sábado, 3 de janeiro de 2026

TRUMP INVADE A VENEZUELA


Donald Trump ordenou a invasão da Venezuela e a prisão do presidente Nicolas Maduro.

Uma coisa é sabermos quem é Nicolas Maduro e a sua presidência, outra, é sabermos que os Estados Unidos querem tornar-se, de novo, os donos da América Latina… e não só…

O que se segue é uma montagem do que é, hoje, publicado pelo Público:

1.

«Num post na sua conta na rede social Truth Social, Donald Trump admitiu o ataque dos Estados Unidos da América à Venezuela, garantindo que Maduro e a sua mulher foram capturados pelas forças norte-americanas e enviados para fora do país.

“Os Estados Unidos da América levaram a cabo com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e o seu líder, o Presidente Nicolás Maduro, que foi capturado juntamente com a sua esposa e retirado do país por via aérea”, lê-se na publicação.

O Presidente dos EUA adiantou ainda que está prevista uma conferência de imprensa em Mar-a-Lago, “pelas 11h deste sábado” (16h em Portugal continental), onde serão divulgados mais detalhes sobre a “operação realizada em coordenação com as forças de segurança norte-americanas”

2.

A alta representante para a Política Externa e Segurança da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou, este sábado, que a União Europeia está a monitorizar de perto a situação e apela à “moderação” para garantir a segurança dos cidadãos europeus na Venezuela.

Kallas, que terá falado com Marco Rubio sobre a situação na Venezuela, apela ainda a que se respeitem os princípios da lei internacional e da Carta das Nações Unidas. De acordo com a Reuters, a alta representante europeia lembrou ainda que o bloco não reconhece legitimidade a Nicolas Maduro enquanto líder da Venezuela, mas que defendeu sempre uma transição pacífica.

O senador republicano Mike Lee disse, este sábado, que o Secretário de Estado, Marco Rubio, lhe disse que Nicolas Maduro, detido por forças norte-americanas, poderia vir a ser julgado nos EUA.»

3.

A OPINIÃO DE PEDRO PONTE E SOUSA

«Trata-se de uma agressão, ao arrepio do Direito Internacional. O crime de agressão internacional, pelo uso da força, pela sua gravidade e dimensão, é uma violação manifesta da soberania da Venezuela e à da Carta das Nações Unidas. 
Não há qualquer justificação plausível para esta gravíssima acção ilegítima. O uso da força está proibido nas relações internacionais, excepto em casos muito bem definidos, que este não constitui.

A Venezuela não é um actor significativo no narcotráfico, nem na produção nem na distribuição pelo continente americano, ou na sua facilitação para chegada aos EUA, pelo que a justificação americana é falsa. Assim como a Venezuela não é uma ameaça à paz e segurança internacional, nem a qualidade da democracia da Venezuela é uma causa relevante para o ataque em causa - até porque muitos dos aliados, tradicionais dos EUA, e dos mais próximos da Administração Trump, não têm uma maior qualidade da democracia do que a Venezuela. 

O principal motivo é a mudança de regime, a instalação de um governo fantoche próximo aos interesses dos EUA, nomeadamente procurando uma maior presença das empresas americanas nos sectores do petróleo, gás, e outros minerais. A motivo ideológico também está presente na Administração Trump, com o propósito de eliminar um governo socialista, desalinhado da estratégia dos EUA para a região, de um quintal que alinhe automaticamente com os interesses americanos. 

Trump apenas aprofunda algo que tem sido política externa dos EUA por séculos: o direito internacional deve ser promovido apenas quando corresponda aos nossos interesses e objectivos. Quando outros o desrespeitam, são alvos legítimos da nossa acção; quando nós o fazemos, o direito internacional é irrelevante, e pode e deve ser evitado para salvaguardar outros objectivos, do interesse nacional, frequentemente mascarados com propósitos humanitários, democráticos, ou da liberdade.»

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Sentir saudades?

O poeta Zé Gomes Ferreira amiúde dizia: «saudades. Só do futuro!»

Mas não há começo de ano que não se lembre do Eduardo Guerra Carneiro e do seu último itinerário.

Há 22 anos, corriam as primeiras horas de um novo ano, quando o poeta e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, envolvido por uma imensa amargura, cansado de muita coisa, cansado de estar por aqui, se mandou da janela para o pátio da casa onde vivia em Lisboa. A notícia quase foi isso.

Baptista-Bastos, recordando o amigo e camarada de profissão, titulou um artigo no Público : «O poeta que se atirou para o céu».

Eduardo Guerra Carneiro deixou passar o Natal, sabe-se lá porquê, para se suicidar.

