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quinta-feira, 28 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Cais negramente reflectido nas águas paradas,
Bulício a bordo dos navios,
Ó alma errante e instável da gente que anda embarcada,
Da gente simbólica que passa e com quem nada dura,
Que quando o navio volta ao porto
Há sempre qualquer alteração a bordo!

Ó fugas contínuas, idas, ebriedade do Diverso!
Alma eterna dos navegadores e das navegações!
Cascos reflectidos devagar nas águas,
Quando o navio larga do porto!
Flutuar como alma da vida, partir como voz,
Viver o momento tremulamente sobre águas eternas.
Acordar para dias mais directos que os dias da Europa,
Ver portos misteriosos sobre a solidão do mar,
Virar cabos longínquos para súbitas vastas paisagens
Por inumeráveis encostas atónitas...

Ah, as praias longínquas, os cais vistos de longe,
E depois as praias próximas, vistas de perto.
O mistério de cada ida e de cada chegada,
A dolorosa instabilidade e incompreensibilidade
Deste impossível universo
A cada hora marítima mais na própria pele sentido!
O soluço absurdo que as nossas almas derramam
Sobre as extensões de mares diferentes com ilhas ao longe,
Sobre as ilhas longínquas das costas deixadas passar,
Sobre o crescer nítido dos portos, com as suas casas e a sua gente,
Para o navio que se aproxima.

Ah, a frescura das manhãs em que se chega,
E a palidez das manhãs em que se parte,
Quando as nossas entranhas se arrepanham
E uma vaga sensação parecida com um medo
– O medo ancestral de se afastar e partir,
O misterioso receio ancestral à Chegada e ao Novo –
Encolhe-nos a pele e agonia-nos,
E todo o nosso corpo angustiado sente,
Como se fosse a nossa alma,
Uma inexplicável vontade de poder sentir isto doutra maneira:
Uma saudade a qualquer coisa.
Uma perturbação de afeições a que vaga pátria?
A que costa? a que navio? a que cais?
Que se adoece em nós o pensamento,
E só fica um grande vácuo dentro de nós,
Uma oca saciedade de minutos marítimos,
E uma ansiedade vaga que seria tédio ou dor
Se soubesse como sê-lo...

A manhã de Verão está, ainda assim, um pouco fresca,
Um leve torpor de noite anda ainda no ar sacudido.
Acelera-se ligeiramente o volante dentro de mim.
E o paquete vem entrando, porque deve vir entrando sem dúvida,
E não porque eu o veja mover-se na sua distância excessiva.

Fernando Pessoa

domingo, 2 de julho de 2017

EM QUE CORDA SENSÍVEL LHE TOCASTE?


Na última carta, Jorge de Sena fazia referência a umas trapalhadas de que fôra vítima por parte de Mário Cesariny de Vasconcelos.
Em carta datada de 25 de Novembro de 1969, Eugénio de Andrade diz-lhe:

Vi os surrealistas de armas contra ti – não te enviei os recortes para que te não incomodassem. Não conheço o prefácio dos Manifestos. Em que corda sensível lhe tocaste? Acho que fizeste bem em não ligares ao assunto qualquer importância. Conheces bem o Mário Cesariny – ele precisa de um pequeno escândalo de vez em quando, para que não o esqueçam.


Legenda: Mário Cesariny por André Carrilho

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O QUE ELE QUER É CONVERSA...


Carta de Jorge de Sena, datada de 16 de Novembro de 1969, para Eugénio de  Andrade:

Viste o artigo do Cesariny, contra o meu prefácio do Breton, fingindo até que a tradução, que é do Tamen, é minha? Aquela víbora tem sido sempre uma das minhas sombras negras – sem que eu lhe tivesse feito jamais o mal que outros lhe fizeram. Cada vez mais acho que ele é apenas uma piada, com talento às vezes, piada promovida pela necessidade que todas as gerações sentem de ter um Botto de Estação do Rossio. Nada é mais triste que um raivoso que teve a sua hora. Curioso é como, na sua maioria, com honrosas excepções, a gente surrealista portuguesa se distinguiu sempre por uma falta de dignidade e de carácter a toda a prova: e tudo fica na triste diferença entre St. Germain des Prés e a Avenida Almirante Reis. Claro que, neste caso, o que ele queria era botar sentença numa edição que sonharia lhe fosse confiada. E falar de tradução um sujeito que pôs «surrealismo criador» nas suas falhas de francês e português ao traduzir Rimbaud… Que miséria – a dele, e a dos litras portugas que o papisam. O que ele quer é conversa – mas está bem livre. Não falemos em coisas tristes.

