Neste dia, que verdadeiramente serão os dias 6 de Setembro de 1969 (carta de Óscar Lopes para António José Saraiva) e Outubro de 1970 (carta de António José Saraiva para Óscar Lopes).
Estamos
a consultar a Correspondência trocada entre António José Saraiva e Óscar
Lopes).
Amiúde
verificamos que o neo-realismo é tratado a pontapé por críticos, escritores,
jornalistas, várias outras gentes.
Nas
cartas que consultamos, cita-se a de Óscar Lopes e causa alguma perplexidade o seu
«ódio» ao neo-realismo.
Vejamos:
«Ninguém em Portugal
criticou mais desassombradamente os neorrealistas do que eu. O próprio Eduardo
Lourenço parece valorizar muito mais o Carlos de Oliveira, o Cochofel e o
Joaquim Namorado do que eu! Eu seria incapaz de consagrar um ensaio à poesia do
Namorado, com quem aliás me dou bem. Os neo-realistas de Lisboa, em geral, não
me gramam, e, como sabes, há uns 11 anos cozinharam um artigo bota-abaixo que o
Alexandre Pinheiro Torres assinou, E nunca fui grande admirador de Ferreira de
Castro, como creio que tu.»
Cita-se
agora António José Saraiva:
«Provisoriamente a
minha conclusão (ainda há autores para ler ou reler) é esta. À excepção do
Manuel Alegre (e do O’Neill, se teimarmos em o considerar neo-realista, o que
me parece impróprio) não há um único grande escritor neo-realista, não há
sobretudo um único grande criador literário que tenha inventado alguma coisa de
novo em Literatura. Em prosa não há ninguém comparável ao Aquilino, à Agustina,
ou mesmo ao Miguéis, ou mesmo ao Torga, ou mesmo à Irene Lisboa, que, sem ser
propriamente uma águia, inventou uma maneira nova de fazer prosa. O que não
quer dizer que não haja entre eles alguns bons poetas e prosadores: O Manuel da
Fonseca, o Mário Dionísio, o Cardoso Pires, o Namora por exemplo (excluo o
Carlos de Oliveira, que li agora pela primeira vez, e que me pareceu
profundamente inautêntico, a não ser na amargura envenenada). Parece-me que a
teoria estética neo-realista não tem culpa disto, porque quando um autor tem
génio não há teorias que o limitem.
E não há só falta de
Invenção. Há talvez até recuo em relação a aquisições já feitas. Há um
classicismo inquietante no Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, etc.
(sem falar na simples ignorância do ofício do Redol e outros.
(…)
Para resumir, para o
conhecimento do nosso povo rural os neo-realistas nada acrescentaram ao Camilo
e ao Aquilino; para o conhecimento da nossa burguesia citadina, nada
acrescentaram ao Eça e ao Teixeira de Queiroz, e ficam muito abaixo do Paço
d’Arcos.
Há a excepção do
Ferreira de Castro, que me deixa um pouco perplexo. Ele não sabe escrever, tem
diálogos horrorosos e é muito provável que a obra dele caia no esquecimento por
lhe faltar a factura artística que dá perdurabilidade a uma obra. Mas abriu
horizontes, chamou à literatura outra temática, e por esse lado tem um grande
papel histórico. Mas tenho o palpite que, à excepção do Redol e do Soeiro, os
neo-realistas voltaram a fechar o horizonte .»
Legenda: pintura de Rogério Ribeiro.

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