quarta-feira, 30 de abril de 2014

QUE PARVA QUE EU SOU!


Porque há sempre alguém que semeia canções no vento que passa ou porque o poeta Raul de Carvalho escreveu que o canto é o meu pão, por aqui foram ficando algumas canções de luta.
Hoje, que se fecham os taipais de evocações dum certo nosso tempo, procurou-se uma canção que, de algum modo, trouxesse uma imagem do que são os dias que hoje atravessamos.
A pesquisa não foi tarefa fácil mas a escolha recaiu  fez recair a escolha nesta canção dos Deolinda:

Sou da geração sem remuneração
E nem me incomoda esta condição.
Que parva que eu sou!
Porque isto está mal e vai continuar,
Já é uma sorte eu poder estagiar.
Que parva que eu sou!
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Que para ser escravo é preciso estudar.
Sou da geração 'casinha dos pais',
Se já tenho tudo, para quê querer mais?
Que parva que eu sou!
Filhos, marido, estou sempre a adiar
E ainda me falta o carro pagar,
Que parva que eu sou!
E fico a pensar
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar.

Sou da geração 'vou queixar-me para quê?'
Há alguém bem pior do que eu na tv.
Que parva que eu sou!
Sou da geração 'eu já não posso mais!'
Que esta situação dura há tempo demais
E parva não sou!
E fico a pensar,
Que mundo tão parvo
Onde para ser escravo é preciso estudar
.

AMANHÃ É DIA DE FESTA



30 de Abril de 1974


Foi há 40 anos.

Foi ontem.

Se quiser andar às voltas com a História, escolho este dia como a Hora H do arranque do 25 de Abril, o dia em que o livro de General António de Spínola,Portugal e o Futuro, apareceu nos escaparates das livrarias.

Para trás ficaram as muitas reuniões que os capitães foram realizando até chegarem à que aconteceu, 9 de Setembro de 1973, em Alcáçovas, onde é dada a picadela no elefante adormecido e fundado o Movimento dos Capitães.

A partir desse dia, e até hoje, fui deixando por aqui o dia-a-dia do estertor da ditadura que durante 48 anos nos oprimiu.
Servindo-me de memórias, de um limitado arquivo com recortes de jornais, fui juntando citações de alguns livros, a reprodução de algumas de canções que marcaram um tempo de luta.
Ficaram pedaços de 99 dias daqueles anos de 1974.
Para mais não deu o curto e medíocre engenho.

Sexto dia da nossa vida em liberdade.

Esta é a primeira página do República.
Constante das notícias deste dia, o regresso a Lisboa, vindo do exílio, de Álvaro Cunhal.
Nas páginas interiores podia ler-se que certa gente começava a deixar as garras de fora.



Na 1ª página de A Capital uma fotografia mostrava a ex-comissária da Mocidade Portuguesa Feminina a entregar a José Manuel Tengarrinha a chave das instalações onde passaria a ficar sediado o M.D.P:


Começavam a aparecer os primeiros desmentidos de pessoas que eram acusadas de terem sido informadores da PIDE-DGS.


O Diário de Lisboa informava que, por ser feriado nacional, no dia 1 não havia pão.


Na última página a notícia de que o pide Sachetti foi preso quando tentava passar a fronteira em Valença.
No Porto, um ex-pide suicidava-se.



Em todas os jornais podem ler-se chamadas de atenção para que, nas manifestações do 1º de Maio, o povo e os trabalhadores, tivessem cuidado com eventuais provocadores.
Esta veio publicada no Diário Popular:


Na véspera, na RTP, Sá Carneiro deu uma entrevista com um blá-blá-blá de que Mário Castrim não gostou muito, e escreveu:


Sim, amanhã é mesmo dia de festa.
Com ironia, Mário Viegas dirá que o 25 de Abril dele acabou no dia 2 de Maio.
Alguém, que não recordo agora o nome, disse que do 25 de Abril até ao 1º de Maio devo ter dormido, mas não me lembro. Na verdade, o dia mais longo da minha vida não foi bem um dia: começou naquelas horas vertiginosas do dia 25, até ao 1º de Maio, e que continuaram a sê-lo durante uns meses.
Por fim, uma outra citação anónima:
Quem não viveu, esqueceu ou renunciou às delícias das ilusões desses grandes dias nunca vai conhecer o exacto perfume das flores.

AUTOCOLANTES DE ABRIL


Eu nasci num país que ia do Minho a Timor. Agora estou na merda de um pátio que vai do Minho a Vila Real de Santo António.

Manuel Beça Múrias, um ultra-salazarista.

terça-feira, 29 de abril de 2014

À CONSIDERAÇÃO SUPERIOR


29 de Abril de 1974

O quinto dia da nossa vida em liberdade.

A importante notícia que percorre todos os jornais:
É instituído como feriado nacional obrigatório o dia um de maio, considerado o «Dia do Trabalhador.»
Por outro lado, continuam as manifestações, as reuniões políticas, a «caça ao pide.»
Na página desportiva do Diário de Lisboa, uma interessantíssima observação do jornalista Neves de Sousa e que constitui a abertura da sua crónica sobre o jogo entre o Sporting e o Belenenses para a Taça de Portugal.

Com tanto pide preso e barões e baronetes em fuga, gentes que tinham cartões de livre- trânsito para todos os jogos de futebol, não ocuparam os seus lugares…


O República chama para a 1ª página uma afirmação de Mário Soares na sua chegada a Lisboa.


Nas páginas interiores noticia que essa figura sinistra, que dá pelo nome de Capitão Maltês e era o comandante da Polícia de Choque, ainda andava fugido.


Quem quisesse sair do País só poderia levar um máximo de 50 contos.


Na última página ficava a saber-se que Henrique Tenreiro, ex-deputado e presidente da Junta Central da Legião Portuguesa, para além de outros títulos, apresentou-se, voluntariamente, à Junta de Salvação nacional

Também no República, uma notícia insólita: a administração dos TLP tenciona descontar aos trabalhadores o facto de não terem ido trabalhar no dia 25 de Abril.


Lembrei-me de uma curiosa história.
Numa data redonda de comemoração do 25 de Abril, o Diário de Notícias pediu aos seus leitores que, em cem palavras, escrevessem uma história sobre o 25 de Abril.

O leitor Joaquim Santos, de Póvoa de Santo Adrião esgalhou esta deliciosa história:


Na primeira página, A Capital dava conta da constituição do Movimento Democrático Português.
Para a Comissão Central Provisória, entre outros, foram votados Francisco Pereira de Moura, José Tengarrinha, Victor Wengorovius, Luís Moita, Henrique Neto.

OLHAR AS CAPAS


Os Memoráveis

Lídia Jorge
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2014

O cavaleiro fez um breve hiato no seu depoimento que tinha fatalmente de ser muito rápido, tendo em conta que não dispunha de mais do que de cinco minutos- Disse - «Ah! Deixem-me pensar. O momento mais importante?» El Campeador continuava a pensar - «Arnoldo, já lhe disse, segure bem esse animal. Pois eu estou aqui a pensar que o momento mais importante, aquele que mais esperanças me deu de que a revolução tinha pernas para andar, foi aquele que se seguiu à passagem do poder a um general que usava um caco de vidro no olho direito. Esse general, durante toda a noite e manhã do dia vinte e cinco, tinha ficado a fingir-se de morto, enfiado em casa, à espera do desenlace, para ver para onde caíam as cartas, mas duas horas depois de lhe termos passado o comando, ainda nem nos tinha visto o rosto, e logo ali começou a inaugurar o período do desmame revolucionário. O general fixava cada um de nós através daquela lente de vidro, como se a lente fosse um periscópio, e mandava apontar nomes e actos, dizendo que era sua intenção distribuir prebendas a quem tinha feito o golpe de Estado. Mas um de nós avançou e disse. Não queremos recompensa nenhuma. Não foi para isso, senhor general, que arriscámos as nossas vidas. Não queremos nada para nós. Este é um princípio sagrado. E tome cuidado connosco, general. Olhe que este dia ainda não terminou, a revolução ainda está na rua, os tanques ainda não regressaram aos quartéis, e os rapazes que têm as armas só vão precisar de dormir lá para o mês que vem. Falou assim quem estava ao meu lado. E pensando bem, esse foi o melhor momento daquela longa noite e daquele longo dia, aquele que justifica que amanhã eu possa dizer, durante as filmagens para O Herói do Mar, que passados trinta anos ainda existem tanques no meio da rua à espera do que possa acontecer. Basta um assobio no escuro, e zut…»

