quarta-feira, 27 de maio de 2026

VOLTEMOS ÀS GREGUERÍAS


Em Novembro de 2015, por aqui, olhámos o livro Greguerías de Ramón Gómez de la Serna, selecção e tradução de Jorge Silva Melo.

Greguerias é uma palavra que não significa nada, nem em castelhano, nem em qualquer outra língua, é um género literário inventado pelo próprio autor. Jorge Silva Melo, no prefácio, lança pistas para que possam ser aforismos, adágios, refrões, mas não é conclusivo. Pouco importa.

O que quer que sejam, merece que se apresentem algumas dessas greguerías, que também, por aqui, já foram utilizadas em alguns Postais sem Selo.


Como dava beijos lentos, duravam-lhe mais os amores.

À morte não a ouvimos, porque já na intimidade da casa anda de chinelos

Onde o tempo e a poeira mais se unem é nas bibliotecas.

Olharam-se de janela a janela em dois comboios que iam em direcções opostas, mas tal é a força do amor que logo os dosi comboios se puseram a andar para o mesmo lado.

Às vezes, os beijos são só chewing-gum repartido.

As estrelas-do-mar são as mãos que constatam que o barco se afundou.

Sofá-cama: os sonhos ficam em baixo a conversa em cima.

O grande problema do gato é como dar futuro a esses seis gatinhos que vieram ao mundo de uma só vez.

Nervosismo da cidade: não conseguir abrir o pacotinho de açúcar para o café.

Amor é acordar uma mulher e ela não se irritar.

Escrever é que nos deixem rir e chorar sozinhos.

Quando se entorna um copo de água na mesa, apaga-se a cólera da conversa.

Velho actor: deixou uma dentadura que declamava Shakespeare.

Pôr as peúgas do avesso é ir para trás em vez de ir para a frente.

A gaivota rema ao voar.

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