terça-feira, 28 de agosto de 2018

OLHAR AS CAPAS


Cântico Final

Vergilio Ferreira
Colecção Livro de Bolso nº 1
Portugália editora, Lisboa s/d

Por uma manhã breve de Dezembro, um homem subia de automóvel uma estrada de montanha. Ma­nhã fina, linear. O homem parou um pouco, enquanto o motor arrefecia, e olhou em volta, fatigado. Aqui estou. Regressado de tudo. Pelo vale extenso até a um limite de neblina, viam-se aqui e além indícios brancos de aldeias, brilhando ao sol. Que dia é hoje?
Pelos campos perpassava uma alegria estranha, tal­vez do sol e daquele fundo silêncio a toda a volta, sem uma voz repentina das que sobem e vibram nas manhãs de trabalho. E de súbito lembrou-se: para o fundo do vale, ouviu o dobre dos sinos do Freixo. Manhã de domingo, manhã de infância, sinos de ou­trora. Correntes misteriosas de vento traziam as suas vozes, enchiam delas o espaço, diluíam-nas em distãncia. Outras vezes atiravam-nas contra a massa da montanha, traziam-lhes o eco de longe, e todo o ar estremecia de memória. Vozes de sinos antigos, vozes do tempo, súbito alarme de que fascinação?
- Salve-o Deus.
O homem despertou. Pôs o carro em andamento e em breve, numa curva de pinheiros, toda a aldeia se lhe ergueu em frente. Velha aldeia, boa aldeia. Reconfortava olhá-la de novo, na resignação do silêncio, fascinava-o reaprender a vertigem das eras naquelas casas negras, na gente espectral escurecida dos séculos. Morava na proeminência de um cerro, suspenso do abismo, num extremo da povoação. Lá estava ao pé a capela abandonada da Senhora da Noite. Estranho nome. Era uma vulgar Imaculada com meia lua e estrelas, pintada grosseiramente no tecto, e agora quase pagada da humidade e do carancho. Mas o opovo chamava-lhe a «Senhora da Noite». Talvez pela lua e pelas estrelas ou apenas porque a invocavam outrora nos caminhos da montanha, aos quais, ali no topo do cerro, parecia presidir.
Frente à velha casa, no automóvel parado, o homem recordava. Há quantos anos?

Sem comentários: