sábado, 30 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


A vida é muito menos cheia de prosápia do que a morte. É uma espécie de maré pacífica, um grande e largo rio. Na vida é sempre manhã e está um tempo esplêndido. Ao contrário da morte, o amor, que é o outro nome da vida, não me deixa morrer às primeiras: obriga‑me a pensar nas pessoas, nos animais e nas plantas de quem gosto e que vou abandonar. Quando a vida manda mais em mim do que a morte, amo os que me amam, e cresce de repente no meu coração a maré da vida.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia

PAULO VARELA GOMES (1952-2016)



Victor Cunha Rego escreveu numa crónica publicada no Diário de Notícias:

A pessoa preparar-se para a morte é a grande finalidade da vida.

Paulo Varela Gomes morreu hoje , aos 63 anos, de um cancro que lhe foi diagnosticado há quatro anos.

Em Junho do ano passado, escreveu um impressionante texto, publicado na revista Granta:
Tenho um cancro de grau IV. De cada vez que abro o teclado do computador na intenção de escrever, ocorre-me a frase, já mil vezes repetida, “Quando estiverem a ler estas linhas, é provável que o autor já não esteja vivo”.

São incontáveis os artigos, livros, documentários e filmes sobre pessoas que morrem de cancro. Nunca vi nenhum porque não aguento o stress mas ouvi dizer que alguns são eficientes e fazem os espectadores chorar muito. Não vou escrever aqui um artigo desse género, primeiro, porque não sou capaz, e em segundo lugar porque a história da minha doença e daquilo que tenho feito para lidar com ela tem algumas características muito peculiares que podem interessar a todo o género de pessoas que se preocupam com a vida e a morte e que pensaram com seriedade no tema deste número da Granta: “Falhar melhor”.

Tudo começou quando acordei uma manhã com um inchaço do tamanho de uma amêndoa no lado esquerdo do pescoço. Iludido por uma espécie de incredulidade optimista, pensei que se tratava do resultado de uma infecção nos dentes ou na garganta. Desenganou-me um médico especialista dessas áreas com quem fui falar alguns dias depois: “O senhor tem uma massa na garganta. É melhor ir ver isso rapidamente.” Estava muito grave e sossegado, ele. Percebi depois que nunca lhe tinha passado pela cabeça que alguém não soubesse o que quer dizer “massa” em termos orgânicos. Esta foi a única consulta médica a que a Patrícia, minha mulher e minha “curadoura”, não me acompanhou. Estava a ajudar a Rita a podar as videiras da Vinha Comprida. Quando lhe telefonei a transmitir a seca mensagem do médico, percebeu tudo e diz-me que ficou imenso tempo a olhar lá para o longe, para o pinhal sobre a várzea, com as lágrimas a correr-lhe pela cara.

Quarenta e oito horas depois fiz a obrigatória TAC cervical. Despi-me sem preocupações, coloquei aquela bata ridícula dos hospitais que faz qualquer pessoa parecer que sofre ininterruptamente dos intestinos, deitei-me na máquina. No fundo, esperava boas notícias: não tarda, iriam informar-me de que se tratava de uma chatice menor. Estivemos depois hora e meia debaixo da luz verde escura, crepuscular, da sala de espera. Quando o radiologista veio falar connosco, acabou nesse preciso instante a vida que levávamos juntos há mais de duas décadas. O radiologista tinha a expressão macambúzia de quem apresenta os pêsames a uma família enlutada: cancro na otofaringe com tumor na cadeia linfática cervical posterior e metástases no pulmão. Não operável. Tratamentos em doses muito altas de quimio e radioterapia para, daí a dois a quatro meses, deixar de poder comer ou respirar.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Os dias longos, as noites no meio do mar. Espero o porto de chegada, as virtudes restituídas, o espírito enfim reconciliado com o mundo. E desembarco, há uma qualquer experiência surpreendente, caminho para o conhecimento. Consigo agarrar essa meada ainda irreconhecível: a maneira como tudo se enreda em tudo. Desabituei-me dos milagres. Sabe-se como é: quase todas as manhãs acordo angustiado, esforço-me por imaginar que este dia é virgem e primeiro, carregado de poderes enigmáticos, destinado às revelações. Literatura. Merda. Trata-se de mais um dia em que me vou chatear, aturar os meus semelhantes, a filha-da-putice teológico-emocional de um Deus que, ainda por cima, não existe. Posso especular sobre a revolução, evidentemente. Que revolução? A revolução, claro. Pois é: a minha revolução não dá um passo.

Herberto Helder em Os Passos em Volta

DESCONHECIDO NESTA MORADA


Ilustração final de Desconhecido Nesta Morada de Kathrine Kressmann Taylor.

