domingo, 3 de junho de 2018

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Encontrei  a tradução (?) de «The Ghost and Mrs. Muir», da escritora irlandesa R. A. Dick, num desses vãos de escada que vendem de tudo: livros, revistas, discos, postais, plantas, o mais que imaginar se possa.
Entro sempre nessas lojecas, nem que seja para olhar mas também porque há a ténue possibilidade de encontrar uma qualquer pechincha.
Não tem indicação do autor da  tradução e pelo que li, cheguei à conclusão que não deve passar de uma versão de um qualquer alguém com o fito de ganhar uns tostões, poucos que fossem.
Saltam á vista as gralhas, as discrepâncias de tradução, os nenhuns cuidados postos no produto final.
Na parte que vostranscrevi, Lucy umas vezes é mesmo Lucy, outras já é Lúcia.
Enfim…
Mas não resisti a trazer o livro.
Uns meros 50 cêntimos que me possibilitaram ir à estante e fazer descer o DVD para mais um visionamento. Já lhes perdi o conto.
Também pretexto para repetir aqui uns textos publicados em Fevereiro de 2012.
João Bénard da Costa morreu a 21 de Maio de 2009. Tinha 74 anos.

Reproduzo os textos que por esse tempo aqui foram publicados.




Lembro-me que gostei. Lembro-me que gostei muito. Mas nunca imaginei que ia gostar tanto e que tanto, toda a vida, me ia lembrar desta história de amor e de morte. Aos 12-13 anos, os grandes amores são solitários e são coisa de nós com nós, sem mais corpo do que o próprio. Por esse lado, podia, obscuramente, como através de um espelho, desvendar parte importante do criptograma do filme. Mas ainda era muito cedo (e agora talvez seja muito tarde) para desvendar a parte que com essa parte se soma. Aos doze anos, a morte é uma palavra vaga e os fantasmas brincadeiras para sustos a pregar uns aos outros. Precisei de mais trinta anos (trinta e dois, se contar pelos dedos) para saber que o Capitão Daniel Gregg (Rex Harrison) não era fantasma nenhum ou era o fantasma todo. Nesse dia, preguei o imenso poster do filme (o original) na parede que fica na frente da minha secretária na Gulbenkian. Eu já lá não estou, o poster ainda lá está (1)  Gene Tierney (Lucy Muir) em primeiro plano, imensa e vogante, «with that taunt in her smile». Rex Harrison, na sombra, atrás dela, «with that haunt in his kiss». E, no canto direito, em baixo, muito mais pequenino, George Sanders «without a ghost of a chance». «The Flesh ... So Wéak.» «The Spirit ... So Wiliing.» Podia ser ao contrário, mas assim sossega mais. E também por lá se diz, na capa de um livro fechado, que «the film becames the delight of your life.» Não sei se "delight" é a palavra mais própria, mas muita coisa em a minha vida "becamou".



Mrs. Muir - já o disse - é Gene Tierney, nos anos de "Laura", de "Leave Her to Heaven", de "Dragonwyck", nos anos em que mais Gene Tierney foi, mulher patchuli, mulher asfódela. Mr. Muir - quem quer que tenha sido - nunca o conhecemos. Morreu antes do filme co­meçar, de um flato ou de coisa parecida, deixando-lhe a cara e o corpo magníficos envoltos em crepes, como em crepes se envolviam as viúvas inglesas do princípio do século, tempo e país do início da acção. A adivinhar pela família com quem a deixou a viver (sogra e cunhadas), nem ela nem nós perdemos grande coisa. Mas deixou-lhe uma filha de sete anos, papel confiado à criança que então era Natalie Wood.

Para fugir dessa casa londrina, casa de um morto, casa de mortos, decide Mrs. Muir, com enorme escândalo da família, mudar de ares e mudar de mares, levando-se a ela, à filha e à criada (Edna Best) para uma praia sobre o Atlântico, onde, de noite, o vento assobiava nas frinchas de madeiras velhas e onde brenhas de ondas se batiam contra os penhascos. Das muitas casas que lhe mostraram, nenhuma a con­vence. E só quis a casa que não lhe queriam mostrar, porque - dizia­ -se - estava assombrada pela alma penada do Capitão Gregg, que nela se suicidara. O fantasma não assusta Lucy Muir. Um fantasma é o medo que a gente tem dele. E o medo do desejo não é medo de Gene Tierney. Por isso, na casa, ama tudo o que nela ficou do capitão: o óculo na varanda do quarto dele, o bezerro dourado que trouxe de uma das suas muitas viagens, o retrato dele toscamente pintado, fardado de lobo de mar, com um sorriso entre o sarcástico e o diabólico.