Em Correspondência

Legenda: Mário Cesariny de Vasconcelos

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

UM LIVRO CONSIDERADO IMORAL


O Diário de Lisboa de 2 de Junho de 1969, noticiava que, nessa mesma tarde, começava, no Plenário Criminal da Boa Hora, o julgamento dos escritores envolvidos na publicação da Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e SatíricaNatália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e José Carlos Ary dos Santos eram acusados de «abuso de liberdade de imprensa.».

Também figuravam como presumíveis delinquentes, o editor Fernando Ribeiro de Melo, o empregado de escritório Francisco Marques Esteves e o técnico têxtil Ernesto Geraldes de Melo e Castro.

Segundo a acusação «algumas das poesias ou parte delas ofendem o pudor geral, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.»

Como patronos dos acusados encontravam-se João da Palma Carlos, Vera Jardim, Salgado Zenha e António de Sousa.

Eram inúmeras as testemunhas de defesa.


O julgamento só aconteceria em Março de 1970.

E, segundo o Diário de Lisboa, de 21 de Março, os réus, excepto Francisco Marques Esteves que foi absolvido, foram condenados a 45 dias de prisão substituíveis por multa a 40 escudos diários.

E Luiz Pacheco volta a ser notícia:


«Dado a sua precária situação económica o tribunal dispensou Luiz Pacheco do pagamento da multa diária.»

No final do julgamento, o juiz Fernando António Morgado Filipe, mandou que fossem destruídos todos os exemplares da Antologia da Poesia Erótica e Satírica.

A poesia ofendia o pudor, a decência, a moralidade pública e os bons costumes.

Mas quem assim pensava não se coibia de perseguir, torturar e assassinar cidadãos que lutavam pela Liberdade ou enviar para a guerra colonial a juventude de toda uma geração.

Um Portugal governado por um velho atroz, cercado por serviçais – que não eram assim tão poucos! - verdadeiramente desumanos, incultos e crentes abnegados numa senhora que um dia por Fátima «apareceu» a três pastorinhos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

AS CARTAS DO PACHECO


Se existiu alguém que deu trabalho aos Correios de Portugal, Luiz Pacheco está no pelotão da frente.

Através do seu ficheiro pessoal enviava aos leitores, à cobrança, os livros da Contraponto,

Por tudo e por nada, enviava, cartas e bilhetes-postais, a meio mundo e parte do outro.

Numa entrevista chegou a observar:

«As pessoas dizem «estou a ler», «tenho à cabeceira», mas não lêem. Dizem que não têm tempo: não têm é hábitos de leitura.»

Para os livros da Contraponto Pacheco não invocava nada.

Lessem ou não lessem, o importante é que mandassem o guito,  para ajudar à sobrevivênciazinha.

Serafim Ferreira, na editora Escritor, em Maio de 1996, publicou Cartas na Mesa, que reúne as muitas cartas e postais que Luiz Pacheco lhe enviou entre 1966 e 1996.

Do prefácio:

«No entanto, talvez seja através das suas cartas que epistolou com tanta gente ao longo de muitos anos, a propósito de tudo e de nada) que Luiz Pacheco melhor e mais verdadeiramente dá conta das suas amarguras, dificuldades, condenações e prisão nas cadeias do Limoeiro ou das Caldas da Raínha, mas também por aí se revelam as «pedras» brancas no percurso de um escritor maldito e nem sempre muito bem comportado, que se coloca na linha daqueles a quem a sorte de alguma forma mal protegeu, não por ter direito a isso, mas tão-só por entender a literatura como um «propositado apagamento pessoal», e isso uma e outra vez afirmara nas várias entrevistas  e depoimentos que se conhecem.»

Já em Maio de 1974, Pacheco lança, na Estampa, Pacheco Versus Cesariny, um folhetim inventado e montado.

