domingo, 25 de abril de 2021

O DIA INICIAL INTEIRO E LIMPO


 José Cardoso Pires, no seu Alexandra Alpha, deixou as contas feitas:

Quarenta e sete anos, dez meses e vinte e quatro dias.

1.


A Assembleia Nacional ainda abriu para mais uma sessão que acabou por não se realizar por falta de quorom, o que levou o presidente Engº Amaral Neto, a marcar sessão para o dia seguinte, à hora regimental.

Durante anos e anos massacraram-nos com afirmações de alto patriotismo, que se alguém atentasse algo contra o regime, dariam o peito às balas, mostravam-se prontos a morrer, venderiam cara a vida. Alguém poderá ter acreditado, mas quando a hora chegou, não cumpriram uma palavra das promessas que nos atiraram à cara, o palavreado foi-se pela pia abaixo, uns fecharam-se em casa, outros fugiram do país.

2.

Num repente, ficaram sem tropas, sem carros de combate, sem barcos, sem aviões.

 Via rádio, mostraram a quem os ouviu, que não sabiam sequer dar um passo pequenino que fosse, altas-patentes-medalhadas, trocaram diálogos completamente patéticos:

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa aposição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!

3.

Marcelo Caetano, os ministros Moreira Baptista, Silva Cunha, outras ratazanas, refugiaram-se no Quartel da GNR no Carmo que, num ápice, ficou rodeado pelas tropas do Capitão Salgueiro Maia, de todo um povo exultante de alegria.

Tempo de Marcelo perguntar ao comandante do quartel como estava a evoluir a situação. O silêncio do oficial mostrou-lhe que a situação era gravíssima. Ainda perguntou pela marinha, pela força aérea mas não obteve qualquer resposta.

 Mandou telefonar ao General Spínola para negociações de modo a que o poder não caísse na rua.

Entretanto, sabia-se que o venerando chefe de estado estava refugiado na sua residência particular no Restelo. Falou ao telefone com Marcelo e estava disposto a resistir às tropas do MFA. Não se sabe domo, com que meios, com que tropas, prova provadíssima que o homem sempre fora um perfeito ignorante do que quer que fosse, excepto cortar fitas na inauguração de uma qualquer chafariz perdido em nenhures, um realíssimo cabeça-de-nabo, tal como o povo lhe chamava.

Marcelo ter-lhe-á dito que nada havia a fazer e que preparasse a mala para no dia seguinte voar para a Madeira.

Marcelo Caetano e os ministros, depois de abandonarem, numa «chaimite», o quartel do Carmo, pernoitaram no quartel do Regimento de Engenharia 1 da Pintinha.

No dia seguinte, às 07,40 horas, descolou da Portela um avião que levou toda aquela tropa fandanga para o Funchal.

Alexandra Alpha há um tempo largo que andava às voltas do Largo do Carmo e imediações, para encontrar o seu mini-austin que sabia, de certeza absoluta, que deixara por ali pois, queria mesmo o carro porque, de modo algum, podia perder a libertação dos presos políticos em Caxias.

«Afinal acabou por descobri-lo em cima do passeio e junto à mesma árvore onde o deixara há quase uma eternidade. Tinha uma multa por estacionamento proibido, afixada no para-brisas.»

4.

Miguel Torga escreverá no seu Diário:

«Coimbra, 25 de Abril de 1974 – Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada…»

Vergílio Ferreira escreverá no seu Conta-Corrente:

«Vitória. Embrulha­‑se­‑me o pensar. Não sei o que dizer. Uma emoção violentíssima. Como é possível? Quase cinquenta anos de fascismo, a vida inteira deformada pelo medo. A Polícia. A Censura. Vai acabar a guerra. Vai acabar a PIDE. Tudo isto é fantástico. Vou serenar para reflectir. Tudo isto é excessivo para a minha capacidade de pensar e sentir.»

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