OLHAR AS CAPAS


Desconhecido Nesta Morada

Kathrine Kressmann Taylor
Capa: Rogério Petinga sobre foto da revista de propaganda nazi Signa, 1933
Tradução. José Lima
Gótica, Lisboa, Fevereiro de 2002

Max, meu velho amigo,

Por amor de Deus, Max, Sabes o que estás a fazer? Vou ter de tentar enviar esta carta clandestinamente através de um americano que encontrei aqui. É um apelo que te faço com um desespero que não poderás imaginar. Que loucura aquele cabograma! E estas cartas que mandaste. Fui convocado por causa delas. As cartas não foram entregues, mas eles mostraram-mas e exigem-me que lhes dê o código. Qual código? E como podes tu. Um amigo de há tantos anos, fazer-me uma coisa destas?
Será que não Vês, será que fazes alguma ideia de que me estás a destruir? Os resultados da tua loucura são já tremendos. Disseram-me declaradamente que tinha de me demitir do meu cargo. O Heinrich já não está na Mocidade Hitleriana. Disseram-lhe que não fazia bem à saúde. Santo Deus, Max, sabes o que isso significa? E a Elsa, a quem não ouso contar nada, volta para casa estupefacta por ver que as pessoas importantes recusam os convites que lhes manda e o Barão Von Freische não lhe dirige a palavra quando a encontra na rua.
Sim, claro que sei porque fazes isto. Mas será que  não compreendes que não podia fazer nada? Nem sequer ousei tentar. Peço-te, não por mim, mas pela Elsa e pelos rapazes – pensa no que será deles se eu for levado para um campo de concentração? Será que és capaz de me encostar a uma parede e apontar-me uma arma? Peço-te que páres. Pára imediatamente, enquanto nem tudo foi ainda destruído, Temo pela minha vida, pela minha vida, Max.
És mesmo tu quem faz isto? Não pode ser. Amei-te como a um irmão, meu velho Max. Por amor de Deus, será que não tens piedade’ Peço-te, Max, basta, basta! Pára enquanto posso ainda ser salvo. É com o meu coração cheio da antiga afeição que to peço.


Martin

APENAS ROCK AND ROLL


Mais uma fotografia do Rei tirada da Unseen Archives de Marie Clayton.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Difícil é esperar
quando nada sabemos
nada haver a esperar.
O eco de uma lágrima não basta
para dar vento à sementeira.

Egito Gonçalves em O Fósforo na Palha

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

UMA VIDA TODA ELA DEDICADA AO MAR


Tal como ficou prometido em AH!... AS ABÓBORAS!...

OLHAR AS CAPAS


Tubarões e Peixe Miúdo

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: Henrique Cayatte
Editorial Caminho, Lisboa Agosto de 1986

E havia dias em que a solidão era não um vinho embriagador, mas um veneno que o levava a bater, em pensamento só, com a cabeça nas paredes.
Quanto à Mitchell mesmo quando acompanhada procedia como se estivese só, Há pessoas que estão sempre sós. Uma multidão nunca foi uma companhia

«Só encontramos na solidão aquilo que para lá levar-mos connosco, concluía Sacatrapo.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


O tempo do livro é o do candeeiro de petróleo, o das meias de algodão feitas em casa à agulha, o das papas de linhaça e do óleo de fígado de bacalhau. O das ceroulas compridas com atilhos. É o tempo dos botins e das cuias, dos palitos para palitar os dentes depois da sobremesa. O tempo das perucas, das lamparinas e dos penicos.

Vergílio Ferreira em Para Sempre

AINDA ABRIL




Terão sido estes os primeiros discos comprados pós-25 de Abril.

OLHAR AS CAPAS


A Poesia Continua
Velas e Novas Circunstâncias

José Gomes Ferreira
Capa: Vitorino Martins
Obras Completas de José Gomes Ferreira nº 15
Moraes Editores, Lisboa, Maio de 1981

E foi para esta farsa
que se fez a revolução de Abril, capitães,
ao som das canções de Lopes-Graça? 

Foi para voltar à fúria dos cães,
ao suor triste das ceifeiras nas searas,
as espingardas que matam os filhos as mães
num arder de lágrimas na cara?

E, no entanto,
no princípio, todos ouvíamos uma Voz
a dizer-nos que a nossa terra poderia tornar-se num pomar
de misteriosos pomos. 

E nós,
todos nós, chegámos a pensar
que éramos maiores do que somos.

terça-feira, 26 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


No nosso tempo, o suicídio é um modo de desaparecer, praticado tímida e silenciosamente, sem dar nas vistas.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

QUOTIDIANOS



Eugénia Vasconcelos no Escrever é Triste

NOTÍCIAS DO CIRCO



Legenda: imagem TSF

E ENTÃO O QUE SE HÁ-DE FAZER?



A ditadura vivia as suas últimas horas de estertor.

Marcelo Caetano, mais alguns ministros, no Quartel do Carmo, que se encontrava cercado de povo e pelas tropas de Salgueiro Maia, se não choravam, estavam no limiar de lágrimas derramadas.

Que se há-de fazer?, perguntava um qualquer general para um outro qualquer general, ambos na cidade cercada, sem perceberem muito bem o que lhes estava a acontecer.

O extraordinário disco, protagonizado por Adelino Gomes – magnífico Adelino Gomes! -  que relata o que ia acontecendo, guarda o desespero desses tais generais:

- Urgente. Escuto!

- O Chiado está fechado por viaturas saídas do Terreiro do Paço. O Largo do Carmo está cheio de viaturas, canhões apontados para o quartel. A situação é esta: só tenho aqui com viaturas, dois pelotões da Guarda e o resto da tropa apeada, Infantaria 1 foi para o Rossio e levaram os carros e não tenho contacto com eles.