AUTOCOLANTES DE ABRIL


Gostaria de lembrar aquele oficial miliciano que, há 25 anos, também foi um doutor a falar de cima aos ignaros. Em Trás-os-Montes, subiu para um banco e perguntou ao povo: «Vocês sabem o que é o socialismo?» Uma velhota devolveu-lhe: «E vocemcê sabe o que é um engaço?».
Suspeito que o doutor já se tenha esquecido do socialismo mas ainda hoje a velhota, a ser viva, há-de saber o que é o engaço.

Em Diário de Notícias, Abril 1999.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

O CAMALEONISMO


O quarto dia da nossa vida em liberdade.

Barradas de Oliveira é demitido de director do jornal Época, que ontem não saíu para as bancas.
Depois de populares terem, anteontem, tentado destruir as instalações do jornal, que era um sustentáculo da ditadura, o Conselho de Redacção nomeou José Manuel Pintasilgo chefe de redacção de ex-Época, como director do jornal que passa, a partir de hoje, a publicar-se com o nome de A Época.
Esta é a capa do nº1 do ano I de A Época.
Começam a esboçar-se os primeiros sinais de camaleonismo.
Atente-se no final da sua declaração de princípios:

  
São manchete em todos os jornais a chegada a Lisboa de Mário Soares, bem como a recepção entusiástica que milhares de pessoas prestaram à sua chegada à estação de Santa Apolónia, no regresso do exílio em Paris.
Pela primeira vez os jornais dão conta da pretensão de o próximo 1º de Maio ser decretado feriado nacional. O pedido foi formulado pelo «leader» da C.D.E., prof. Francisco Pereira de Moura, durante a reunião de ontem com a Junta de Salvação nacional

O Diário Popular noticia que, num avião militar, partem amanhã, com destino ao Funchal a esposa e a filha do ex-presidente da República Américo Tomás.
Desde o dia 25, mais de um milhão de exemplares do Diário Popular têm sido disputados aos ardinas. Ontem, o jornal colocou três tiragens nas bancas.


Fotografia publicada na página 14 de A Capital que mostra o baptismo do novo nome da Ponte sobre o Tejo.
A acção foi levada a cabo por um movimento espontaneamente formado e denominado 1º Comité de Acção Popular.


Destaque na 1ª página de O Século para a prisão de Silva Pais, ex-director da PIDE-DGS.

O Diário de Lisboa reproduz na 1º página o «poster» da autoria de João Abel Manta que é apresentado nas páginas centrais.
Primavera? é o nome que o artista lhe deu que, por motivos demais conhecidos, há tempo não publicava qualquer trabalho no nosso jornal.


Mário Castrim dedica a sua crítica de televisão às imagens da libertação dos presos políticos em Caxias.
Este é o começo da crónica:

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


É preciso chegarmos a 28 de Abril de 1969 para voltarmos. a ouvir falar de Salazar e da sua doença.

A ocasião é a homenagem feita a Salazar por ocasião dos seus 80 anos.

O Notícias de Portugal escrevia:

Durante quase dez minutos o Presidente Salazar, de pé, encostado a uma das varandas da sua residência na Rua da Imprensa, à Estrela, agradeceu, profundamente comovido, os vibrantes e carinhosos aplausos da multidão que ali se deslocou para o felicitar pela passagem do seu 80º aniversário natalício.
Foi o primeiro aparecimento em público do Prof. Oliveira Salazar, após a grave e demorada doença que o acometeu em Setembro do ano passado. E mais uma vez os portugueses puderam testemunhar-lhe o quanto lhe está grata a Nação pela obra gigantesca que conseguiu realizar.