Era previsível, disseram os amigos que lhe eram chegados. Parecia ser esse o caminho por ele traçado, depois de uma filha ter morrido.
A pouco e pouco foi dizendo «escrevo com medo de ser tarde».
Marilyn Monroe, actriz que ele muito venerava e amava, também ela um dia deixou escrito, ou num dia qualquer, com alguém desabafou: «É Natal! Quem tenho? Ninguém! Para que preciso de viver?»

Sempre gostou muito do Eduardo Guerra Carneiro. Ao longo destes anos em que nos deixou, aos seus livros tem recorrido e pena tem que tão poucos o conheçam: «vivia dos cafés e das conversas, de uma poesia lírica feita na continuação do mesmo gesto imparável de viver, vivia de um desarrumada ligação entre a vida e letras, letras e tinta, rotativas e provas. E a sua morte escolhida prolonga a sua arte, ele tantas vezes abandonado a si mesmo, indefeso, estóico, solitário, libertário e tímido, rapaz para sempere de província apostrofando a desordem da cidade», escreveu Jorge Sila Melo.

Em 1970 publicou um livro a que chamou Isto Anda Tudo Ligado. E deste título se passou a fazer remate para conversas e prosas. Sim, isto anda tudo ligado, como dizia o poeta.

«Foi então que o barulho das luzes começou a sentir-se.
Foi então que o barulho das luzes começou a crescer.
Foi então que o barulho das luzes começou a entusiasmar.
Qual a cor das luzes do futuro?»


No seu livro O Revólver do Repórter deixou escrito:

«Abro as janelas para o rio, meto o papel na máquina, acendo um cigarro e penso: “Que grande solidão!”»

GATO

Chama-se Luís o gato do terceiro

e é companheiro de um mestre filósofo.

Em madrugadas altas há por vezes sobressalto,

quando o bichano acorda mal disposto.

O professor, sábio também

em jogos de paciência, acalma

o animal e já o mima. Trata-se,

vendo bem, de outra ciência,

tão difícil de conseguir como

um estudo de Pessoa. Chama-se Agostinho

da Silva, o do terceiro, e tem um gato

com quem, à vontade, discreteia.

Luís, discípulo, ronrona baixinho.

Tudo vai bem, assim, no sete desta rua.

 

Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

REOLHARES


 ATRÁS DE COPO, COPO VEM

Quando Ricardo Reis desceu para jantar, já perto das nove horas, conforme a si mesmo havia prometido, encontrou a sala deserta, os criados a conversarem a um canto, finalmente apareceu Salvador, mexeram-se os serventuários um pouco, é o que devemos fazer sempre que nos apareça o superior hierárquico, basta, por exemplo, descansar o corpo sobre a perna direita se antes sobre a esquerda repousava, muitas vezes não é preciso mais, ou nem tanto, E jantar, pode-se, perguntou hesitante o hóspede, claro que sim, para isso ali estavam, e também Salvador para dizer que não se admirasse o senhor doutor, na passagem do ano tinham em geral poucos clientes, e os que havia jantavam fora, é o réveillon, ou révelion, que foi a palavra, dantes dava-se aqui no hotel a festa, mas os proprietários acharam que as despesas eram grandes, desorganizava-se o serviço, uma trabalheira, sem falar nos estragos causados pela alegria dos hóspedes, sabe-se como as coisas acontecem, atrás de copo, copo vem, às tantas as pessoas não se entendem, e depois era o barulho, a agitação, as queixas dos que não tinham alegria para festas, que sempre os há, Enfim, acabámos com o révelion, mas tenho pena, confesso, era uma noite bonita, dava ao hotel uma reputação fina e moderna, agora é o que se está vendo, este deserto, Deixe lá, vai mais cedo para a cama, consolou Ricardo Reis, e Salvador respondeu que não, que sempre ouvia as badaladas da meia-noite em casa, era uma tradição da família, comiam doze passas de uva, uma a cada badalada, ouvira dizer que dava sorte para o ano seguinte, no estrangeiro usa-se muito, São países ricos, e a si, acha que lhe dá realmente sorte, Não sei, não posso comparar, se calhar corria-me pior o ano se não as comesse, assim seria, por estas e outras é que quem não tem Deus procura deuses, quem deuses abandonou a Deus inventa, um dia nos livraremos deste e daqueles, Tenho as minhas dúvidas, aparte que alguém lançou, ou antes ou depois, mas não aqui, que não se tomam tais liberdades com os dignos hóspedes.

