As xávegas, ou a arte da Barca, fizeram a fortuna de Monte Gordo na segunda metade do século XVIII, havia então mais de 3 mil homens diretamente envolvidos na pesca com xávegas, e foram responsáveis pelo aumento populacional do aglomerado ao longo do século XIX. O seu declínio, no entanto, começaria ainda nas décadas de 1880 e 1890, com a concorrência de artes mais modernas e produtivas, como os cercos americanos e os galeões a vapor e, mais tarde, as traineiras. Ainda que se tivessem mantido ao longo do tempo, e em determinados períodos com algum significado, na década de 1960 já só ocasionalmente faziam os seus lanços.” E, mais adiante: “A partir de finais da década de 1960, com o turismo a valorizar o pescado, com a motorização e a mecanização das embarcações a possibilitarem um maior raio de ação, maior regularidade das saídas e companhas menos numerosas, os marítimos de Monte Gordo regressam aos tresmalhos.
É
ver a devoção com que, uma vez por ano, todos os anos, fazendo o próprio rol
dos homens a quem é concedida a honra maior de levar o andor, seguem em
procissão, todos marítimos, tudo gente do mar, o mais velho ao comando, com a
vara das ordens, metálica, a orientar as pausas, os recomeços, o baixar, o
erguer de novo, o virar ao mar, aos barcos de buzinas ruidosas, enfeitados com
bandeirinhas e papéis crepe, é ver a devoção e o dramatismo triunfal com que se
aproximam de novo da Igreja, no regresso, mais de vinte homens com as suas
varas de apoio, a passada ensaiada ao ritmo da filarmónica, os movimentos em
forma de pendulo a fazerem oscilar o andor, a Santa virada de costas para a
entrada do templo, o adro cheio dos fiéis, dos peregrinos, e então a bênção, um
lençol de lágrimas, três vivas à Senhora das Dores.
José Carlos Barros em Os Filhos de Monte Gordo
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