- E então o que é que se há-de fazer?


- Não sei. Escuto. Não vejo solução… talvez aguardar…

- A nossa aposição é um tanto ou quanto ridícula. Estamos todos juntos aqui no Largo da Misericórdia aparentemente divorciados do resto da guerra. Tenho a impressão, salvo melhor opinião, que seria conveniente regressar a quartéis.

- Creio que há um ultimato até às 2 horas para entregar o Presidente do Conselho. Não sei se é verdade. Escuto.


- Que possibilidade vê de prosseguir a acção, com que meios, porventura, pôr à sua disposição.


- Não vejo possibilidade porque está tudo atravancado. Consegui limpar aqui o largo mas há muita população aqui metida no meio que não nos hostiliza porque julga que estamos do outro lado. Situação um bocado delicada de forma que não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável. Escuto!

Vale a pena voltar a ouvir:

…não vejo bem maneira, a não ser com meios aéreos que possa limpar um bocado aquilo, porque a infiltração não me perece viável.

Era este tipo de gente que, durante quase meio século, cerceou as nossas vidas e as nossas liberdades

Até que chegou o Dia das Surpresas.

GENTE QUE FAZ PENSAR


Encontrei no Baú este número da Flama de 28 de Agosto de 1964.

Guardada por causa do artigo sobre os Beatles.

Lidos hoje, artigo e depoimentos, dão vontade de rir.

O artigo não foge daquela velha ideia encontrada, então, para denegrir os rapazes de Liverpool: cabelos compridos, ideias curtas.



Um exemplo da prosa:

Liverpool, como as grandes cidades industriais de Inglaterra, é escura, violenta, taciturna. Pequeno império da delinquência juvenil, com os seus «rocks» e os seus «mods», é um verdadeiro problema para a tradicional austeridade britânica.


Mais um exemplo:

Este género de acontecimentos deve mais para além do umbral da nossa racionalidade adulta, porque a verdade é que não compreendemos o que se passa com esses rapazes e raparigas tão excitados! Muito boa gente considera os «Beatles» uma invasão de perversidade e decadência exportada pelo velho mundo: uma ameaça para a tranquila adolescência que cultiva o respeito e a dedicação; um convite de ascensão à alta delinquência juvenil».


Em complemento ao artigo, publicavam-se alguns depoimentos.

Escolhi quatro e acho o da então estudante liceal Maria Beatriz, uma delícia: ao conjunto português de Gonçalo Lucena faltou uma afinada máquina publicitária. 


Mas quem era o Gonçalo Lucena?

Tudo isto é prosa rançosa, mas era o que havia.

O espantos dos espantos é que os Beatles, apesar destas tristes letras e opiniões, outras terão existido, conseguiram romper as trevas portuguesas e tornaram-se no fenómeno que tantas alegrias deu.

Já que de Beatles falei, tempo de deixar escrito que nunca me recompus com a separação daqueles rapazes.

Ficou sempre a faltar qualquer coisa...

TRÊS CARNEIROS DO TEJO



Nasce na serra de Albarracim, em Espanha,
entra-nos em casa pelo Ródão,
arremeda-nos a sua galadela,
depois acalma, vai deitando corpo,
e aqui, já todo ancho, o atravesso
diàriamente, eu, o ribeirinho
que traz a mão na estiva de palavras
no outro lado e a cabeça algures.

Cada um com sua nuvem rente à boca,
que em alguns é o cúmulo da prosápia,
das leiras do sono nós todos arrancamos
pra Lisboa, a tão estremecida,
e ao barbeirinho opomos catadura
de quem está zangado com a vida.

E estamos.

                               *

Dragado de conversas, Tejo, darias mais calado
à nossa companhia,
mas calados só eu e a rapariga
que passou a noite a vadrulhar,
deu um pulo à tia e volta prà cidade
já quase na pele de outra pessoa,
retocado o bâton, aproveitada a olheira,
reposto o seio no lugar, tão sobranceiro!

É de dia caixeira, aposto eu.
Não vale que tu viste, digo eu.

                                *

Ó Tejo nunca inaugurado, nesta praça
devia haver comércio, esplanadas, mesas
onde eu assentaria o cotovelo e, a cafés,
diria, versejando, quem não és.


Com as Dez Odes do Dr. Armindo,
que, aliás, são um poema lindo,
ó Tejo vaidosão tu transbordaste,
tu não te contiveste, tu não te aguentaste!


Mas eu, Tejo continuado, nesta praça
minist'rial que mais te posso dar,
a ti que vens de Albarracim, meu espanhol,
que passaste Almourol,
que passaste Pereira Gomes e Redol,
senão a frase sim ou não ouvida,
com este meu ouvido, com esta minha vida,
a um rapaz que, sem malícia, veio,
da sombra de sei lá de que sobreiro,
para dar em alguém, cá na cidade:



Ser da polícia,
dá cantina, barbeiro, autoridade.

Alexandre O’ Neill em Feira Cabisbaixa

segunda-feira, 25 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO



As revoluções acabam sempre traídas por uma razão simples: a renúncia dos cidadãos a participar.

