segunda-feira, 17 de maio de 2021

DINIZ DE ALMEIDA (1944-2021)


Sim, havia o cansaço da guerra.

Mas havia uma parte dos militares que perspectivavam outros caminhos.

Dinis de Almeida esteve no pelotão dos que olhavam esses caminhos.

Os seus Diários são peças importantíssimas para se entender como eram os olhares de uma parte dos capitães sobre o modo de olhar a situação que o país vivia.

Em Maio de 1973, no Restaurante Snack-Bar «Galeto» tenta o aliciamento de um camarada:

- Temos de mudar isto.

Recordando os acontecimentos verificados na Capela do Rato cita uma carta do Padre Sampaio para o Padre Bertulli:

«Sinto-me reduzido a uma igreja de silêncio, em que a verdade é escondida e o Evangelho traído descaradamente».

Como, um dia, lembrou Manuel António Pina:

«Porque houve um tempo em que tivemos esperança. E, provavelmente, fé. Um tempo em que acreditámos em coisas maiores, em palavras e ideias por que valia a pena morrer. Também, no entanto, as nossas palavras, mesmo as mais desmesuradas, sucumbiram à trivialidade e à pequenez. E hoje olhamos em volta e vemos muitos dos que connosco partilharam a confiança e a esperança entre as piores dos porcos, dos feios e dos maus.»

Está por fazer toda a História do MFA e de tudo o que depois se seguiu.

Nos 20 anos do 25 de Abril, num inquérito sobre os melhores e os piores acontecimentos, José Saramago, ironicamente, entre outras coisas, escreveu:

«… o pior do 25 de Abril foi o 25 de Novembro; o pior de Otelo foi Saraiva de Carvalho, o pior de Vasco Gonçalves foi Vasco Lourenço, o pior do Primeiro de Maio foi o Dois de Maio…»

Nesta hora, recorrer a Maria Velho da Costa quando gritou que eles hão-de pagar:

«Foram longe de mais. Nem um mês, nem uma no, nem um século decorrerão sem que vos roa um a um as entranhas e pague com a pior peste a ousadia de cercar-me à traição. De limitar-me a voz, os acessos, a vida. Pela voz de todos os que aqui feneceram de excessos e ardores, os meus poetas, os meus desmesurados de sempre, os meus cidadãos da aventura, os grandes viajantes, eu vos amaldiçoo.»

Se me pedissem para encontrar uma canção para lembrar Dinis de Almeida, dirigia-me a Ella Fitzgerald e punha a rodar «The Old Rugged Cross», uma lindíssima canção godspel utilizada largamente na luta pelos direitos humanos, principalmente dos negros.

Numa colina longínqua estava uma velha cruz robusta, a imagem da dor e da vergonha e lembro-a onde o mais querido de todos foi morto e agarro-me fielmente àquela velha e robusta cruz.


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