Entre a muita correspondência que por lá abunda, há uma carta do crítico e escritor Manuel de Lima, que começa assim:

«Acabo de saber, com grande surpresa e algum alarme que, todas as vezes, que lhe escrevia por uma simples necessidade de comunicar consigo, estava inadvertidamente a escrever para a história.»

Na conversa que Rui Zink e Carlos Quevedo mantiveram com Luiz Pacheco, foi-lhe perguntado como tinha surgido a ideia de fazer um livro a partir de um conjunto de cartas.

Pacheco respondeu:

«No tempo do fascismo, a epistolografia era considerada um género menor, mas como não havia censura às cartas eu gostava muito, porque não tinha medo que mas abrissem. Escrevia tudo o que me apetecia. O Pacheco versus Cesariny é um documento para quem quiser estudar uma certa época literária portuguesa. Literária e não só.»

Os jornalistas lembram-lhe que as pessoas podiam ficar chateadas com a publicação das cartas.

Pacheco não desarma:

«Alguns sim. Mas eu não podia publicar as minhas cartas e as dos outros sem pôr os nomes. Isso sempre foi um hábito meu, dar o nome aos bois. Depois, um dia apareceu o Listopad a dizer que nunca maus me ia escrever nada, porque eu podia publicar as cartas dele, e eu respondi-lhe que estivesse descansado, as cartas dele não tinham nenhum interesse literário. Só me interessava quando tinham um cheque lá dentro. Também, nunca era mais de 100 ou 200 paus…»

Em Fevereiro de 2002, Bernardo de Sá Nogueira, edição Alexandria, transcreve treze cartas e quatro postais de Luiz Pacheco para o poeta António José Forte. 

O livro chama-se Mano Forte.

Pacheco não gostou.

Na entrevista a João Pedro George, publicada em O Crocodilo que Voa, explicou:

«Um tipo sabe que fulano António José Forte, por exemplo, guardou coisas que lhe mandou, cartas e postais. Guardou, morreu, foi para às mãos de alguém e depois aquilo representa um valor… e então vendem… Depois aparece um urubu mais categorizado, com outra perspectiva empresarial, e faz a edição. Eu em princípio não posso estar contra isso. De qualquer forma, este livro é uma golpada, é de rabo à mostra…»

Luiz Pacheco no seu Memorando, Mirabolando, Setembro de 1995 para além de outros textos, publica cartas enviadas a Mário Cesariny de Vasconcelos, Pepe Blanco, Jaime Aires Pereira, Jaime Salazar Sampaio, Vitor Silva Tavares e Maria Manuela Ferreira.

Muito mais postais e cartas existirão por aí espalhados em jornais, jornalecos, revistas, revistecas.

Talvez algum dia se faça a necessária divulgação de toda essa correspondência.

Talvez…

Legenda: pintura de William Albanese

quinta-feira, 2 de abril de 2015

OLHAR AS CAPAS


Imagem Devolvida

Mário-Henrique Leiria
Nota: Mário Cesariny de Vasconcelos
Capa: Júlio Navarro
Ilustrações: Cruzeiro Seixas
Plátano Editora, Lisboa Maio de 1974

Síntese

estrada  garganta  carta  asa;  navio  esfera  engano
talvez  relógio-de-sol  cogumelo  estação  árvore
nuvem; recordação  acaso  anel  sapatos  fumo-cara;
elefante  estômago  caneta  pássaro; vela  vara  cír-
culo  chuva  sempre  pêndulo  sol  comboio  ramo-lápis
cama; negação  permanência  cabelos  rua  crocodilo


                                      a  bala  volta  SEMPRE  à  origem

                                      o  teu  braço
                                      mais  afastado
                                      cada  vez  mais  afastado



A BALA    e   o teu braço

domingo, 25 de janeiro de 2015

PROJECTO DE SUCESSÃO


Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.

António Maria Lisboa, poema dedicado a Mário-Henrique Leiria

Legenda: Grupo Surrealista de Lisboa, Portugal 1949. Na foto, da esquerda para a direita : Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos. I Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho, 1949.

Imagem retirada de Citizen Grave

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

ESTA NOITE SONHEI COM O LUIZ PACHECO


Esta noite sonhei com o Luiz Pacheco – muito fino, de «smoking», num elevador espaçoso do prédio onde mora o João José Cochofel.
Íamos só nós os dois.
Depois de felicitá-lo por se encontrar solto, pedi-lhe se me autorizava a oferecer-lhe 100 escudos – o que ele aliás aceitou (e ainda bem!) com solenidade de me fazer um favor.
Quando o elevador se deteve, disse-lhe (razão do sonho?):
- Olhe que não fiquei zangado com a carta que me escreveu em tempos. Embora discorde de alguns pontos claro…
Deixei-o num patamar, com a sensação de que o Luiz Pacheco andava a vender tapetes-talento aos domicílios.
De «smoking».

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume V.

Legenda: Carta Sincera a José Gomes Ferreira de Luiz Pacheco, Colecção A Antologia em 1958, Edição de Mário Cesariny de Vasconcelos, Lisboa, 1959.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

OLHAR AS CAPAS


Textos Locais

Luiz Pacheco
Semi-prefácio: Mário Cesariny de Vasconcelos
Posfácio: Serafim Ferreira
Contraponto, Alcobaça, Maio de 1967

Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância nasci assim já velho mas sou um bocadinho bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim, outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantezinha verde o tipo que emprestava os livros à gente tinha uma farda preenchia-se um papel com o nosso nome e morada era coisa séria. Os jardins da minha infância tinham lagos peixes vermelhos flores subtis perfumes quentes cores triviais recantos de sombra lugares comuns esconderijos giros para a gente brincar. Não me lembro, ah que pena os namorados sim os namorados devia haver nos bancos do jardim ou perdidos passeando de mãos dadas falando ou calados apertados, não me lembro.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

CARTA A MÁRIO CESARINY NO DIA DA SUA MORTE


Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
que morreste. Talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nossos (sic), vivo.


Algo, de facto, deve ter acontecido
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume; quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.


Há apenas agora um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.


Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disto de repente
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.

Manuel António Pina em Resumo: a poesia em 2011, Assírio & Alvim, Lisboa Março 2012.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

OLHAR AS CAPAS



Erro Próprio

António Maria Lisboa
Prefácio de Mário Cesariny de Vasconcelos
Guimarães Editores, Lisboa Março de 1962

Uma vez por todas não escrevo para os que não sabem ler.

domingo, 10 de junho de 2012

LIVROS ENTRE AZEITE, BACALHAU E VINHO A MARTELO


No tempo da ditadura há casos curiosos de capitalistas e empresários portugueses que  ajudaram escritores e artistas, que eram da oposição, por motivos nunca declarados e que, agora, não sei como se podem explicar.

O industrial Manuel Vinhas ajudou artistas como Júlio Pomar, Vespeira, escritores como Ary dos Santos, Mário Cesariny de Vasconcelos, Alexandre O’Neill, Luiz Pacheco, financiou Raul Solnado para a construção do Teatro João Villaret, cedeu as instalações de um antigo armazém, ao lado da Cervejaria Portugália, pertença da Sociedade Central de Cervejas, para que A Comuna apresentasse os seus espectáculos.

Luiz Pacheco dedicou-lhe o seu livro Exercícios de Estilo (Editorial Estampa, Lisboa 1971) e numa Carta de Longe fala da ajuda que Vinhas lhe prestou:

Do mecenas Manuel Vinhas, falo pelo que me toca. Durante anos, mais de dez, auxiliou-me em dinheiros, renda de casa pontualmente paga, bolsa de estudo em livros, máquina de escrever, a minha charrua, oferecida. Sem me conhecer pessoalmente, apenas alertado para a minha difícil situação económica por um Amigo comum.

Nunca tive nem creio que venha a ter mecenas tão delicado e escrupuloso. Nunca se esquivou quando a ele tive de recorrer, e apenas o fazia em última instância, e nunca, também, me deu conselhos ou sugestões que interferissem no meu trabalho.

“O Mecenas paga, não dá ordens”, costumava dizer Mestre Almada Negreiros.

Claro que ninguém está a ver os merceeiros Belmiro de Azevedo, Soares dos Santos, ou o sr. José de Mello a terem desvios deste jaez!...

Os proprietários da Sociedade Abel Pereira Fonseca possuíam a Editorial Ulisseia e o Diário Ilustrado.