José Saramago

Legenda: imagem tirada de Duas ou Três Coisas

ABRIL


Documentário de Joaquim Vieira com texto de Viriato Teles, galardoado em 2015 com o Prémio Autores para o Melhor Programa Televisivo de Entretimento.


SARAMAGUEANDO


Ainda em ditadura, Manuel Alegre já nos falava de uma rapariga do País de Abril:

Por ti cantei entre meu povo e meu poema
E achei    achando-te    o País de Abril     

Em Os Poemas Possíveis, José Saramago, num qualquer dia, ouvindo Beethoven, garantiu-nos que um dia, um qualquer dia, ruiriam os altos muros e chegaria o dia das surpresas.

Assim foi.

Um outro poeta, Jorge de Sena, sabia que não havia de morrer sem saber qual a cor da liberdade, a grande ilusão, como lhe chamou José Gomes Ferreira, mas depois Sena acabaria por se espantar de a tal alegria ter assistido:

Nunca pensei viver para ver isto:
a liberdade – (e as promessas de liberdade)
restauradas. Não, na verdade, eu não pensava
- no negro desespero sem esperança viva -
que isto acontecesse realmente. Aconteceu.
E agora, meu general?

Tantos morreram de opressão ou de amargura,
tantos se exilaram ou foram exilados,
tantos viveram um dia-a-dia cínico e magoado,
tantos se calaram, tantos deixaram de escrever,
tantos desaprenderam que a liberdade existe-
E agora, povo português?

Com o andar dos tempos, o 25 de Abril foi deixando em José Saramago, uma certa amargura.

Ainda escreverá:

Não esquecerei o que então chamámos Esperança.


Mas conversando com João Céu e Silva, deixou cair:

Eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de Abril me trouxe desapareceu e não me digam que é porque temos democracia. Em primeiro lugar porque esta democracia – e a democracia em geral – é bastante discutível e penso que haveria de a discutir muito seriamente porque a democracia é uma espécie de santa no altar em que não se pode tocar nem dizer nada. Espanha também tem democracia e não fez nenhuma revolução, se nós em lugar da revolução tivéssemos passado por um processo de transição como aconteceu no país vizinho estaríamos exactamente onde estamos. Aqui há anos, numa sessão organizada pela CGTP, eu atrevi-me a dizer isto e o que me chamaram nessa altura… Até o Melo Antunes disse «Esse tipo é parvo!» Por isso não me falem em 25 de Abril, a malta sai à rua com os panos a dizer «25 de Abril sempre» mas onde está ele? Digam-me por favor o que é que ficou, mas digam-me concretamente. Nada… Ficou uma data e agora só nos resta ir ao cemitério uma vez por ano pôr as flores onde entendermos que são justas.


Já a 25 de Abril de 1993, Cadernos de Lanzarote, 1º volume, escrevera:

Carmélia telefonou de manhã, aos gritos «25 de Abril , sempre! 25 de Abril, sempre!» Lembrei-me daquela outra chamada, há 19 anos, no meio da noite, quando uma das filhas do Augusto da Costa Dias me avisou que a revolução está nas ruas, Agora, o entusiasmo de Carmélia, um entusiasmo de sobrevivente, deixou-me lamentavelmente frio.

No 5º volume dos Cadernos de Lanzarote, na entrada de 25 de Abril de 1997, José Saramago deixou escrito:

Exemplar e oportuno, Vasco Lourenço acaba de produzir uma importantíssima declaração, contribuindo, como só ele poderia, para as alegrais deste dia fasto: «Se fosse preciso, faria outro 25 de Abril…» Dá vontade de lhe dizer que teria podido consegui-lo facilmente se não tivesse ajudado tanto a fazer o 25 de Novembro…

Legenda: fotografia de Eduardo Gageiro, poster de Vieira da Silva

OLHAR AS CAPAS


PoemaAbril

Antologia Poética
Coordenação e nota prévia de Carlos Loures e Manuel Simões
Capa: Guy Ferreira
Nova Realidade, Tomar, 1984

O Dia Incomum de Um Exilado Vivendo Então em Vancouver

Era muito longe, ou seja
no Pacífico
Notícias de jornal, confusas:
tanques ocupam a praça central
de Lisboa
Digo-me: mal eles sabem que se chama
Rossio mas digo-me também: se é a revolução
daquele do monóculo
pouco tenho a esperar
Depois espanto-me: como é possível
que libertem assim
sem mais nem menos
os presos políticos
e prometam a autodeterminação
de colónias economicamente tão preciosas?
0 povo saiu à rua e foi isso
que mudou tudo, explicam-me então
pelo telefone.
No dia em que abalei
para aqui ficar
deixei sem remorsos:
a minha horta
cujos legumes tantas vezes protegi
um trabalho que tanto suspeitava amar
e os amigos que, querendo ser generosos,
me disseram:
«Vai, vais ver que não te arrependes»
Esquece-se muita coisa...
a força de ver caras novas
não sei se me lembro das antigas
embora as veja tão bonitas
e disponíveis
na memória
e por vezes em fotografia.

Sérgio Godinho

domingo, 24 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Que um dia a vida virá a ser melhor.

Paul Éluard em Poemas Políticos

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

EM LOUVOR DO 24 DE ABRIL


Crónica de António Rego Chaves, publicada num Diário de Notícias, s/d.

