Irmão negro de voz quente
o
olhar magoado,
diz-me:
Que
séculos de escravidão
geraram
tua voz dolente?
Quem
pôs o mistério e a dor
em
cada palavra tua?
E
a humilde resignação
na
tua triste canção?
E
o poço de melancolia
No
fundo do seu olhar?
Foi
vida? o desespero? o medo?
Diz-me
aqui, em segredo,
irmão
negro.
Porque
a tua canção é sofrimento
e
a tua voz sentimento
e
magia.
Há
nela a nostalgia
da
liberdade perdida,
a
morte das emoções proibidas,
e
a saudade de tudo que foi teu
e
já não é.
Diz-me,
irmão negro,
Quem
fez a vida assim...
Foi
a vida? o desespero? o medo?
Mas
mesmo encadeado, irmão,
que
estranho feitiço o teu!
A
tua voz dolente chorou
de
dor e saudade,
gritou
de escravidão e veio murmurar à minha em alma
ferida
que
a tua triste canção dorida
não
é só tua, irmão de voz de veludo
e
olhos de luar...
Veio,
de manso murmurar
que
a tua canção é minha.
Noémia de Sousa, copiado da Seara Nova, Verão 2026
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