou a sua proposta) me espevite para o que tem de ser feito, é sempre a Hora! Óbvio que não veria, não vejo, quem melhor, com mais propriedade e justeza pudesse organizar o livro do Pedro que o Mário Cesariny. Assim se disponha, assim desato eu o novelo em que me tenho enredado. E com júbilo!...

(de uma carta de Vitor Silva Tavares para Mário Cesariny).

domingo, 16 de agosto de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

AS CARTAS DO PACHECO

Se existiu alguém que deu trabalho aos Correios de Portugal, Luiz Pacheco está no pelotão da frente.

Através do seu ficheiro pessoal enviava aos leitores, à cobrança, os livros da Contraponto,

Por tudo e por nada, enviava, cartas e bilhetes-postais, a meio mundo e parte do outro.

Numa entrevista chegou a observar:

«As pessoas dizem «estou a ler», «tenho à cabeceira», mas não lêem. Dizem que não têm tempo: não têm é hábitos de leitura.»

Para os livros da Contraponto Pacheco não invocava nada.

Lessem ou não lessem, o importante é que mandassem o guito,  para ajudar à sobrevivênciazinha.

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Já em Maio de 1974, Pacheco lança, na Estampa, Pacheco Versus Cesariny, um folhetim inventado e montado.

Entre a muita correspondência que por lá abunda, há uma carta do crítico e escritor Manuel de Lima, que começa assim:

«Acabo de saber, com grande surpresa e algum alarme que, todas as vezes, que lhe escrevia por uma simples necessidade de comunicar consigo, estava inadvertidamente a escrever para a história.»

Na conversa que Rui Zink e Carlos Quevedo mantiveram com Luiz Pacheco, foi-lhe perguntado como tinha surgido a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas.

Pacheco respondeu:

«No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco versus Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só.»

Os jornalistas lembram-lhe que as pessoas podiam ficar chateadas com a publicação das cartas.

Pacheco não desarma:

«Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois, um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca maus me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca era mais de 100 ou 200 paus…»

Em Fevereiro de 2002, Bernardo de Sá Nogueira, edição Alexandria, transcreve treze cartas e quatro postais de Luiz Pacheco para o poeta António José Forte. 

O livro chama-se Mano Forte.

Pacheco não gostou.

Na entrevista a João Pedro George, publicada em O Crocodilo que Voa, explicou:

«Um tipo sabe que fulano António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais. Guardou, morreu, foi para às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… Depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial, e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra…»

Luiz Pacheco no seu Memorando, Mirabolando, Setembro de 1995 para além de outros textos, publica cartas enviadas a Mário Cesariny de Vasconcelos, Pepe Blanco, Jaime Aires Pereira, Jaime Salazar Sampaio, Vitor Silva Tavares e Maria Manuela Ferreira.

Muito mais postais e cartas existirão por aí espalhados em jornais, jornalecos, revistas, revistecas.

Talvez algum dia se faça a necessária divulgação de toda essa correspondência.

Talvez…

Texto publicado em 15 de Dezembro de 2016.

Legenda: pintura de William Albanese

segunda-feira, 20 de julho de 2020

OLHAR AS CAPAS


Comunicado ou Intervenção da Província

Luiz Pacheco
Capa e «hors-texte»: Ferreira da Silva
Edições Contraponto, Caldas da Raínha, 1966.

O Cesariny é o Poeta do Corpo e toda a cidade queimada o manifesta toda a sua poesia desde Corpo Visível o revela, glosa esse tema inalterável, com uma sinceridade e uma violência que no-la afirmam muito mais do que um simples inventado exercício de ritmos e rimas, aliás superiormente dotado e laborado, mas com uma revolta do sangue, a voz de uma pessoa indomada e indomável. Direi também: um orgulho e um desafiop ao Tempo, principalmente ao nosso tempo.
Porque NÂO VOS ESQUEÇAIS! estamos enterrados desde há perto de dois mil anos numa civilização, a nossa por nosso azar, que despreza o corpo, o castiga com torpezas várias, trabalhos inúteis, o crucifica à martelada sendo precisos, o consome estupidamente fora e abaixo das suas próprias funções e beleza – até à chegada infalível do cangalheiro.
ÓDIO AO CORPO!
É o que eles ensinam e comandam desde os bancos de escola.
AMOR AO CORPO!
É o que o poeta quer e recomenda e pratica, mesmo no fundo cárcere, até nos silêncios entre as suas palavras.
Ora já me parece que vai sendo altura de perdermos a timidez ou a vergonha    O MEDO    e fazendo muitas figas e TOMAS! aos  carrascos do corpo e aos apressados coveiros que nos rodeiam, usarmos o nosso corpo e o alheio a bel-prazer, e conforme melhor nos apeteça. Não proponho a luxúria, que é a desordem dos sentidos, mas a libertação do medo, Seguirmos as lições de SADE, a estratégia de LACLOS, o à-vontadinha de MILLER, os requintados pas-de qautre do DURREL PORQUE ALEXANDRIA ESTÁ ONDE NóS QUISERMOS!
e tanto e tão fácil na velha Baixa pombalina, como por aqui no Parque das Caldas, ou nessa pacata Rua Dona Estefânea, onde nasci. Basta querermos… mas nada de exibicionismos, cuidado muito cuidado, que a BASTILHA DA PÊJOTA é numa esquina aí perto… e os seus calabouços, pelo que vi, têm má ventilação.

