«Donald Trump está desesperado. Resta-lhe o caos.
Enquanto Rubio e Trump elaboram sobre os “inimigos” da América, o ICE (a
polícia de fronteiras e de imigração) mata gente inocente nas ruas das cidades
americanas com uma impunidade assustadora. Depois do que aconteceu no Minnesota
em Janeiro deste ano, foi agora a vez de Houston e do Maine. No Minnesota, o
ICE assassinou uma jovem mãe de família que seguia no seu carro e que não terá
parado às ordens dos seus agentes, e um enfermeiro que tentava socorrer uma pessoa
caída no chão quando o ICE atacou uma manifestação de protesto contra as suas
investidas contra os imigrantes. Chamavam- se Renée Good e Alex Pretti. Desta
vez foi em Houston, quando abateram a tiro um pacífico cidadão mexicano,
Lorenzo Salgado Araujo, construtor civil de profissão, a viver nos EUA há 35
anos, que conduzia o seu carro numa rua da cidade, aparentemente com uma única
justificação: era latino. Queriam parar a viatura? Como disse a procuradora da
cidade, atiravam para os pneus. Começaram por dizer que se enganaram. Agora
dizem que havia um pó branco dentro do carro. Agem com o descaramento de quem
sabe que ninguém os chamará à responsabilidade. O Departamento de Segurança
Interna da Administração federal ainda falou em averiguações. Trump corrigiu-o,
dizendo que eles têm de manter a ordem nas ruas. No Texas, está em causa a
eleição de um senador nas eleições de Novembro e as sondagens dizem que o
candidato democrata, James Talarico, pode vencer o republicano, coisa que não
acontece no maior estado americano há mais de 40 anos. No Maine, o mesmo ICE
assassinou outro pacífico cidadão, um jovem pai de 25 anos que ia com a filha
no carro e que não terá parado às suas ordens, tal como em Houston. Chamava-se
Joan Sebastian Guerrero. Estava legalmente nos Estados Unidos. Tinham em comum
o facto de serem latinos. Os agentes do ICE fazem-se transportar em carros não
identificados.»
Teresa de Sousa, Público 19 de
Julho
2) «Lorenzo Salgado Araujo
(1973-2026), morto pela manhã.
Segundo estimativas conservadoras, os cortes efectuados pelo DOGE de Elon Musk
na Agência para o Desenvolvimento Internacional provocaram já a morte de 700
mil seres humanos, a maior parte dos quais crianças. De acordo com a insuspeita
e prestigiada revista The Lancet,
tais cortes levarão à morte de 9,4 milhões de pessoas, pelo menos, até 2030. É
mais do que os judeus mortos no Holocausto, é praticamente toda a população de
Portugal, liquidada de uma penada, por uma decisão impensada. Lembre-se disso
quando decidir comprar um Tesla ou navegar na rede X.
Lorenzo Salgado Araujo (1973-2026), morto pela manhã
Nada que cause espanto num país em que Richard Sackler, o principal responsável
pela crise dos opióides — que já matou cerca de um milhão e 250 mil pessoas —,
dorme tranquilamente na sua mansão em Boca Raton, ao sol da Florida, enquanto
um homem da Califórnia foi condenado a 50 anos de prisão, sem liberdade
condicional, por ter furtado cassetes de vídeos infantis no valor de 153
dólares numa loja Kmart ou outro, no Alabama, cumpre hoje pena de prisão
perpétua por ter trocado a etiqueta do preço de um tapete de automóvel e ter
tentado sair da loja sem pagar.»
António Araújo, Público 19 de Julho
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