À MEMÓRIA DE PAUL VAILLANT-COUTURIER


Moro no bairro de La Chapelle
E o jornal da minha célula tem por título
Os Amigos da Rua falam-vos
Não é vendido mas distrubuído
Pois que nos cussta apenas um bocado de tempo

E o meu coração está com os Amigos da Rua
Que me falam e me dão coragem
Para ser um homem da rua
Múltiplo pela amizade e o desejo
De estramos juntos para sermos fortes

Na minha rua têm todos cuidados semelhantes
E as mesmas esperanças em desgraça menor
Mesmo amores também meu coração com eles
Meu coração inteiro em seus corações sãos
Bem o sei é por eles que falo

E eles falam por mim mesmas nossas palavras
Nossa rua conduz a outras ruas e homens
A outros tempos e ao tempo que foi teu
Paul Vaillant-Couturier que foste igual a nós
E que por nós juravas como por ti juramos

Que um dia a vida virá a ser melhor.

Paul Éluard em Poemas Políticos

SARAMAGUEANDO


Com Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago, a nova Colecção dos Livros RTP não poderia começar melhor.

A edição tem prefácio de Zeferino Coelho, seu editor desde 1979, ano da publicação da peça de teatro A Noite.

Um texto curto, simples e conciso, mas que denota o amor pelo homem e pelo escritor que ninguém queria editar.

Mas ele acreditou no homem e no escritor, no amigo e no camarada.

Recorde-se que a Bertrand recusou a publicação de Levantado do Chão e, mesmo Nelson deMatos, a atravessar momentos difíceis na Moraes, também amigo e camarada de José Saramago, não conseguiu dar a volta ao texto.

Louve-se Zeferino Coelho pelo risco e a ousadia.

José Saramago era, do ponto de vista de um editor, por vários motivos, o escritor ideal. Por exemplo: aí por janeiro ou fevereiro telefonava-me e dizia: “Este ano tens livro novo. Conta com ele lá para o final de Julho. Podes programar as coisas para ele sair em outubro,” Nunca falhou. Por vezes adiantava-se ou atrasava-se uma ou duas semanas no máximo.

O Ensaio Sobre a Cegueira, na opinião de Maria Alzira Seixo, é um livro impressionante, de leitura muito incómoda, mas que nos mantém presos até à última página, no dizer de Baptista-Bastos, uma verdadeira descida aos infernos e, Saramago, ao terminar o romance, escreveu nos seus Cadernos de Lanzarote:


…pensá-lo, fazê-lo, sofrê-lo, já foi, como tinha de ser, obra de transpiração.



Tal como consta dos seus cadernos de capa preta, a ideia do livro ocorreu a Saramago, no dia 6 de Setembro de 1991, enquanto esperava que lhe servissem o almoço no restaurante Varina da Madragoa:

A pergunta que faz a si mesmo: E se nós fôssemos todos cegos?

De imediato saiu-lhe a resposta: Mas nós estamos todos cegos.

Mais tarde escreverá:

Estamos cada vez mais cegos porque cada vez menos queremos ver.

Numa entrevista a Maria Leonor Nunes, publicada no JL de 25 de Outubro de 1995, revela que, quando saiu de Lisboa para ir viver em Lanzarote, levava 15 páginas escritas: cada vez que me aproximava do livro, era como se me empurrassem. Repelia-me.

Ainda segundo os cadernos de capa preta, em 6 de Dezembro de 1994, exactamente três anos e três meses passados sobre o almoço na Varina da Madragoa, anotava que, decorrido todo este tempo, nem cinquenta páginas tinha ainda conseguido escrever.

E na citada entrevista ao JL, interrogava-se:

Não sei como é que as pessoas que me costumam ler, habituadas a um certo lirismo e beleza poética de outros livros, vão aguentar a dureza deste romance.

Ao longo dos três primeiros volumes dos Cadernos de Lanzarote, Saramago vai dando conta de como corre a escrita do Ensaio:


 20 de Abril de 1993

Esta manhã, quando acordei, veio-me à ideia o Ensaio Sobre a Cegueira, e durante uns minutos tudo me pareceu claro – excepto que do tema possa vir a sair alguma vez um romance, no sentido mais ou menos consensual da palavra e do objecto. Por exemplo: como meter no relato personagens que durem o dilatadíssimo lapso de tempo narrativo de que vou necessitar? Quantos anos serão precisos para que se encontram substituídas, por outras, todas as pessoas vivas num momento dado? Um século, digamos que um pouco mais, creio que será bastante. Mas neste meu Ensaio, todos os videntes terão de ser substituídos por cegos, e estes, todos, outra vez por videntes… As pessoas, todas elas, vão começar por nascer cegas, viverão e morrerão cegas, a seguir virão outras que serão sãs da vista e assim vão permanecer até à morte. Quanto tempo requer isto? Penso que poderia utilizar, adaptando-o a esta época, o modelo «clássico» do «conto filosófico», inserindo nele, para servir as diferentes situações, personagens temporárias, rapidamente substituíveis por outras no caso de não apresentarem consistência suficiente para uma duração maior na história que estiver a ser contada.