Esta Praça da Canção , de Manuel Alegre, um livro que marcou toda uma geração, é o nº 18 da Colecção Poesia e Ensaio, uma belíssima e importante colecção, publicada com orientação gráfica de Espiga Pinto e que viu alguns livros apreendidos pela PIDE/DGS.

A Praça da Canção foi publicada, em 1965, pela revista Vértice, em exclusivo para os seus assinantes. Os poucos exemplares que apareceram nas livrarias foram, de imediato, apreendidos pela polícia política.
  
Esta 2ª edição, prefaciada por Mário Sacramento e editada pela Ulisseia, também foi apreendida pela PIDE/DGS, mas aqui, com a conivência de alguns livreiros, foi possível que grande parte não caísse nas suas pérfidas mãos.

Servindo-me do livro Memórias Vivas do Jornalismo, sigo até à entrevista de Edite Soeiro para contar a história da Ulisseia, que amanhã se completará com um depoimento de Vítor Silva Tavares, para depois, Roby Amorim, contar a história do Diário Ilustrado:

Em 1964 fui convidada para orientar as edições Ulisseia. Aceitei com certa relutância, mas o ordenado era tentador. Assegurei a colaboração do Vítor Silva Tavares, actual editor das publicações & etc., o qual já trabalhara comigo no Intransigente e que teve papel preponderante na selecção de autores. Estive lá 30 meses, mas não tardei a verificar que os patrões não queriam saber da editora para nada e pouco se lhes dava que imprimisse obras-primas ou fotocópias. A única coisa que realmente pretendiam era que aquilo não desse prejuízo. Efectivamente, a Ulisseia deixou de dar prejuízo, mas nós tínhamos projectos mais ambiciosos. Por exemplo, queríamos lançar uma colecção chamada Pelicano, para que os estudantes universitários pudessem deixar as miseráveis sebentas que utilizavam, por falta de alternativa. Este e outros projectos reclamavam um forte investimento, pelo que não podia ser decidido sem o aval dos proprietários da editora, que eram da firma Abel Pereira da Fonseca. Nunca conseguimos fazer com eles uma reunião decente, para lhes apresentarmos os nossos projectos e tomarmos deliberações em conjunto. Entre o bacalhau, o vinho, o arroz e todas essas coisas, tinham aquela preciosidade que era a Ulisseia, para tratar da qual não dispunham de tempo. Por isso, resolvi demitir-me.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

PRIMEIRO DOMINGO EM LIBERDADE


A 28 de Abril de 1974, os portugueses viviam o seu primeiro domingo em Liberdade.

Na 1ª página do “Diário de Lisboa” reproduzia-se um “poster” de João Abel Manta:

“Esta é a reprodução de um “poster” que apresentamos nas páginas centrais da nossa edição de hoje. O “poster” alusivo ao actual momento político português, é da autoria de João Abel Manta, artista que, por motivos demais conhecidos, há tempo não publicava qualquer trabalho no nosso jornal.”´

Na página 11 era notícia a morte de Pedro Oom.

Quando o poeta, finalmente, olhou a madrugada por que tanto esperara, o coração não resistiu:

“O irreverente e talentoso poeta surrealista Pedro Oom, figura muito conhecida da Lisboa literária e boémia, frequentador assíduo do café Gelo ao tempo em que ali se reunia o grupo em que pontificavam Mário Cesariny de Vasconcelos, Luiz Pacheco e outras personalidades daquela corrente estética, morreu ontem de comoção provocada pela queda do fascismo em Portugal.
O insólito autor de tão belos poemas fantásticos e escatológicos como os que publicou em “Grifo” e em “Pirâmide não resistiu à alegria da vitória.
Lembramos com mágoa a sua simpática figura e recordamos as suas intervenções na JUBA. Pedro Oom tinha 47 anos.”

Ainda no “Diário de Lisboa”, este era o começo da crítica de televisão de Mário Castrim:

“Anda comigo. Assim de braço dado, lembras-te? Como daquela vez quando estávamos no Terreiro do Paço e me deste o braço e lá fomos e apanhámos ambos a mesma cabeçada do cavalo e tu vieste levantar-me junto da muralha e dizias-me: “Estás bem?, e eu olhava para ti e tinhas sangue a escorrer da testa e depois nunca mais te vi e nem sei quem és nem ao menos o teu nome.”