(…)

Ricardo Reis sobe devagar a escada, cansado, parece a personagem daquelas rábulas de revista ou dos desenhos alusivos à época, ano velho carregado de cãs e de rugas, já com a ampulheta vazia, sumindo-se na treva profunda do tempo passado, enquanto o ano novo se aproxima num raio de luz, gordinho como os meninos da farinha lacto-búlgara, e dizendo, em infantil toada, como se nos convidasse para a dança das horas, Sou o ano de mil novecentos e trinta e seis, venham ser felizes comigo. Entra no quarto e senta-se, tem a cama aberta, água renovada na garrafa para as securas nocturnas, os chinelos sobre o tapete, alguém está velando por mim, anjo bom, obrigado. Na rua passa uma algazarra de latas, já deram as onze horas, e é então que Ricardo Reis se levanta bruscamente, quase violento, Que estou eu para aqui a fazer, toda a gente a festejar e a divertir-se, em suas casas, nas ruas, nos bailes, nos teatros e nos cinemas, nos casinos, nos cabarés, ao menos que eu vá ao Rossio ver o relógio da estação central, o olho da tempo, o ciclope que não atira com penedos mas com minutos e segundos, tão ásperos e pesados como eles, e que eu tenho de ir aguentando, como aguentamos todos nós, até que um último e todos somados me rebentem com as tábuas do barco, mas assim não, a olhar para o relógio, aqui, aqui sentado, sobre mim próprio dobrado, aqui sentado, e, tendo rematado o solilóquio, vestiu a gabardina, pôs o chapéu, deitou mão ao guarda-chuva, enérgico, um homem é logo outro homem quando toma uma decisão.

José Saramago em OAno da Morte de Ricardo Reis

Texto publicado em 30 de Março de 2018

CONVERSANDO


Migalhas para um novo ano:

O aroma inconfundível de um bom vinho tinto, o cheiro a leite-creme acabado de queimar, o cheiro a café.

1.

«Tentei ligar um percurso através dos salpicos ténues na neve, mas continuavam a surgir dispersos e quando abri  os olhos já estavam totalmente dissipados. Tateei à procura do comando da televisão e liguei-a, tendo o cuidado de evitar os balanços relativos ao ano anterior ou as perspectivas para o Ano Novo. A surdina aconchegante de uma maratona de episódiso da série Lei e Ordem era exactamente o que eu precisava. O detetive Lennie Brisoe tinha obviamente recomeçado a beber e fitava o fundo de um copo de uísque de terceira categoria. Levantei-me, deitei um pouco de mescal num pequeno copo de água e sentei-me à beira da cama a bebê-lo ao mesmo tempo que ele, observando num silêncio entorpecido mais uma repetição de outra repetição. Faço um brinde ao Ano Novo, mas é um brinde a coisa nenhuma.

Imaginei o meu casaco preto a vir bater-me no ombro.

- Desculpa, velho amigo – disse eu -, mas andei mesmo à tua procura, sabes’

Chamei mas não ouvi resposta; cumprimentos de onda desnivelados diminuíram qualquer esperança de averiguar o seu paradeiro. É assim que acontece com o chamamento e a capacidade de ouvir. Abraão ouviu o chamamento de Deus. Jane Eyre ouviu os gritos suplicantes de Mr. Rochester. Mas eu estava surda em relação ao meu casaco.»

Patti Smith em M Train.

2.

Primeiros anos da década de 60.

 Os tempos não eram fáceis.

No jantar do Dia de Natal e do Dia de Ano Novo, comia-se perú assado no forno.

Uns dias antes do Natal, ia com o meu pai ao Lavradio buscar dois perús, que tinham vindo do Alentejo, criados a bolota e tudo o que há (ou havia) nos montados alentejanos.

 Na Estação Sul e Sueste apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda a vapor.

 Depois a camioneta do José Cândido Belo para o Lavradio, onde vivia um tio que trabalhava na CUF.

 Mais de meio-dia de viagens, acreditem.

 Os perús vinham, vivos, em dois cestos de verga.

 O do Natal era logo embebedado com bagaço, depois temperado pela minha avó materna.

 O do Ano Novo ficava dentro do tanque de lavar a roupa, ia comendo uma mistura de pedacinhos de couve e milho, e a aguardar a bebedeira antes de entrar no forno.

Éramos tantos à mesa, tanta gente morta, agora...

3.

Carruagem do Metropolitano entre a Alameda e as Olaias, uma moça, em conversa ao telemóvel – bem alto para toda a carruagem ouvir:

- O que te digo é que este ano foi péssimo, mas o próximo vai ser muito pior!...

- ?

- É como te digo…

- ?...

- Janto e enfio-me na cama, não quero saber de mais nada…

4.

Este ano, vindas não sei de onde, as cerejas estavam a 18 euros o quilo.

De uma tisana de Ana Hatherly:

«Quando eu era criança do que eu mais gostava era de cerejas».

5.

Vergílio Ferreira, no findar de 1978:

«Estava eu a querer saber o que vou fazer este ano. Não sei.»