21 de Junho de 1993

Dificuldade resolvida. Não é preciso que as personagens do Ensaio Sobre a Cegueira tenham de ir nascendo cegas, uma após outra, até substituírem, por completo, as que têm visão: podem cegar em qualquer momento. Desta maneira fica encurtado o tempo narrativo.

2 de Agosto de 1993:

Escrevi as primeiras linhas do Ensaio Sobre a Cegueira.

Que teria feito às 15 páginas de que falara a Maria Leonor Nunes quando partiu para Lanzarote?

Modificou-as? Riscou-as?

15 de Agosto de 1993

Decidi que não haverá nomes próprios no Ensaio, ninguém se chamará António ou Maria, Laura ou Francisco, Joaquim ou Joaquina. Estou consciente da enorme dificuldade que será conduzir uma narração sem a habitual, e até certo ponto inevitável, muleta dos nomes, mas justamente o que não quero é ter de levar pela mão essas sombras a que chamamos personagens, inventar-lhes vidas e preparar-lhes destinos. Prefiro, desta vez, que o livro seja povoado por sombras de sombras, que o leitor não saiba nunca de quem se trata, que quando alguém lhe apareça na narrativa se pergunte se é a primeira vez que tal sucede, se o cego da página cem será ou não o mesmo da página cinquenta, enfim, que entre, de facto, no mundo dos outros, esses a quem não conhecemos, nós todos.

30 de Agosto de 1993

Terminado o primeiro capítulo do Ensaio. Um mês para escrever quinze páginas… Mas Pilar, leitora emérita, diz que não me saí mal da empresa.

25 de Novembro de 1993

Em que ponto está o Ensaio Sobre a Cegueira? Parado, dormindo, à espera de que as circunstâncias ajudem. Mas as circunstâncias, mesmo quando parecem propícias, não perdem a sua volubilidade natural, precisam de uma mão firme e boa conselheira. Até ao fim do ano, não terei mais remédio que deixá-las à solta  mas logo a seguir tratarei de as prender curto.

17 de Dezembro de 1993

Voltei – timidamente – ao Ensaio. Modifiquei umas quantas coisas, e o capítulo ficou bastante melhor: a importância que pode ter usar uma palavra em vez de outra, aqui, além, um verbo mais certeiro, um adjectivo menos visível, parece nada e afinal é quase tudo.


24 de Julho de 1994

Uma coisa seria querer fazer um romance sem personagens, outra pensar que seria possível fazê-lo sem gente. E esse foi o meu grande equívoco quando imaginei o Ensaio Sobre a Cegueira. Tão grande ele foi que me custou meses de desesperante impotência: Levei demasiado tempo a perceber que os meus cegos podiam passar sem nome, mas não podiam viver sem humanidade. Resultado: uma boa porção de páginas para o lixo.

12 de Janeiro de 1995

José Manuel Mendes pergunta-me num fim de carta: «Como vai o Ensaio?» Vou responder-lhe com uma palavra simples: «Avança.» Provavelmente, ele pensará: «Enfim… já não era sem tempo.»

18 de Junho de 1995

Voltei ao Ensaio. Com a disposição firme de levá-lo desta vez ao fim, custe o que custar. Durante todo o tempo que andei por fora, amigos e conhecidos não pararam de perguntar pelos meus cegos. Chegou a altura de eles responderem por si mesmos.

9 de Agosto de 1995

Terminei ontem o Ensaio Sobre a Cegueira quase quatro anos após o surgimento da ideia.
(…)
E lutei, lutei muito. Só eu sei quanto, contra as dúvidas, as perplexidades, os equívocos que a toda a hora me iam atravessando na história e me paralisavam. Como se isto não fosse bastante, desesperava-me o próprio horror do que ia narrando. Enfim, acabou, já não terei de sofrer mais.

O Ensaio Sobre a Cegueira é um livro notável, mas difícil.
Doloroso mesmo, como realça o próprio autor quando fala das dificuldades que  enfrentou para o escrever.
Quando terminei a leitura de Ensaio Sobre a Cegueira, senti-me perdido.

Ainda não me tinha acontecido com nenhum outro livro do autor.

Interiorizei, de imediato,que tinha de voltar a lê-lo.

Uma segunda e terceira leituras, espaçadas no tempo, conseguiram que, finalmente, absorvesse toda aquela delirante e louca beleza.

A publicação do livro pela Leya/RTP vai, agora, possibilitar a quarta leitura.

Nessa noite o cego sonhou que estava cego.


A um jornalista do Público, que lhe perguntou como gostaria de ser recordado, Saramago respondeu:

“Gostaria de ser recordado como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas, no “Ensaio sobre a cegueira”. É um dos momentos mais belos que fiz até hoje como escritor. Se no futuro puder ser recordado como “aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher” ficarei contente”.

Tal como se pode ler na pág. 226 da 1ª edição, Outubro de 1995 do Ensaio Sobre a Cegueira.

