terça-feira, 4 de novembro de 2014

PENSEI QUE FOSSE UM RAPAZ MUITO BONITO


Numa tarde de chuvisco apeteceu-me uma das tais sanduíches de queijo e alface. Vasculhei as nossas coisas e encontrei exactamente 55 cêntimos, vesti a minha gabardina cinzenta, pus o boné à Mayakovsky e encaminhei-me para o estabelecimento.
Peguei no tabuleiro e enfiei as moedas, mas a portinhola não se abria. Tentei de novo sem qualquer resultado e reparei então que o preço subira para 65 cêntimos. Fiquei desapontado, para não dizer mais, e ouvi então uma voz dizer «Posso ajudá-la?»
Virei-me para trás e era o Allen Ginsberg. Nunca nos conhecêramos, mas o rosto de um dos nossos maiores poetas e actvistas era inconfundível. Olhei para aqueles olhos escuros e intensos que sobressaíam da sua barba preta e encrespada e disse-lhe que sim. O Allen acrescentou a moeda que faltava e também me ofereceu uma chávena de café. Sem dizer nada, segui-o até à sua mesa, e a seguir ataquei a sanduíche.
O Allen apresentou-se. Pôs-se a falar do Walt Whitman e eu disse-lhe que tinha sido criada perto de Camden, onde o Whitman fora sepultado e ele subitamente inclinou-se para diante e perscrutou-me intensamente.
- Você é uma rapariga? – perguntou-me ele.
- Sim – disse-lhe eu. – Tem algum problema com isso?
Ele riu-se
- Desculpe. É que pensei que fosse um rapaz muito bonito.
Percebi logo o que sucedera.
- Bom, isso quer dizer que lhe devolvo a sanduíche?
- Não, bom proveito. O engano foi meu.


Patti Smith em Apenas Miúdos.

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