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Se viram um amável filme do norte-americano Rob Reiner, com Meg Ryan e Billy Cristal, «When Harry Meet Sally», que, parvamente, em português se chamou, Um Amor Inevitável, o tal filme em que a Meg Ryan simula um orgasmo em pleno snack e, finda a performance, a cliente da mesa ao lado, que esperava para fazer o seu pedido, volta-se para o empregado e diz: «quero o mesmo que aquela senhora», e certamente lembrar-se-ão que quase no final do filme, quando, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de Auld Lang Syne, e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los mas como recordar se já os esquecemos? Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: “seja o que for é uma canção sobre velhas amizades”.

Chegamos a bom porto: velhas amizades, lembrar os que já não estão connosco, com os que estão, os que ainda fazem do Natal a festa dos amigos, celebrar a amizade, sempre, enquanto não chega a hora do adeus.

É isso!

Ao mesmo tempo lembrar a velha tia, que repetia sempre os mesmos votos de Ano Novo: «não se pede grande coisa: trabalho e saúde...» e sabendo que o meu cachimbo está apagado, o meu copo vazio, ouvir aquela canção celta:

«Que a estrada se abra à tua frente,
Que o vento sopre levemente nas tuas costas,
Que o sol brilhe morno e suave na tua face,
Que a chuva caia de mansinho nos teus campos.

Ou aqueles versos de um poema do Jorge de Sena:

 «Já tudo escureceu;

contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.» 



SÍTIOS POR ONDE ELES ANDARAM

Sim, quantas vezes eles andaram naquele Elevador, mais subidas que descidas.

Não conseguem, agora, saber a data em que a fotografia do Elevador da Glória, com o assador das castanhas em fundo, foi tirada.

Dado o fumo das castanhas, talvez um tempo outonal/invernoso.

Mas foi a 3 de Setembro que a tragédia se abateu sobre o velho Elevador da Glória.

«Foi numa quarta-feira, a 3 de Setembro, com o país regressado de férias, mas com Lisboa ainda repleta de veraneantes, que o elevador da Glória salta para as páginas dos jornais de todo o mundo. Aquilo que era para ser mais uma das 87 viagens diárias de rotina do elevador mais conhecido de Lisboa, acaba em tragédia quando um dos dois veículos se desliga do cabo que o sustentava (e rebocava) e corre desgovernado pela Calçada da Glória abaixo embatendo numa esquina e em dois postes de electricidade, provocando a morte de 16 pessoas.

As ondas de choque deste acidente dominariam as notícias e a vida política do país durante semanas. O elevador da Glória transportava 3 milhões de passageiros por ano, na sua maioria estrangeiros e era um ícone da capital portuguesa. Num país europeu, considerado seguro, não era suposto que o cabo de um equipamento tão importante se desligasse do veículo e o deixasse à solta, fora dos carris, sem outra redundância eficaz para o fazer parar.»

Quanto às indemnizações, a que todas as vítimas da tragédia têm direito, deverão decorrer ainda muitos anos para que isso venha a acontecer, uma lonjura de tempo em que as companhias de seguros são exímios mestres.


A GATA E BEETHOVEN

Entrada a noite,

a gata Electra

esquece vinganças

se senta-se

ao meu lado.

Ouvimos os trios de cordas.

eu bebo whisky,

a bem da morte sóbria

ou, pelo menos,

de um sono conforme;

a vida patece suave,

a pulsação

quase perfeita

e gata pensa

que não há direito

que alguém sofra.

 

José Alberto Oliveira

ELEVADOR DA GLÓRIA

Na mais profunda das confusões
Nas vozes alteradas dos turistas
A pedirem desculpa dos empurrões
Aos vulgares passageiros, aos jornalistas

A quem todos os dias te percorre
Quase sem dar pelo ângulo da subida
E em cada viagem também morre
Ou (pelo menos) deixa um pouco de vida

Às crianças com três anos de idade
Na voz hesitante dos seus pais
Perdida entre o apelo da verdade
E os gostos da poupança, naturais

A todos que comigo viajaram
E posso ter como testemunhas
E este fado comigo cantaram
Numa guitarra velha como as unhas

A todos direi; tomem nota por favor:
não há lugares sentados neste elevador.

José do Carmo Francisco em Transporte Sentimental

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

REOLHARES


QUOTIDIANOS


Pedro Neves pôs o candeeiro de petróleo em cima duma cadeira poeirenta. Emagrecer, o rosto parecia alongar-se na sombra projectada na parede branca. Reprimiu um gesto, talvez uma palavra.

- Comprendo. Exponha-se o menos possível, peço-lhe. Se ninguém vem aqui…

- Não, ninguém. Só eu.

- … o esconderijo parece seguro. Mas são só dois dias, o máximo três.

Apertaram as mãos com muita força. Antes de fechar a porta, Judite voltou-se para ele.

- Que cigarros fuma?

-  Unic.

- Tem graça, são os do meu pai, Trago-os amanhã.

E sorriu.

 

Álvaro Guerra em Café República

O meu pai também fumava cigarros Unic, tabaco negro. Três maços por dia, cigarros que o ajudaram a viver e acabaram por o matar.