Uma mulher em sombra (o luto, os véus) troca um morto por um fantasma. E se o morto a quisera enterrar viva (em Londres) o fantasma vai e vem do mar, atravessa-lhe as janelas e propõe-lhe a mágica dissolução, tão mágica como esse plano, entre todos mágico, em que, na primeira noite passada na velha casa, Lucy acorda e vê o mar através da janela, essa janela que fechara antes e que durante o sono se abriu. E, quando já tem a certeza que ele está ali, Mrs. Muir desencadeia a apa­rição. Levanta-se, vai à cozinha e risca um fósforo para acender o lume. As luzes todas apagam-se, a trovoada e os relâmpagos começam. E é nesse momento que ela diz: «/ know you are there» E Rex Harrison surge diante dela, malcriadissimo como só Rex Harrison soube ser, para uma discussão nada metafísica sobre o direito de qualquer deles à posse exclusiva da casa. Fantasma de desejo, Harrison é também fan­ tasma da violação (de desejo da violação), donde a agressividade irónica das relações entre eles.


O livro faz Mrs. Muir voltar a Londres. O livro publica-se, não fantomaticamente. E Londres e o livro vão trazer ao filme o terceiro «morto»: o escritorzeco Miles Fairley (George Sanders). Há sempre um momento em que, no reino dos mortos, alguém se volta para trás, à busca de uma imagem mais "real". Gene Tierney inicia o seu terceiro Iove affair, com a fraca réplica do capitão, que é a presença sedutora de George Sanders. O fantasma começa por tentar expulsá-lo. Depois, rende-se à vida, no seu segundo "suicídio". E é enquanto ela dorme («Ah! Comme Gene Tierney est belle quand elle dort!») que Rex Harrison se vem despedir dela, na mais bela sequência de sempre da história de Hollywood. «Oh, Lucia» (a voz de Harrison, a música de Herrmann) «you are so little and so lovely» Depois, recita-lhe Keats (Ode to a Nightingale) e fala-lhe de como teria gostado de a levar a ver o sol da meia-noite, os fiordes da Noruega. «What you have missed, Lucia, by being born too late to traveI the Seven Seas with me! And what I've missed too» Depois, ele que, antes, num momento em que ela demasiado se aproximou dele, lhe dissera rudemente: «Keep your dis­tances, madam», inclina-se para ela num quase beijo que, de novo, interrompe. E afasta-se para a janela e para o óculo, que nunca mais vai poder ver o invisível. No sol da manhã seguinte, o capitão desapareceu da vida e da casa de Lucy Muir, que só o capitão tratava por Lucia, como se ela viesse de Lammermoor.

Mas com ele - pouco depois dele - desaparece também George Sanders. Quando Gene Tierney o vem buscar a terra firme (a casa dele) descobre que esse outro "sonho" ocultava a dura realidade de uma banal mentira e de uma banal mediocridade (Sanders era casado e a sua história uma história contada a muitas e passada com muitas). Daí para diante não há mais homens - vivos ou mortos - na vida de Mrs. Muir.


E o tempo começa a passar muito depressa. Depressa envelhece Mrs. Muir. Depressa a filha cresce e a filha casa, para só então contar à mãe que ela também, em criança, vira o fantasma. E depressa chega uma tarde (um fim de tarde) em que Mrs. Muir, de cabelos brancos, se sente muito cansada e pede à criada um copo de leite. Não chega a bebê-lo. O copo escorrega-lhe das mãos e Mrs. Muir morre, agasalhada, na cadeira em frente ao mar em que sempre se sentou. A imagem des­dobra-se. E os dois fantasmas - o dele e o dela, como foram quando eram - ficam a olhar para a velha morta. Depois, descem as escadas de mãos dadas e depois abrem a porta e desaparecem, entre a música, no meio da névoa.

«I have been half in love with easeful Death ... / Was it a vision or a waking dream?» (Keats).

De todas as artes, o cinema é a mais onírica. E essa dimensão nunca existiu tanto como nos filmes "germanizados" ou "germanizantes" feitos em Hollywood nos forties. Joseph L. Mankiewicz (1909-1993), o realizador de “The Ghost and Mrs. Muir” e que só agora nomeio, não era alemão, mas descendia de alemães e na Alemanha se formou. Toda a sua vida procurou o cinema total. Apesar de muitas outras obras­ -primas, nunca esteve tão perto como neste filme de que disse recordar sobretudo «o vento, o mar e a procura de qualquer coisa de diferente». «E as decepções que se tem»

Não há filme mais triste. Não há filme mais bonito. Deixem-me ficar ao pé da mulher que nasceu tarde demais para atravessar os sete mares e para ver o sol da meia-noite. Deixem-me ficar ao pé do capitão que morreu cedo demais para a poder beijar ou para poder deitar-se com ela. Ou deixem-me acreditar que não há cedo nem tarde e que o único amor que existe - porque é o único em que acreditamos que existe­ é o amor surreal, esse que Rex Harrison e Gene Tierney encontram no final, quando desaparecem na névoa, atravessada a última porta.