A mulher do médico vai lendo os letreiros das ruas, lembra-se de uns, de outros não e chega um momento em que compreende que se desorientou e perdeu. Não há dúvida, está perdida. Deu uma volta, deu outra, já não reconhece nem as ruas nem os nomes delas, então, desesperada, deixou-se cair no chão sujíssimo, empapado de lama negra, e, vazia de forças, de todas as forças, desatou a chorar. Os cães rodearam-na, farejam os sacos, mas sem convicção, como se já lhes tivesse passado a hora de comer, um deles lambe-lhe a cara, talvez desde pequeno tenha sido habituado a enxugar prantos. A mulher toca-lhe na cabeça, passa-lhe a mão pelo lombo encharcado, e o resto das lágrimas chora-as abraçada a ele. Quando enfim levantou os olhos, mil vezes louvado seja o deus das encruzilhadas, viu que tinha diante de si um grande mapa, desses que os departamentos municipais de turismo espalham no centro das cidades, sobretudo para uso e tranquilidade dos visitantes, que tanto querem poder dizer aonde foram como precisam saber onde estão. Agora, estando toda a gente cega, parece fácil dar por mal empregado o dinheiro que se gastou, afinal há é que ter paciência, dar tempo ao tempo, já devíamos ter aprendido, e de uma vez para sempre, que o destino tem de fazer muitos rodeios para chegar a qualquer parte, só ele sabe o que lhe terá custado trazer aqui este mapa para dizer a esta mulher onde está. Não estava tão longe quanto cria, apenas se tinha desviado noutra direcção, só terás de seguir por esta rua até uma praça, aí contas duas ruas para a esquerda, depois viras na primeira à direita, é essa a que procuras, do número não te esqueceste. Os cães foram ficando para trás, alguma coisa os distraiu pelo caminho, ou então muito habituados ao bairro e não querem deixá-lo, só o cão que tinha bebido as lágrimas acompanhou quem as chorara, provavelmente este encontro da mulher e do mapa, tão bem preparado pelo destino, incluía também um cão.

Legenda: Capa da tradução holandesa de Ensaio Sobre a Cegueira, retirada do site da Fundação José Saramago, e fotogramas do filme Ensaio Sobre a Cegueira de Fernando Meirelles.

sábado, 23 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Enfim, como nos disse Shakespeare: a vida não é mais do que uma sombra que anda, um conto contado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada.

Zeferino Coelho no prefácio a Ensaio Sobre a Cegueira

Legenda: fotografia de Ernst Haas

NOTÍCIAS DO CIRCO




Vitor Constâncio foi um péssimo governador do Banco de Portugal.
Fechou os olhos ao muito do que tem vindo a ocorrer na banca portuguesa.
Deu de frosques para a Comunidade Europeia, onde ocupa o lugar de vice-presidente do Banco Central Europeu, com ordenado e mordomias sumptuosas, e entende que não tem de dar esclarecimentos sobre a novela Banif engendrada pelo BCE de parceria com Maria Luís Albuquerque.

OLHAR AS CAPAS


Ensaio Sobre A Cegueira

José Saramago
Prefácio: Zeferino Coelho
Capa: Rui Garrido
Colecção Essencial nº 1
Leya/RTP, Lisboa, Abril de 2016

Tal como os livros anteriores de Saramago, O Ensaio Sobre a Cegueira teve um enorme êxito junto dos leitores (mesmo daqueles que se recusavam a lê-lo ou que abandonavam a leitura por medo de enfrentar aquela terrível realidade, que, todavia, é mera invenção) E no ano seguinte começavam a sair traduções um pouco por toda a parte, sempre com grande aplauso da crítica. Recordo-me que nos Estados Unidos da América o livro saiu no verão de 1998 e todos os grandes jornais e revistas o referiam de forma muito positiva, e algumas vezes entusiásticas. Em setembro comecei a receber na editora as recensões americanas (1).
E foi uma delas, publicada pelos Los Angeles Times, que me deu o que me faltava para compreender o livro. O crítico classificava-o como “um romance sinfónico”. E é isso que, quanto a mim, o livro é no que se refere à sua estrutura romanesca. Um conjunto de solistas – aquelas personagens sem nome, identificadas apenas por uma característica particular da sua vida (o médico, a mulher do médico, a rapariga dos óculos escuros, o ladrão, o primeiro cego, a mulher do primeiro cego, o rapazinho estrábico, o velho da venda preta, isto sem esquecer aquele que é talvez o mais eloquente de todos eles, o cão das lágrimas (2) – solistas movimentando-se sobre um grandiosos pano de fundo – que está ali como se fosse uma orquestra. E o romance está construído de tal modo que nem a orquestra, a multidão infindável de cegos, se sobrepõe aos solistas abafando-lhes a voz, nem os solistas se sobrepõem à orquestra, fazendo-nos esquecer a força do pano de fundo dentro do qual vivem o seu drama.

(1)   Ainda hoje estou convencido de que foram estas recensões que acabaram por convencer os membros da Academia Sueca a atribuírem-lhe o Prémio Nobel da Literatura.
(2)   Ouvi várias vezes o autor dizer que não se importaria de vir um dia a ser conhecido como o criador desta personagem, o cão das lágrimas.

(Do Prefácio de Zeferino Coelho)

sexta-feira, 22 de abril de 2016

POSTAIS SEM SELO


Quem não conhece, não estima.

