Alabardas, Alabardas, Espingardas, Espingardas
Um livro Inacabado,
uma vontade firme - Texto De Fernando Gómez
Aguilera
Também Eu Conheci
Artur Paz Semedo – Texto Roberto Saviano
Capa: Estudio Pep
Carrió
Ilustrações: Gunter Grass
Porto Editora, Porto, Setembro de 2014
O telefone deu três sinais e ela respondeu, Estou, Sou eu, o artur, Já
sabia, vi aqui o teu número, Desculpa vir ligar‑te a esta hora, Ainda não é
tarde, Aconteceu‑me uma coisa de que gostaria de te falar, Algum problema,
perguntou ela, Problema, não direi, mas estou com o espírito confuso, Se isso é
por causa de alguma mulher que acabaste de conhecer, desejo‑te as maiores
felicidades, Qual mulher, qual nada, tenho coisas mais importantes em que
pensar, Olha que seria digna de exame essa tua preocupação, pelo menos as‑ sim
me parece, de quereres que acredite que não tens andado com ninguém depois de
eu ter saído de casa, Ande ou não ande, não é da tua conta, não te diz respeito,
Muito bem, explica‑me então por que tens a cabecinha confusa, Há uma semana fui
à cinemateca para ver um filme chamado l’espoir, Também o vi, estive lá anteontem,
É uma história comovedora, sobretudo aquela descida da serra de teruel, Custa a
segurar as lágrimas, é certo, Eu confesso que chorei, disse artur paz semedo,
Já to disse, também eu, disse felícia. Houve um silêncio. Podia‑se pensar que
estavam contentes por terem partilhado uma emoção tão forte, quem sabe se por
coincidência sentados na mesma cadeira do cinema, mas nunca o reconheceriam,
fazê‑lo seria dar uma mostra de debilidade sentimental de que o outro poderia
vir a aproveitar‑se. Todo o cuidado é pouco com os casais separados. Afinal,
perguntou felícia, que tinhas tu para me contar, Depois do filme, achei que
devia ler o livro deste malraux, mas em má hora o fiz, Porquê, Já perto do fim
há uma referência a uns operários que foram fuzilados em milão por terem
sabotado obuses, E depois, Parece‑te mal, perguntou ele, Nem mal nem bem, só me
parece justo que eles o tivessem feito, Justo, justo, escandalizou‑se artur paz
semedo, fazendo vibrar de indignação a membrana interior do aparelho, Sim, não
só justo, como necessário, uma vez que estavam contra a guerra, Claro, e agora
estão mortos, A gente de alguma coisa tem de morrer, Fica‑te mal o cinismo,
aliás não me admira, sempre foste como uma pedra de gelo, Tu, sim, que és
cínico ao exibir essa falsa virtude ofendida, e, quanto à pedra de gelo, peço
meças, O que faço é defender o meu trabalho, graças ao qual pudeste viver é
defender o meu trabalho, graças ao qual pudeste viver uns quantos anos, Realmente,
és um cavalheiro, se ainda não te havia agradecido a caridade, disse felícia,
agradeço‑ta agora, Deveria saber que iria arrepender‑me de ter telefonado,
Podes cortar a ligação quando quiseres, mas já agora peço‑te que me dês tempo
para contar‑te uma história parecida que com certeza não conheces, é um minuto,
não preciso de mais, Estou a ouvir, Li em tempos, não recordo onde nem
exatamente quando, que um caso idêntico sucedeu na mesma guerra de espanha, um
obus que não explodiu tinha dentro um papel escrito em português que dizia Esta
bomba não rebentará, Isso deve ter sido obra do pessoal da fábrica de braço de
prata, eram todos mais ou menos comunistas, Nessa altura parece que havia
poucos comunistas, E algum que não o fosse, seria anarquista, Também pode ter
sido gente da tua fábrica, Não temos cá disso, Braço de prata ou braço de ouro,
o gesto é idêntico, com a diferença importante de que neste caso ninguém terá
sido fuzilado, ao menos que se tivesse sabido, Ao contrário do que pareces
pensar, não reclamo fuzilamento para os culpados de crimes como esse, mas apelo
para o sentido de responsabilidade das pessoas que trabalham nas fábricas de
armas, aqui ou em qualquer outro lugar, disse artur paz semedo, Sim, o mesmo
tipo de responsabilidade que fez com que nunca tivesse havido uma greve nessas
fábricas, Como o sabes, Teria sido notícia mundial, teria entrado na história,
Não se pode discutir contigo, , Pode, é o que temos estado a fazer, Devo
desligar, Antes, ainda te dou uma sugestão para as horas vagas, Não tenho horas
vagas, Pobre de ti, mouro de trabalho, Que sugestão é essa, Que investigues nos
arquivos da empresa se nos anos da guerra civil de espanha, entre trinta e seis
e trinta e nove, foram vendidos por produções belona s.a. armamentos aos
fascistas, E que ganha‑ ria eu com isso, Nada, mas aprenderias mais alguma
coisa do teu trabalho e da vida, O arquivo da empresa só pode ser consultado
com autorização da administração, Usa a imaginação, inventa um motivo, creio
que és um dos meninos bonitos desses criminosos, para alguma coisa te haverá de
servir, Tenho de desligar, Já o havias dito antes, Desculpa ter‑te incomodado,
Pelos vistos, o incomodado és tu. Boas noites, Boas noites. Dez minutos o
telefone de artur paz semedo tocou. Era felícia, Não procures encomendas
assinadas pelo general franco, não as encontrarias, os ditadores só usam a
caneta para assinar condenações à morte. E desligou antes de que ele pudesse
responder.
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