Legenda: imagem tirada de Tododcoleccion

 

Texto publicado em 11 de Junho de 2018

MÚSICA PELA MANHÃ

Se ainda andasse por aqui, a bebericar litradas de Whisky Johnny Walker, rótulo preto, a unicar três maços de tabaco negro por dia, o meu pai faria 113 anos.

Era miúdo, teria uns 8 anos, lembro-me de ele ter chegado a casa com um disco de 78rpm do trompetista Eddie Calvert a tocar uma velha canção «Oh, My Papa». 

Ele adorava esta canção e quando fazia anos, gostava de a por a tocar. 

O disco partiu-se e, alguns anos antes de nos deixar, consegui encontrar na Feira da Ladra, um EP do Eddie Calvert. O disco terá pertencido a alguém chamado Ilda, que lhe terá sido oferecido em 21 de Fevereiro de 1964, mas as coisas não terão corrido bem, riscou a dedicatória e, por tuta e meia, vendeu o disco.

O meu pai, o melhor ouvinte e conversador que tive, e lembro as noites de Verão-de-micro-clima, em Almoçageme, numa velha casa alugada, sentados no alpendre a ouvir o silêncio, ao longe a ronca do Cabo da Roca, ele a beber o seu whisky, eu a beber o meu gin-tonic.



BUCÓLICA

A vida é feita de nadas:

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;


De casas de moradia

Caídas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;


De poeira;

De sombra de uma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma Mãe que faz a trança à filha.


Miguel Torga

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

«Sempre tinham dormido juntos. Em quartos de hotel, em cabanas perto do mar, em comboios que atravessavam noites sem fim.»

Ana Teresa Pereira 

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Poderiam os livros, um dia, terem bola vermelha como alguns filmes que passam na televisão?

Claro que não!

Mas, se assim fosse, é o que aconteceria a este livro de Jorge de Sena.

É um livro extraordinário, como extraordinária é toda a obra de Jorge de Sena.

Tal como avisa Mécia de Sena na Nota Prévia sobre o livro:

«Decidi que não desvendaria o nome das pessoas que os poemas não mencionam. Aqueles que viveram esses tempos sabem muito bem quem o maltratou e como e onde; os outros que busquem nos jornais, nas revistas, nas cartas, nas publicações que organizou, está lá tudo e fácil de deduzir.»

A justiça de se dizer que Mécia de Sena, durante toda a sua vida, exerceu um trabalho extraordinário para que a obra de Jorge de Sena fosse conhecida em todo o seu esplendor.

Para além das Dedicácias, este livro inclui o Discurso que Sena escreveu para as comemorações, em 1975, do Dia de Camões, o mais notável discurso de todos os que, até agora, foram feitos para assinalar a data.

Copio da badana do livro:

«Portugal não soube conceder-lhe em vida a consagração que a sua obra merecia.»

OLHAR AS CAPAS


 Dedicácias

Seguido de Discurso da Guarda

Jorge de Sena

Nota Prévia de Mécia de Sena

Guerra e Paz Editores, Lisboa, Março de 2010

 

A César o que é e César

 

Se se tem génio, quanto a gente diga

é pretexto para ser-se desprezado:

que mau é tudo (embora sirva sempre

para todos fazerem disso o melhor de si mesmos).

Se se é medíocre e para mais dotado

de partes baixas de que os outros possam servir-se

por procuração (e em Portugal toda a gente sonha

com dar o cu dos outros como se fora o próprio),

tudo é pretexto para ser-se admirado,

respeitado, amado em poluções nocturnas,

e quanto se diga – ou mesmo se não diga –

é maravilhoso até por não dar sombra.

Nem vale a pena pensar duas vezes

e acabar este poema que sei – sem dúvida –

ai muito mau, não é verdade, amigos?

 

                  LONDRES, 5 de Fevereiro de 1973

PÓLO OPOSTO

Surda languidez ao pé das palmeiras


Hoje seria Natal exactamente Natal

A ramagem e o fruto graxo sobre o galho

verdejam

exércitos de insectos zunem em círculos eternos

 

Surda languidez ao pé das palmeiras

o leque de sombras da floresta

assusta a ave-do-paraíso

 

Penso na pátria e pensativo fito o chão

se a terra fosse transparente

daqui poderia enxergar debaixo de todas as saias da Europa

 

Pés brilham e deslizam entre babados

como as dançarinas

de Paris em passos rápidos sobre folhas de espelho

 

Penso em seus ombros nos ombros apenas

nos olhos nos lábios nos cabelos

e nos seios principalmente nos seios

 

Quantas amei quantas belas e brancas

chuva de rosas dos meus pés à cabeça

Uma única mulher negra me pertenceu


Surda languidez ao pé das palmeiras

Caminho aqui de cabeça para baixo

como se andasse sobre o tecto


Abaixo de mim profundeza brilha a voragem celeste

caminho feito Cristo vergado debaixo do Cruzeiro do Sul


Do outro lado do mundo os homens

correm correm ao avesso

Só fico pensando em seus sapatos de sola furada


Seus pequenos passos de criança

em jardins furta-cor

lançam folhagem sangrenta para baixo


A terra dos checos estende-se na outra parte do mundo

terra exótica e estranha

com rios profundos e fabulosos

pode-se atravessá-los de pés secos no dia onomástico de Jesus

temos outono inverno verão e primavera


As pessoas usam sobretudo gravatas

e bengalas

talvez esteja nevando agora

talvez a cerejeira esteja em flor


Amoras abundantes estão crescendo

E há água potável fresca

 

Konstantin Biebl em Rosa do Mundo

domingo, 28 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Dizem que os tempos mudam… dizem…

Avenida da Liberdade em Lisboa.

Por acaso perto de uma empresa chamada "Feelslikehome" (sinto-me em casa) que se dedica ao chamado "Alojamento Local"

Texto e fotografia de Rui Ornelas

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO



 Carlos Moedas garantiu que, após as últimas eleições autárquicas, tinha todas as condições de, neste novo mandato, produzir um excelente trabalho, um trabalho diferente.

Como não tinha a maioria, pediu ajuda à rapaziada «daquela coisa».

Tempo de Natal.

O lixo da cidade não foi recolhido.

Amontuou-se por todos os passeios, por todos os cantos das ruas de Lisboa.

No pequeno passeio que dei pelo bairro, em busca dos panos vermelhos estampados de Meninos Jesus, encontrei montanhas de lixo encontradas na Rua Carvalho Araújo.

Foi muito mau o trabalho de Carlos Moedas nos últimos quatro anos de mandato, pela amostra junta, promete ser muito pior nos anos que se vão seguir.

Terá que se agradecer aos votantes no Carlos Moedas.

É o destino dos povos: não saberem aprender com experiências vividas!

1.

Comboio regional atropelou e matou 100 ovelhas em Montemor-o-Velho
Um comboio regional de ligação entre Coimbra-B e as Caldas da Rainha atropelou um rebanho de ovelhas e matou cerca de 100 animais neste domingo de manhã. O incidente ocorreu no ramal de Alfarelos, em Montemor-o-Velho, disse fonte dos bombeiros.

Não é conhecido o montante dos prejuízos.

2.

Equipa presidida por Cristina Tomé no Metro de Lisboa passa a ter vencimentos alinhados com os do primeiro-ministro e da CP, e não com o Metro do Porto, após reclassificação feita pelo Governo.

3.

O número de pessoas sem-abrigo em Portugal já ultrapassa os 14 mil, o que significa um crescimento de 10% num ano e a maioria são homens, de nacionalidade portuguesa, entre os 45 e 64 anos.

4.

«Vivemos num tempo curioso: nunca tivemos tanto e, ainda assim, raramente celebramos o que temos. Pelo contrário, habituámo-nos a um discurso permanente de queixa, a uma espécie de vórtice negativo onde tudo é insuficiente, tudo falha, tudo decepciona. Diminuímos conquistas, relativizamos direitos, desvalorizamos o que foi ganho com esforço colectivo. A insatisfação tornou-se um hábito, quase uma identidade e, ao contrário de outros estados de alma, não parece ter cura, porque se alimenta de si própria.

Queixar-se passou a ser um gesto automático, socialmente aceite, até incentivado. É mais fácil denunciar do que reconhecer, mais cómodo destruir do que cuidar, mais sofisticado parecer desencantado do que assumir alegria. Mas este estado permanente de mal-estar tem custos: corrói relações, normaliza ambientes de trabalho indignos, legitima pressões que ultrapassam a decência e cria uma toxicidade quotidiana que se infiltra em tudo.

Talvez esteja na altura de mudarmos o foco. Não por ingenuidade, não por negação da realidade, mas por lucidez. Celebrar o que temos não é desistir de exigir mais; é reconhecer o caminho feito para poder avançar com mais força. Celebrar a vida, o trabalho digno, os afectos, o espaço comum, é um acto de responsabilidade cívica.»

Patrícia Reis no Diário de Notícias

5.

Segundo o Banco de Portugal a entrada de trabalhadores imigrantes em Portugal caiu 40% na segunda metade de 2024,  depois dos máximos atingidos em 2023, as inscrições na Segurança Social passaram de cerca de 20 mil por mês para 12 mil e entre janeiro e outubro deste ano os imigrantes em Portugal pagaram 3,1 mil milhões à Segurança Social, o quíntuplo do que receberam em apoios.

6.

«No espaço de um ano, apenas no dia do apagão geral da Península Ibérica, a 28 de Abril, e na véspera de Natal de há um ano, a 24 de Dezembro de 2024, Portugal experienciou quebras da actividade económica mais relevantes do que a sentida a 11 de Dezembro de 2025, dia da greve geral que uniu centrais intersindicais contra a reforma do pacote laboral e que o Governo considerou ter tido uma adesão “inexpressiva” nos sectores privado e social.

Público, 19 de Dezembro de 2025.

BRIGITTE BARDOT (1934-2025)


Morreu Brigitte Bardot.

Tinha 95 anos.

Um leitor do Público, ao ler o óbito que Vasco da Câmara fez para o jornal, indignou-se:

«Esta sim, é uma verdadeira notícia falsa. A fake new completa, acabada e indecente. Não posso deixar de manifestar a minha indignação a quem ande a espalhar estas notícias, sem a mínima aderência à realidade. BRIGITTE BARDOT não morreu pela simples razão que "a mulher" nunca morrerá, que "a beleza" é eterna e o sonho do homem não tem fim.».

Ainda no dia 29 de Julho A Lupa lembrava a moça e também uma canção do Zeca Baleiro que diz:

«A saudade

É brigitte bardot

Acenando com a mão

Num filme muito antigo.»

MÚSICA PELA MANHÃ


Os perto de quarenta anos que trabalhou em shipping, deu-lhe para conhecer centenas de agentes, principalmente na Europa. Quando visitavam Lisboa levava-os aos locais obrigatórios e caprichava por outros, os que não estão nos roteiros. Quando os visitava, eles faziam o mesmo, só que não caprichavam.

Dzintra Vilane, responsável pelo Departamento de Contentores da Latvian Shipping Company, dizia-lhe que quase conhecia meio mundo, mas que Lisboa se lhe afigurava das cidades mais difíceis de catalogar. Um gosto estranho que não sabia explicar, uma paixão de envolvimento fácil. 

Quando o visitava dizia-lhe: poupa-me pormenores e leva-me ao British Bar.

O British Bar foi um local em que ele caprichara. Conhecia alguns bares mas o British era aquele bar, tempo de longas conversas com quem ia aparecendo.

Certa vez Dzintra disse-lhe, que se ela mandasse colocava Strangers In the Night como audição obrigatória, e consequente aprendizagem e estudo em todas as escolas.

Achou a ideia bizarra, um exagero, mas a tarde corria mansa, relaxante, o gin estava a saber-lhe às mil maravilhas, e não quis estragar tudo isso com uma discussão que, inevitavelmente, conduziria a nada. Até porque Strangers in the night, diga-se it’s not your cup of tea, gosta de Sinatra mas prefere-o noutras canções, e de imediato trauteia Love’s been good to me, canção mesmo canção, mas que poucos referem, ou então aquelas canções, de início de carreira, cheias de swing, quando Sinatra era solista de big bands , como a de Tommy Dorsey, um Sinatra com cara de miúdo e de lacinho.

Lembrou-se de tudo isto porque há dias, leu o pedaço de uma muito antiga entrevista de Gore Vidal, em que a determinada altura ele dizia que metade da actual população norte-americana deve ter sido concebida com um disco de Frank Sinatra a fazer de música de fundo.

Possivelmente quando mandar à Dzintra as saudações do Ano Novo, ela não quer saber do Natal para nada, mas o começo do novo ano, sim, é mesmo uma grande festa, dir-lhe-á desta ideia do Gore Vidal, lembrar-lhe-á a conversa sobre Strangers in The Night e enquanto escreve o postal beberá um grande gin e irá verificar que o tempo andou terrível e inexorável- mente muito depressa.

Saudades?

Não, antes recordações, um mar enorme, onde cada sussurro tem a beleza de um silêncio que se repete até mais não o ouvir.


sábado, 27 de dezembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Por este andar, não tardará muito que já nem se saberá por que razão celebramos o Natal. Teremos as ruas iluminadas e o corpo de Deus às escuras.

Frei Bento Domingues 

Legenda: imagem tirada do site da Câmara Municipal de Lisboa.