Mário Castrim

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

CANÇÃO DA TERRA


O Google diz-nos que hoje é o Dia da Terra, o tão mal tratado nosso planeta.
José Saramago escreveu um dia que o universo não tem notícia da nossa existência.
Quando olhei a efeméride, lembrei-me da Canção da Terra de Gustav Mahler, um tema que aprendi a gostar.
O mesmo se passou com o gin tonic.
Mahler tem destas dificuldades.
O Gin nem tantas.

OLHAR AS CAPAS


1984

George Orwell
Tradução: L. Morais
Capa: Câmara Pereira
Círculo de Leitores, Lisboa, Maio de 1984

A escapada com aquela mulher fora a primeira em dois anos ou mais. Andar com prostitutas era proibido, naturalmente, mas era uma dessas regras que às vezes os militantes tinham a coragem de quebrar. Ser apanhado com uma prostituta poderia significar cinco anos com campo de trabalhos forçados; apenas isso, se não houvesse outra infracção. E era fácil, contanto que se evitasse ser surpreendido no acto. Os bairros pobres pululavam de mulheres prontas a entregarem-se. Algumas podiam até ser pagas com uma garrafa de gin, que os proles não tinham direito de beber. Tacitamente o Partido inclinava-se até a estimular a prostituição, para dar a fuga a instintos que não podiam ser totalmente suprimidos. Mera luxúria, não tinha grande importância, contando que fosse praticada às escondidas e sem alegrai e só envolvesse mulheres de uma classe desprezada. O crime imperdoável era a promiscuidade entre membros do Partido. Mas – embora este crime fosse invariavelmente confessado pelos acusados nas depurações – era difícil imaginar que realmente fosse praticado.  

OLHARES


É sempre bonito um olhar pelo Eléctrico 28.
Passa pelas Portas do Sol a caminho da Graça.

quinta-feira, 21 de abril de 2016

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Os primeiros 12 livros da Colecção Essencial/RTP.
Está prevista a publicação de 25 livros.

SARAMAGUEANDO


Ainda há dias recordámos, aqui, os Livros da RTP, publicados na década de 70 e o papel que tiveram na divulgação do livro e do gosto pela leitura

A RTP leva, agora, a cabo uma ideia similar.

Chama-se Colecção Essencial - Livros RTP e o Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago será o primeiro livro com prefácio do seu amigo e editor Zeferino Coelho.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, esteve na apresentação dos novos Livros RTP e teceu elogios à iniciativa que pretende promover o gosto pela leitura através de alguns dos autores mais relevantes do século XX. "O livro e a leitura eram, foram e são factores essenciais de educação e cultura, desenvolvimento humano, mudança social e política", afirmou aos presentes, acrescentando que o primeiro volume da coleção é uma "obra notável" de Saramago.

Cada volume custa 10 euros.

Os próximos volumes serão A Guerra do Mundo de Mario Vargas Llosa, lançamento previsto para 17 de Maio e Jerusalém de Mia Couto, lançamento previsto para 7 de Junho.

Aqui, fizemos uma releitura de Ensaio Sobre a Cegueira.

O livro que tem como epígrafe:

Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.

A SEDE QUE SE DESEJA


Este postal saído do Baú, mostra  a Taça de Portugal 1963/64, Taça dos Clubes Campeões Europeus 1960/61. Troféu Ramon Carranza, 1963, a Taça dos Clubes Campeões Europeus 1961/62 e a Taça do Campeonato Nacional 1963/64 ganhas pelo Glorioso e expostas no velho Estádio da Luz.
O curioso é que já naqueles tempos a Cerveja Sagres já acompanhava o Glorioso SLB.

ABRIL


Abril.

Margem de Certa Maneira

Eh Companheiro!
Música de José Mário Branco
Letra de Sérgio Godinho



Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
Estas paredes me tolhem
os passos que quero dar
uma é feita de granito
não se pode rebentar
outra de vidro rachado
p'ras duas pernas cortar

Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Só tem medo desses muros
quem tem muros no pensar
todos sabemos do pássaro
cá dentro a qu'rer voar
se o pensamento for livre
todos vamos libertar

Eh! Companheiro eu falo
eu falo do coração
Já me acostumei à cor
desta negra solidão
já o preto que vai bem
já o branco ainda não
não sei quando vem o vento
pra me levar de avião

Eh! Companheiro respondo
respondo do coração
ser sozinho não é sina
nem de rato de porão
faz também soprar o vento
não esperes o tufão
põe sementes do teu peito
nos bolsos do teu irmão

Eh! Companheiro vou falar
vou falar do meu parecer
Vira o vento muda a sorte
toda a vida ouvi dizer
soprou muita ventania
não vi a sorte crescer
meu destino e sempre o mesmo
desde moço até morrer

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou p'ra responder
Sorte assim não cresce a toa
como urtiga por colher
cresce nas vinhas do povo
leva tempo a amadur'cer
quando mudar seu destino
está ao alcance de um viver

Eh! Companheiro aqui estou
aqui estou pra te falar
De toda a parte me chamam
não sei p'ra onde me virar
uns que trazem fechadura
com portas para espreitar
outros que em nome da paz
não me deixam nem olhar

Eh! Companheiro resposta
resposta te quero dar
Portas assim foram feitas
p'ra se abrir de par em par
não confundas duas coisas
cada paz em seu lugar
pela paz que nos recusam
muito temos de lutar.