sexta-feira, 17 de julho de 2026

CANÇÃO FRATERNA

Irmão negro de voz quente 

o olhar magoado, 

diz-me: 

Que séculos de escravidão 

geraram tua voz dolente? 

Quem pôs o mistério e a dor 

em cada palavra tua? 

E a humilde resignação 

na tua triste canção? 

E o poço de melancolia 

No fundo do seu olhar? 

 

Foi vida? o desespero? o medo? 

Diz-me aqui, em segredo, 

irmão negro. 

 

Porque a tua canção é sofrimento 

e a tua voz sentimento 

e magia. 

Há nela a nostalgia

da liberdade perdida, 

a morte das emoções proibidas, 

e a saudade de tudo que foi teu 

e já não é. 

 

Diz-me, irmão negro, 

Quem fez a vida assim... 

Foi a vida? o desespero? o medo? 

 

 Mas mesmo encadeado, irmão, 

que estranho feitiço o teu! 

A tua voz dolente chorou 

de dor e saudade, 

 gritou de escravidão e veio murmurar à minha em alma 

ferida 

que a tua triste canção dorida 

não é só tua, irmão de voz de veludo 

e olhos de luar... 

Veio, de manso murmurar 

que a tua canção é minha.


Noémia de Sousa, copiado da Seara Nova, Verão 2026

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