Pessoalmente, o venerando estadista quis, pessoalmente, através rádio e da televisão,
dirigir ao país palavras de agradecimento:

O número de pessoas que se interessaram pela minha saúde e vida quando gravemente comprometidas, comoveu-me profundamente.
É a primeira vez que me apresento em público e não podia deixar de ter no meu espírito todas essas manifestações de amizade, carinho e interesse, para lhes render o tributo da minha gratidão.
Deus foi infinitamente bom para com as nossas súplicas e demonstrações de aflição. Pedimos-Lhe que continue a proteger-nos.


O Notícias de Portugal referia ainda os milhares e milhares ramos de flores – ramos artisticamente armados, singelas rosas ou cravos, malmequeres, orquídeas, violetas, flores silvestres – que durante o dia foram chegando à residência, enviados por gente anónima e altas individualidades. Também telegramas do estrangeiro e de todo o Portugal europeu e ultramarino.

Às 12,15, na capela da residência, o cardeal patriarca Gonçalves Cerejeira celebrou missa pela continuação das melhoras do Presidente Salazar, tendo assistido ao acto os seus mais íntimos amigos e familiares.


O Chefe do Estado, ausente em visita ao Porto, enviou um cartão de felicitações. O mesmo fez o Presidente do Conselho, tal como os membros do governo.

Durante a tarde, Salazar recebeu ainda a visita de um grupo de crianças que lhe levaram um bolo com 80 velas e lhe cantaram os parabéns.

Até à sua morte, no dia 27 de Julho de 1970, o País continuará a assistir a esta rábula escrita, encenada e montada, pelos fiéis seguidores do ditador.

VASCO GRAÇA MOURA (1942-2014)


Difícil, muito difícil mesmo, encontrar na cultura portuguesa uma personalidade como Vasco Graça Moura que ontem morreu aos 72 anos.
Poeta, ensaísta, romancista, dramaturgo, cronista e tradutor de clássicos, em todos estes géneros foi um intelectual de excelência, para além de ter sido uma das muitas personalidades, talvez o mais combativo, que se manifestam contra o novo Acordo Ortográfico.
Mais uma vez terá que surgir o vulgar lugar-comum: com a morte de Vasco Graça Moura, a cultura portuguesa fica terrivelmente mais pobre.

blues da morte de amor

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida,
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing, minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali.
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: — morrer ou não morrer, darling, ah, sim. 

Vasco da Graça Moura em Poezz Jazz Na Poesia Em Língua Portuguesa, organização de José Duarte e Ricardo António Alves, Edição Almedina, Maio de 1964.

Legenda: imagem da Visão.

AUTOCOLANTES DE ABRIL


Quando fizemos o 25 de Abril, pensámos que desse modo acabaríamos com a guerra em África, libertando o povo português da ditadura, proporcionando o caminho para a democracia em liberdade, tanto quanto possível ao que se passava na Suécia e na Noruega, responsabilizando-se as pessoas pelos seus actos, criando os partidos políticos que representariam a vontade do povo, e defenderiam os seus interesses (do povo) na Assembleia da República e no Governo.
Hoje, vemos que o povo está no desemprego; que grande parte dos cursos que os estudantes frequentam não servem para nada; que os ricos estão mais ricos; que os partidos defendem os seus interesses; e que o governo não governa. Será nossa a culpa? Porquê?

Depoimento de um Capitão do Exército, duas comissões em Angola, presença, entre outras, na reunião de Óbidos. Integrava uma rede clandestina. Ligação à tentativa de golpe em 16 de Março e participação nas operações militares do dia 25 de Abril, em Diário de Notícias, Abril de 2004.

domingo, 27 de abril de 2014

ATENTA EXPECTATIVA


27 de Abril de 1974.

O terceiro dia da nossa vida em liberdade.

Todos os jornais dão conta das reuniões que vão ocorrendo, no Palácio da Cova da Moura, com a Junta de Salvação Nacional, das manifestações de apoio ao Movimento das Forças Armadas que vão acontecendo por todo o País.
Anuncia-se que está prevista para amanhã a chegada a Lisboa de Mário Soares e que os bancos
reabrirão na segunda-feira dia 29.


