quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Quando o meu pai conseguiu comprar, em suaves prestações, um televisor lá para casa, um enorme Nordmend, naturalmente a preto e branco, o primeiro programa que, espantados e felizes, vimos, foi um Nat King Cole Show.

Suponho que foi aí o meu pai agarrou o gosto pelo velho Nat.

Foi ele quem comprou todos os Eps de Nat King Cole a cantar em espanhol e português, discos que fizeram o sucesso dos bailes da casa.

Esses EPs perderam-se pelo caminho, mais tarde recuperei-os, editados em LP, e ainda por aqui moram.

Curiosamente foi a partir desses cachitos, desses quizás, desses perfidia , desses quero chorar não tenho lágrimas, desses ay coisita linda, que, anos mais tarde, passei a conhecer o verdadeiro Nat, o pianista de jazz, mas principalmente o cantor de standards que vira nos tais Nat King Cole Show e considerava uma seca de todo o tamanho.

A voz de Nat King Cole é um veludo eterno. É tão macia que apetece embrulharmo-nos nela. Ninguém soube cantar como ele – como se respirasses, sem esforço, sem exibição, como se ciciasse aos nossos ouvidos, disse alguém de que não lembro o nome.

Mas lembro que foi João Gilberto quem disse: ele não é preto, não. É azul.

Um cancro nos pulmões levou-nos, prematuramente, essa voz, esse sussurro.

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