(1)   Agora, já não está. Mas, embora empalidecido pelo sol (quem é que se lembra de pôr fantasmas ao sol?) continua no meu gabinete. Na Cinemateca.

João Bénard da Costa em  Os Filmes da Minha Vida.



Há essa batida vulgaridade do filme a levar para a tal ilha deserta, há a vontade de, por uma vez, dizer que, se Joseph L. Mankiewicz não tivesse realizado outros grandes filmes, The Ghost and Mrs. Muir era suficiente para o lugar de honra que ocupa na História do Cinema.

Trivialidades parvas mas é o que sinto em relação a este espantoso filme, realizado em 1947, tinha eu 2 anos, que já vi um milhão de vezes – e  continuo a pensar que não são suficientes.

A primeira vez que vi o filme, e não lembro com que idade isso aconteceu, mas já tinha passado o tempo dos primeiros amores, fiquei marcado aos primeiros minutos do correr da fita, assim um tanto ou quanto para não saber o que dizer, ainda  hoje não sei, nem nunca saberei.

Cada vez que dele vejo uma referência, cada vez que o revejo, há sempre uma imensa nostalgia a mexer nos coios da melancolia, assomos da mais bela e esplêndida mentira,  quando Lucy Muir, esplendorosa Gene Tierney, nos diz:

Pode parecer estranho, mas por vezes há um maior sentimento de solidão na companhia de outras pessoas, mesmo se as amarmos, do que se vivermos sós.


Numa crítica ao filme, agora não encontro o recorte mas penso ser de Rui Luís Pina, a abrir, pode ler-se:

Será possível amar-se alguém que não existe?

Quando um dia li o que João Bénard da Costa escrevera sobre o filme, dei comigo a descobrir coisas em que não tinha reparado e que redundaram, para os meus sentidos, em pérolas apaixonantes, e tenho como certo que, a cada novo visionamento, a aventura se repetirá.

O texto foi inicialmente publicado no semanário O Independente, as crónicas do João Bénard da Costa eram motivo único para comprar o pasquim, e mais tarde foi incluído no 2º volume de Os Filmes da Minha Vida, cuja transcrição ocorre no post seguinte.

Nas Obras Completas de João Bénard da Costa, em publicação pela Assírio &Alvim, no 2º volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, o texto do filme é repetido,
mas é precedido de uma deliciosa nota do autor .


Em 1979 João Bénard da Costa organizou para a Fundação Calouste Gulbenkian um Ciclo sobre cinema americano dos anos 40, e pediu a Mary Meerson, uma mulher de mil cinematecas, Bénard diz que a ela deve o seu nome como programado, que o ajudasse a arranjar filmes e uns cartazes para que pudesse organizar uma exposição paralela.

Assim diz João Bénard:

«Ela enviou-me os originais de The Grapes of Wrath, de John Ford, e de The Gost and Mrs. Muir, de Joseph L. Mankiewicz. São cartazes enormes e vinham montados em diversos rolos, para depois se colarem e se pendurarem nas fachadas do cinema, como nos anos 40 se usava. Mandei-os para o serviço de exposições da Gulbenkian, que pouco habituado àquele género de materiais, os montou, sim, mas os colou em enormes e pesadíssimos contraplacados de madeira. Quando assim os vi, caiu-me a alma aos pés. Como é que eu ia devolver aqueles “monstros”? Descolar os cartazes nem pensar, que ficavam em fanicos. Reenviá-los para Paris só em camião especial e por uma fortuna. Telefonei-lhe a contar o sucedido e ela respondeu-me, com a maior naturalidade do mundo: “Guarde-os. Pode ser que lhe sejam úteis."»

Enquanto permaneceu na Gulbenkian, de 1979 a 1981, os cartazes estiveram no seu gabinete, e bem à sua frente colocou o cartaz de The Ghost and Mrs Muir da Gulbenkian.

Regresso à narrativa de João Bénard:

«Em 91, trouxe os cartazes para a Cinemateca. Hoje o das Vinhas da Ira anda por lá. No meu gabinete, em frente à minha mesa só o do Fantasma. Vinte e seis anos (1979-2005) a viver com ele e com Mrs. Muir. Muir dele é muito tempo. Mais do que umas bodas de prata. Mas a profecia de Mary Meerson cumpriu-se. Também foi para isso que ela mos mandou.»

Correndo o risco de dizerem que os nossos posts são enormes, não há pachorra para os ler, publica-se mais à frente o texto sobre o filme.

É também a homenagem a um homem, felizmente controverso, e a quem os cinéfilos portugueses, por mim falo, muito devem.

Mas, por favor, na terça-feira, não percam o filme, porque é na sala escura de um cinema, que os filmes atingem toda a grandiosidade.

Não esqueçam nunca, que a cultura é sempre um prazer. 

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