domingo, 5 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL

Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica: Natália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.

O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia. por Fátima. «apareceu» a três pastorinhos.

Texto publicado em 17 de Fevereiro de 2017

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Cais negramente reflectido nas águas paradas,
Bulício a bordo dos navios,
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
Há sempre qualquer alteração a bordo!

Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa,
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...

Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias próximas, vistas de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramam
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.

Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
– O medo ancestral de se afastar e partir,
O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo –
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa.
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...

A manhã de Verão está, ainda assim, um pouco fresca,
Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.
Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.
E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida,
E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva.

Fernando Pessoa

domingo, 2 de julho de 2017

EM QUE CORDA SENSÍVEL LHE TOCASTE?


Na última carta, Jorge de Sena fazia referência a umas trapalhadas de que fôra vítima por parte de Mário Cesariny de Vasconcelos.
Em carta datada de 25 de Novembro de 1969, Eugénio de Andrade diz-lhe:

Vi os surrealistas de armas contra ti – não te enviei os recortes para que te não incomodassem. Não conheço o prefácio dos Manifestos. Em que corda sensível lhe tocaste? Acho que fizeste bem em não ligares ao assunto qualquer importância. Conheces bem o Mário Cesariny – ele precisa de um pequeno escândalo de vez em quando, para que não o esqueçam.


Legenda: Mário Cesariny por André Carrilho

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O QUE ELE QUER É CONVERSA...


Carta de Jorge de Sena, datada de 16 de Novembro de 1969, para Eugénio de  Andrade:

Viste o artigo do Cesariny, contra o meu prefácio do Breton, fingindo até que a tradução, que é do Tamen, é minha? Aquela víbora tem sido sempre uma das minhas sombras negras – sem que eu lhe tivesse feito jamais o mal que outros lhe fizeram. Cada vez mais acho que ele é apenas uma piada, com talento às vezes, piada promovida pela necessidade que todas as gerações sentem de ter um Botto de Estação do Rossio. Nada é mais triste que um raivoso que teve a sua hora. Curioso é como, na sua maioria, com honrosas excepções, a gente surrealista portuguesa se distinguiu sempre por uma falta de dignidade e de carácter a toda a prova: e tudo fica na triste diferença entre St. Germain des Prés e a Avenida Almirante Reis. Claro que, neste caso, o que ele queria era botar sentença numa edição que sonharia lhe fosse confiada. E falar de tradução um sujeito que pôs «surrealismo criador» nas suas falhas de francês e português ao traduzir Rimbaud… Que miséria – a dele, e a dos litras portugas que o papisam. O que ele quer é conversa – mas está bem livre. Não falemos em coisas tristes.

Em Correspondência

Legenda: Mário Cesariny de Vasconcelos

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL


O Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaNatália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.


O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia por Fátima «apareceu» a três pastorinhos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

AS CARTAS DO PACHECO


Se existiu alguém que deu trabalho aos Correios de Portugal, Luiz Pacheco está no pelotão da frente.

Através do seu ficheiro pessoal enviava aos leitores, à cobrança, os livros da Contraponto,

Por tudo e por nada, enviava, cartas e bilhetes-postais, a meio mundo e parte do outro.

Numa entrevista chegou a observar:

«As pessoas dizem «estou a ler», «tenho à cabeceira», mas não lêem. Dizem que não têm tempo: não têm é hábitos de leitura.»

Para os livros da Contraponto Pacheco não invocava nada.

Lessem ou não lessem, o importante é que mandassem o guito,  para ajudar à sobrevivênciazinha.

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Já em Maio de 1974, Pacheco lança, na Estampa, Pacheco Versus Cesariny, um folhetim inventado e montado.

Entre a muita correspondência que por lá abunda, há uma carta do crítico e escritor Manuel de Lima, que começa assim:

«Acabo de saber, com grande surpresa e algum alarme que, todas as vezes, que lhe escrevia por uma simples necessidade de comunicar consigo, estava inadvertidamente a escrever para a história.»

