quinta-feira, 14 de maio de 2026

POEMA DE DUAS FACES

Quando havia antes um antigamente

havia uma esperança

agora no próprio coração da ilusão

onde a água limpa as pedras das ruínas

entre destroços límpidos

deito-me sobre a minha sombra e durmo

e durmo

 

Quando havia antes um amanhecer

à beira do abismo

agora no próprio coração do coração

durmo estrangulando um monstro inerme

um palhaço de palha seca e pálido

quando havia antes um caminho

 

Não houve nunca amigos nem, pureza

Nem carinhos de mãe salvam a noite

É preciso ir mais longe na incerteza

É preciso no silêncio não escutar

 

A manhã que eu procuro não foi sonhada

Uma árvore me ignora na raiz

Perfeitamente desesperado é o meu sonho

Os pássaros insultam-me na cama

Só com doidos com doidos amaria

perfeitamente presente na frescura

do mar

 

Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço

a líquida frescura duma jarra

um passo leve e certo em cada sombra

um ninho em cada ouvido

de doces abelhas cegas

 

Uma casa uma caixa de música e sossego

Um violão adormecido na doçura

Um mar longínquo à volta atrás do campo

Uma inundação de verdura e espessa paz

Uma repetida e vasta constelação de grilos

e os galos álacres do silêncio

 

Um mar de espuma e alegria obscura

um mar de espuma e alegria clara

entre o verde e a brisa

 

Na brancura dos quartos

a inocência poderá sonhar desnuda

os insetos poderão entrar

juntamente com as plantas e as aves

Uma longa asa passará

O mundo e o silêncio a mesma ave

e o mar

o mudo leão longínquo e fresco

faiscará entre o ver e as lâminas solares

 

António Ramos Rosa de Viagem Através de Uma Nebulosa em Obra Poética Vol. I

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