sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

QUEM HÁ-DE ABRIR A PORTA AO GATO?


CristinaCarvalho diz que seu António Gedeão, em idade adulta, não teve gatos.
Menciona que, enquanto viveu na casa na Calçada do Monte, os gatos apareciam pelos jardins das traseiras.
Gato apenas no papel tal como consta dos Novos Poemas Póstumos, por sinal, um lindíssimo poema ou, como escreve Cristina Carvalho, e no chão, ao lado esquerdo da secretária e em cima do tapete, o grande gato de porcelana branca que eu um dia lhe ofereci.

POEMA DO GATO

Quem há-de abrir a porta ao gato
quando eu morrer?

Sempre que pode
foge prá rua,
cheira o passeio
e volta para trás,
mas ao defrontar-se com a porta fechada
(pobre do gato!)
mia com raiva
desesperada.
Deixo-o sofrer
que o sofrimento tem sua paga,
e ele bem sabe.

Quando abro a porta corre para mim
como acorre a mulher aos braços do amante.
Pego-lhe ao colo e acaricio-o
num gesto lento,
vagarosamente,
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos,
olhos semi-cerrados, em êxtase,
ronronando.

Repito a festa,
vagarosamente.
do alto da cabeça até ao fim da cauda.
Ele aperta as maxilas,
cerra os olhos,
abre as narinas.
e rosna.
Rosna, deliquescente,
abraça-me
e adormece.

Eu não tenho gato, mas se o tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


Legenda: foto grafia de Édoaurd Boubat

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