quinta-feira, 7 de maio de 2026

NESTE DIA


Neste dia, que verdadeiramente serão os dias 6 de Setembro de 1969 (carta de Óscar Lopes para António José Saraiva) e Outubro de 1970 (carta de António José Saraiva para Óscar Lopes).

Estamos a consultar a Correspondência trocada entre António José Saraiva e Óscar Lopes).

Amiúde verificamos que o neo-realismo é tratado a pontapé por críticos, escritores, jornalistas, várias outras gentes.

Nas cartas que consultamos, cita-se a de Óscar Lopes e causa alguma perplexidade o seu «ódio» ao neo-realismo.

Vejamos:

«Ninguém em Portugal criticou mais desassombradamente os neorrealistas do que eu. O próprio Eduardo Lourenço parece valorizar muito mais o Carlos de Oliveira, o Cochofel e o Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de consagrar um ensaio à poesia do Namorado, com quem aliás me dou bem. Os neo-realistas de Lisboa, em geral, não me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos cozinharam um artigo bota-abaixo que o Alexandre Pinheiro Torres assinou, E nunca fui grande admirador de Ferreira de Castro, como creio que tu.»

 

Cita-se agora António José Saraiva:

 

«Provisoriamente a minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que me parece impróprio) não há um único grande escritor neo-realista, não há sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina, ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem génio não há teorias que o limitem.

E não há só falta de Invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc. (sem falar na simples ignorância do ofício do Redol e outros.

(…)

Para resumir, para o conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço d’Arcos.

Há a excepção do Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os neo-realistas voltaram a fechar o horizonte .»

Legenda: pintura de Rogério Ribeiro.

Sem comentários: