Voltarei a ouvir que as crianças não podem comer chocolates.
O meu pai, por chalaça, dizia-me que só pelos
chocolates, pelo bacalhau na consoada, pelo cabrito no domingo pascal, um ateu
se debruça quer pelo Natal, quer pela Páscoa.
Respondia-lhe que sempre gostei de histórias e a Bíblia é, apesar de tudo uma história razoavelmente bem contada.
«O símbolo
é o ovo. O «o» da palavra ovo é redondo, e o redondo é símbolo da vida, da
origem que começa também com o mesmo «o».
Páscoa é o maior sacro
religioso cristão que não é Natal. Natal é condição. Páscoa é a dramática
reconversão da vida. Mito cristão, pré-cristão e meta-cristão: do sol, redondo
como o «o» da Primavera, do recomeço do ciclo agrícola, da Natureza.
Páscoa é festa do campo. Anti-urbana. Na cidade o ovo é de chocolate. O símbolo que se consome antes de crescer numa realidade.»
Jorge Listopad em Fruta Tocada por Falta de Jardineiro
José Tolentino Mendonça:
«Perguntas quanto tempo
deves rezar?
a papoila na encosta
é vermelha sempre»
A pergunta de todos os dias:
Que seria de nós sem memória?

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