sábado, 10 de abril de 2021

AVISO


O homem que nasceu de uma mentira

o homem que cresceu numa sombra de medo

o homem que jantou com o silêncio à mesa

o homem que dormiu entre os braços da angústia

o homem que escreveu o nome na parede do cárcere

o homem que gritou sem que ninguém o ouvisse

o homem que trazia inocência e solidão apenas

o homem que devorou sua própria pureza

o homem que cuspiu desesperado na rosa

o homem que bateu desesperado nos filhos

o homem que beijou desesperado a mulher

o homem que ficou sem cova junto ao muro

o homem que trocou por um ovo um amigo

espera-te       ainda te espera

António Rebordão Navarro em Notícias do Bloqueio nº3, Dezembro 1957 

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