quinta-feira, 22 de abril de 2021

ALGUNS DIAS ANTES DE 25


22 de Abril de 1974

Neste dia ainda falamos do almoço íntimo que o chefe de estado ofereceu em Belém a Marcelo Caetano, a alguns ministros, a algumas altas figuras do regime e pelo grande destaque, na sua 1ª página que o jornal Época dá ao repasto.

Para quem não se lembre, ou não saiba, a Época é o resultado de uma fusão entre os jornais A Voz e Diário da Manhã, ambos apregoadores-mor das virtudes da ditadura, ocorrida a 1 de Fevereiro de 1971, tendo como director Barradas de Oliveira e custava 2$50.

 A exemplo de O Século e Diário de Notícias, a Época também não informa o que as excelências comeram e beberam, mas adianta que tudo se passou num ambiente de grande cordialidade…alguns odiavam-se mesmo! A notícia não termina sem que o repórter diga que o Presidente da República e o professor Marcelo Caetano mantiveram troca de impressões.

Que impressões?

1.

O chefe de estado aceita o convite para inaugurara a Feira Nacional de Agricultura e recebeu o arquiduque Otão de Hasburgo que, na véspera, no Grémio Literário proferira uma conferência sobre Política Internacional, presentes, entre outras individualidades, Adriano Moreira, prof. Soares Martinez, Ramiro Valadão, presidente da RTP.

2.

No jornal República, o jornalista e escritor Álvaro Guerra, que era um elo de ligação entre os militares e a imprensa, sabendo do que daí a dias iria acontecer, escreve no seu habitual Ponto Crítico:

A Primavera continua chuvosa, um resto de invernia que se arrasta, retardando o sol aquém, de tantos sóis adiados, se vai fartando e chegando ao Inverno da vida com um levíssimo e já frio raio de luz teimando penetrar na floresta desencantada da memória.
Naturalistas, alegóricos, nostálgicos, vamos seguindo os caprichos do clima, mitigando a ausência das palavras primaveris com a decifração de eternos boletins meteorológicos.

3.


Neste pequeno apanhado de algumas das canções de antes de 25 de Abril, não poderia deixar de aparecer Pedra Filosofal, poema de António Gedeão, musicado e cantado por Manuel Freire.

Nas suas Memórias, António Gedeão/Rómulo de Carvalho, reconhece: Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.

O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel Freire, um rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a “Pedra Filosofal” e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou. Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.

Em Setembro de 1969 Manuel Freire cantou, pela primeira vez, na televisão, aquele meu poema num programa intitulado Zip-Zip.

 

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