O Palácio de La Moneda, em Santiago do Chile, só foi bombardeado duas vezes na sua existência, a primeira, de má memória, quando os aviões da Força Aérea chilena atacaram o palácio governamental para derrubar o governo democraticamente eleito de Salvador Allende, a 11 de Setembro de 1973. A segunda, de uma forma bem mais bela e criativa, com milhares de poemas soltados de um helicóptero. Foi em 2001, na primeira vez em que o colectivo Casagrande realizou a performance a que chamou, simplesmente, Bombardeamento de Poemas. Desde então, passou por Dubrovnik, Guernica, Varsóvia, Berlim, Londres, Madrid e Roterdão
Ler, o superpoder subversivo que continua a ameaçar ditadores e autocratas
Este sábado, o grupo chileno (Julio Carrasco, Cristóbal Bianchi e Joaquín
Prieto) volta a fazê-lo, desta vez em Barcelona, soltando milhares de poemas
sobre a Plaça Nova, para assinalar a iniciativa do governo
catalão para assinalar o 50.º aniversário da recuperação da democracia depois
da ditadura de Franco. A capital catalã foi uma das mais bombardeadas durante a
Guerra Civil espanhola entre 1937 e 1939: 1903 impactos e mais de um milhão de
quilos de bombas mataram mais de 2700 pessoas. E o bairro da Catedral, onde
está a Plaça Nova, foi um dos mais fustigados pela aviação de Mussolini, vinda
a pedido do general Franco e das suas forças subversivas.
Ler,
o superpoder subversivo que continua a ameaçar ditadores e autocratas
“A nossa acção inverte o significado do bombardeio, substituindo as bombas por
poemas”, explica Julio Carrasco, citado no site Espanha em Liberdade. “Este deslocamento não
procura apagar o trauma histórico, mas tornar visível a memória inscrita no
espaço urbano e reactivar a relação emocional das comunidades com o seu
passado.”
Ler, o superpoder subversivo que continua a ameaçar ditadores e autocratas
Os cem mil poemas, que vão descer dos céus impressos em marcadores de página em
espanhol e catalão, foram escritos por 50 poetas catalães e outros 50 chilenos
(Valeria Marchant entre eles), com menos de 50 anos, e falam de liberdade
através da memória, do corpo, da resistência, do exílio e do silêncio.»
António Rodrigues, Público, 19 de
Junho

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