Na redacção do “Diário de Notícias”, as janelas ainda não tinham sido escancaradas. Na 1ª página podia ler-se:

“Serenidade e expectativa nos territórios do Ultramar”

Na 7ª página um telegrama da “France Press”, proveniente de Montreal, revelava que Agostinho Neto, em nome do MPLA, não aceitava a proposta do General Spínola com vista à formação de uma Federação. O MPLA classificava a proposta como fascista, nazi e salazarista e reafirmava que a luta sempre foi por uma libertação completa e, apenas, neste princípio se dispunha a encetar negociações com Portugal.

Também “O Século” vivia-se o mesmo problema das janelas não escancaradas, e na pág. 11 aparecia este título:

“Efectuada a transmissão de poderes em todos os territórios do Ultramar”

Na página 3, “A Capital” avançava que tudo levava a crer que o 1º de Maio iria ser decretado, pelas Forças Armadas, Feriado Nacional. O pedido fora formulado por Francisco Pereira de Moura, na reunião que, na véspera, a CDE mantivera com o General Spínola.






Na pág. 14 era publicada esta fotografia.

A legenda dizia que “um elemento anónimo do 1º Comité de Acção Popular, baptiza a ponte sobre o Tejo.”

O corpo da notícia esclarecia que o “Comité de Acção Popular” nascera espontaneamente, e propunha-se realizar uma série de acções com vista à eliminação de símbolos do regime derrubado a 25 de Abril.
A alteração do nome de Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril era o primeiro desses actos.
A propósito deste acontecimento, um oficial, não identificado, da Junta de Salvação Nacional, declarou: “estamos aqui, não para desrespeitar os mortos mas pare defender os vivos.”

Na Junta de Salvação Nacional, também as janelas estavam por escancarar!

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

UM PÉSSIMO EXEMPLO DE SE SER ESCRITOR


Neste dia, em 2008, com 82 anos morria, no Montijo, o escritor, editor e polemista, Luiz Pacheco.


Esquecido e desprezado em vida, ainda viu os poucos seus livros, existentes nas livrarias, desaparecerem quando a RTP2 exibiu um documentário sobre a sua vida louca...

A empregada do lar onde Luiz Pacheco vivia, disse então que o Sr. Pacheco tinha desatado a rir às gargalhadas.

Não me lixem. Não me chateiem, saúde &bichas, gostava de dizer.

Ouvia a Antena 2, num rádio de pilhas, e gostava das “Variações Goldberg”.

Editou alguns dos melhores escritores portugueses do século XX (Herberto Helder, Manuel de Lima, António Maria Lisboa, Virgilio Martinho, Mário Sacramento, Jaime Salazar Sampaio, Hélia Correia, Mário Cesariny Vasconcelos, Natália Correia) e esse papel de editor era o seu melhor lado, dito por ele, confirmado por outros. Mas deixou textos magníficos que andam por aí dispersos. Certamente que se perderão e, lá mais para a frente, ninguém mais saberá quem foi o Luiz Pacheco, bem ao contrário do que acontece com o Eusébio, o Zé Mourinho, o Cristiano Ronaldo, bem ao estilo deste país tão triste de esquecer gente…

Mas, tal como escreveu Serafim Ferreira, o “Pacheco é principalmente, para muita gente, um péssimo exemplo de se ser escritor!...”

Este é o começo do lindíssimo texto que se chama Os Namorados”, e que está incluído nos “Textos Locais”:


“Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância nasci assim já velho mas sou um bocadinho bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim, outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantezinha verde o tipo que emprestava os livros à gente tinha uma farda preenchia-se um papel com o nosso nome e morada era coisa séria. Os jardins da minha infância tinham lagos peixes vermelhos flores subtis perfumes quentes cores triviais recantos de sombra lugares comuns esconderijos giros para a gente brincar. Não me lembro, ah que pena os namorados sim os namorados devia haver nos bancos do jardim ou perdidos passeando de mãos dadas falando ou calados apertados, não me lembro.”
Ou este pedacinho de “Comunidade”:
                                        

“Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante)  encostada ao nosso suor.”