Na conversa que Rui Zink e Carlos Quevedo mantiveram com Luiz Pacheco, foi-lhe perguntado como tinha surgido a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas.

Pacheco respondeu:

«No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco versus Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só.»

Os jornalistas lembram-lhe que as pessoas podiam ficar chateadas com a publicação das cartas.

Pacheco não desarma:

«Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois, um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca maus me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca era mais de 100 ou 200 paus…»

Em Fevereiro de 2002, Bernardo de Sá Nogueira, edição Alexandria, transcreve treze cartas e quatro postais de Luiz Pacheco para o poeta António José Forte. 

O livro chama-se Mano Forte.

Pacheco não gostou.

Na entrevista a João Pedro George, publicada em O Crocodilo que Voa, explicou:

«Um tipo sabe que fulano António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais. Guardou, morreu, foi para às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… Depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial, e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra…»

Luiz Pacheco no seu Memorando, Mirabolando, Setembro de 1995 para além de outros textos, publica cartas enviadas a Mário Cesariny de Vasconcelos, Pepe Blanco, Jaime Aires Pereira, Jaime Salazar Sampaio, Vitor Silva Tavares e Maria Manuela Ferreira.

Muito mais postais e cartas existirão por aí espalhados em jornais, jornalecos, revistas, revistecas.

Talvez algum dia se faça a necessária divulgação de toda essa correspondência.

Talvez…

Legenda: pintura de William Albanese

quinta-feira, 2 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Imagem Devolvida

Mário-Henrique Leiria
Nota: Mário Cesariny de Vasconcelos
Capa: Júlio Navarro
Ilustrações: Cruzeiro Seixas
Plátano Editora, Lisboa Maio de 1974

Síntese

estrada  garganta  carta  asa;  navio  esfera  engano
talvez  relógio-de-sol  cogumelo  estação  árvore
nuvem; recordação  acaso  anel  sapatos  fumo-cara;
elefante  estômago  caneta  pássaro; vela  vara  cír-
culo  chuva  sempre  pêndulo  sol  comboio  ramo-lápis
cama; negação  permanência  cabelos  rua  crocodilo


                                      a  bala  volta  SEMPRE  à  origem

                                      o  teu  braço
                                      mais  afastado
                                      cada  vez  mais  afastado



A BALA    e   o teu braço

domingo, 25 de janeiro de 2015

PROJECTO DE SUCESSÃO


Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.

António Maria Lisboa, poema dedicado a Mário-Henrique Leiria

Legenda: Grupo Surrealista de Lisboa, Portugal 1949. Na foto, da esquerda para a direita : Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos. I Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho, 1949.

Imagem retirada de Citizen Grave

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

ESTA NOITE SONHEI COM O LUIZ PACHECO


Esta noite sonhei com o Luiz Pacheco – muito fino, de «smoking», num elevador espaçoso do prédio onde mora o João José Cochofel.
Íamos só nós os dois.
Depois de felicitá-lo por se encontrar solto, pedi-lhe se me autorizava a oferecer-lhe 100 escudos – o que ele aliás aceitou (e ainda bem!) com solenidade de me fazer um favor.
Quando o elevador se deteve, disse-lhe (razão do sonho?):
- Olhe que não fiquei zangado com a carta que me escreveu em tempos. Embora discorde de alguns pontos claro…
Deixei-o num patamar, com a sensação de que o Luiz Pacheco andava a vender tapetes-talento aos domicílios.
De «smoking».

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume V.

Legenda: Carta Sincera a José Gomes Ferreira de Luiz Pacheco, Colecção A Antologia em 1958, Edição de Mário Cesariny de Vasconcelos, Lisboa, 1959.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

OLHAR AS CAPAS


Textos Locais

Luiz Pacheco
Semi-prefácio: Mário Cesariny de Vasconcelos
Posfácio: Serafim Ferreira
Contraponto, Alcobaça, Maio de 1967

Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância nasci assim já velho mas sou um bocadinho bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim, outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantezinha verde o tipo que emprestava os livros à gente tinha uma farda preenchia-se um papel com o nosso nome e morada era coisa séria. Os jardins da minha infância tinham lagos peixes vermelhos flores subtis perfumes quentes cores triviais recantos de sombra lugares comuns esconderijos giros para a gente brincar. Não me lembro, ah que pena os namorados sim os namorados devia haver nos bancos do jardim ou perdidos passeando de mãos dadas falando ou calados apertados, não me lembro.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

CARTA A MÁRIO CESARINY NO DIA DA SUA MORTE


Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
que morreste. Talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nossos (sic), vivo.


Algo, de facto, deve ter acontecido
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume; quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.


Há apenas agora um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.


Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disto de repente
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.

Manuel António Pina em Resumo: a poesia em 2011, Assírio & Alvim, Lisboa Março 2012.