OLHAR AS CAPAS

Para os Caminhantes Tudo é Caminho

José Tolentino Mendonça

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Novembro de 2025

Chegará o momento em que compreenderemos que sabedoria é amar tudo. É saudar os dias sem esquecer a importância das horas; contemplar as grandes torrentes sem deixar de agradecer cada gota de orvalho; estimar o pão sem, no entanto, esquecer o sabor das migalhas. Chegará a ocasião de compreender que o importante não é só contar a viagem, mas testemunhar também o contributo dos passos; elogiar não só a meta, mas a lição de cada etapa, sobretudo quando chegámos a duvidar que o caminho conduzisse a alguma parte. Chegará o tempo em que nos reconheceremos saciados tanto pela frescura da fonte, como pela sede; iluminados pela experiência dos encontros, mas também pelo ensurdecedor vazio de certas esperas; maravilhados, de igual maneira, com o alforge repleto e as mãos sem nada. Chegará a altura de recomendarmos ao nosso coração que abrace, com idêntico amor, as estações prometedoras e as dececionantes; a clarividência do discernimento e a prévia confusão dos nossos impasses; a beleza inaugural da aurora e as feridas sem resposta que nos rasgam ao aço do crepúsculo. Chegará a idade em que escutaremos com a mesma naturalidade a passagem de Deus no ondeado da palavra e no atonal silêncio; em que O reconheceremos com nitidez na inteireza e na vida dispersa que se quebra; em que sentiremos a Sua vizinhança no máximo da consolação e no extremo da nudez; no abrigo do jardim e nos desamparos onde nos perdemos.
 

OLHARES

Há uns anos, assistimos  à quase loucura, de pais natal de plástico a treparem janelas e varandas.

Generalizaram-se e constituíram um belo negócio para os chineses.

Por cansaço, o que quer que seja, já quase desapareceram.

Depois apareceu uma ideia, importada de Espanha, estandartes de pano vermelho com um Menino Jesus desenhado, objectivo maior para devolver, aos católicos, o verdadeiro espírito natalício combate árduo contra o pagão e barbudo Pai Natal que tem a péssima mania, de, por outros vícios, publicitar a Coca-Cola.

A Igreja Católica despertava para uma realidade que lhe passou ao lado, como, aliás, quase tudo o que vai acontecendo no mundo novo. Desesperadamente, tentaram combater as renas, os trenós, um certo paganismo, dizem, que se apropriou do Natal. E tentaram recuperar os símbolos cristãos do espírito natalício.

Não chegaram a tempo.

Um breve passeio pelas ruas do bairro, e o bairro é grandinho, deu para encontrar um único desses católicos panos de menino exposto e que se vê no topo do texto.

Sim, o Pai Natal é de um outro campeonato!

MÚSICA PELA MANHÃ


Pode uma canção que se chama First of May ser uma canção de Natal?

Pode e deve.

Mas não perguntem o porquê.

É uma canção dos Bee-Gees que faz parte do duplo álbum Odessa de 1969.

Quando eram pequenos e as árvores de Natal eram altas, foram-se amando, o tempo a passar até ao tempo em que eles eram altos e as árvores de Natal pequenas.

Falando de amores e canções de Natal, lembrar que Mário-Henrique Leiria gostava do Natal, mas um dia deu-lhe a louca de casar com uma alemã que o tratou pessimamente.

Divórcio em trânsito e Mário escreve:

«Falando de discos, vão para um teatro para crianças que se está organizando, segundo penso. E também empréstimo. Comigo, levo apenas quatro ou cinco de música russa e os dois de jazz que a Dietlinde me ofereceu uma vez… (Sou tão romântico que até gosto de conservar recordações. Que bom!) Deixo cá todos os que suponho que ela gostava: Bach, Mozart, Beethoven, canções de Natal, canções alemãs e, evidentemente os discos de música brasileira que caí na arara de comprar.».

Mário Henrique-Leiria escreve a Maria Isabel, advogada da mulher alemã que pretendia o divórcio. As cartas constam de Depoimentos Escritos, um livro apaixonante, apaixonado desse louco genial que, para além do mais, me entranhou, ainda mais, o gosto pelo gin, ao ponto de, num tempo longínquo, já não saber a quantas andava… quem era...
Pois, a Dietlinde acabou por ficar com os discos de Natal do Mário. Muitas outras coisas. Algumas irreversíveis. O que depois se sabe, pela leitura do livro, é que o Mário-Henrique Leiria apaixona-se, loucamente, pela advogada da mulher. Outro grande amor das muitas suas vidas que acabarão por contribuir para o fim da sua atormentada, mas bem gozada, vida.
«Agora tenho que sair. A carta acaba aqui. Vou tentar angariar subsistência, que eu, às vezes, até tenho o vício de comer… calcula, vícios burgueses…
Abraço grande, saudade enorme de tudo que tu és.
Mário-Henrique
Merry Xmas and Very, very Happy New Year for both.»

O Mário gostava do Natal, de canções de Natal.

Eu também.

Gosto também deste First of May dos Bee-Gees que, digam lá o que disserem, pode ser uma canção de Natal. Outra canção de Natal.


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

SEGUIMOS NOS SEU CARRIS


«Alguém sai numa estação de comboio enquanto os passageiros continuam a sua viagem: esta pode ser uma imagem da morte. O temo como o vivemos, não permite outras dimensões, seguimos nos seus carris, no seu caminho-de-ferro, até a morte nos deixar num apeadeiro qualquer.»

Afonso Cruz em O Que a Chama Iluminou.