Após demoradas negociações são libertados os presos políticos que se encontravam no Forte de Peniche. Os presos tinham decidido que ou saiam todos ou não saia nenhum.

Esta é a 1ª página de A Capital que na sua página 4 noticia que o Presidente da Assembleia Nacional, engº Amaral Neto cancelou a reunião marcada para este dia e aguarda, apenas, que a Junta de Salvação Nacional decrete a dissolução da Assembleia.


O Diário Popular dava conta que, em Beja, foi preso pela polícia um homem que ostentava um cartaz a pedir a extinção da PIDE.


Destaque na página 14 para a reunião que a Conferência Episcopal iniciou, em Fátima, no dia 23, ainda em tempo de ditadura, e que teve o encerramento ontem ao final da tarde.
Os senhores bispos mudaram de agulha e emitem um comunicado em que formulam votos para que os acontecimentos destes dias contribuam para o bem da sociedade portuguesa, na justiça, na reconciliação e no respeito
por todas as pessoas. Apelam para a virtudes cívicas dos católicos e demais portugueses de boa vontade. E rezam a Deus pelo povo de Portugal.


A conferência aproveita para se solidarizar com o Bispo de Nampula, expulso de Moçambique, nos primeiros dias de Abril, pela ditadura.


Essa solidariedade teria sido bem-vinda aquando dos acontecimentos, que também envolveram a expulsão de diversos missionários acusados de atentados de se oporem à guerra colonial.
Mas apenas um beato silêncio.
Profundo foi também o silêncio que os senhores bispos mantiveram, durante quarenta e oito anos, com um regime que oprimia e perseguia um povo e mantinha em África uma guerra  que matou, estropiou milhares de portugueses e africanos..

O República revelava que no Forte de Caxias estavam presos 228 membros da Ex-PIDE-DGS e que ainda continuavam à solta mais de dois mil agentes.



Oportuna a entrevista que na página 13 o desembargador Rocha Cunha concedeu a Fernando Assis Pacheco.
Está por fazer a história da participação dos juízes dos Tribunais Plenários. Pior ainda o sabermos que, após o 25 de Abril, esses mesmos juízos foram integrados no sistema judicial sem nunca terem sido responsabilizados e julgados. Eles foram protagonistas do aparelho repressivo da ditadura.
Uma impunidade que há-de estender-se aos agentes da PIDE-DGS e outros servidores do Estado Novo.


Não por uma questão de vingança, apenas por uma questão de justiça.
Na sua página de espectáculos o jornal avisava que, por motivos óbvios, não era possível revelar a programação da RTP:


Como os restantes jornais, O Século noticiava o assalto que populares fizeram ao edifício do jornal Época, que não se publicou neste dia, e que obrigou à intervenção de elementos das Forças Armadas.
Face a este incidente, e outros que iam acontecendo, a Junta de Salvação Nacional emitia um comunicado:,, como a invasão das instalações da A.N.P. a Junta de Salvação Nacional tomava posição.


Na página 7 publicava-se uma fotografia de Eduardo Gageiro  que registava o momento em que um membro da PIDE-DGS era preso.
Esta fotografia correrá mundo.


Também a notícia da morte do poeta Pedro Oom, fulminado por um ataque cardíaco. O poeta que tinha 47 anos, um pouco menos que o regime deposto, e não resistiu à emoção de ver cair a ditadura,


Fotografia na última página do Diário de Lisboa.


No Largo da Misericórdia, o povo largou fogo a um automóvel da PIDE, ontem á tarde. Três agentes transportavam-se nele quando, cerca do meio-dia, foram identificados por populares arrastados para junto do pelourinho do largo e desramados pelo Exército. O povo queria linchá-los, tendo sido contido só a muito custo pelo capitão e pelos poucos soldados que os guardavam.

Como era sábado, saída para as bancas do semanário Expresso
Curiosidade sobre a abordagem que seria feita aos acontecimentos do 25 de Abril, mas os leitores encontraram uma edição inócua e hibrida.
A parte final do editorial do Expresso:


 Na página 14, em despudoradas afirmações, o ultra-salazarista Francisco Cazal-Ribeiro aguardava com atenta expectativa que a Junta de Salvação Nacional viesse a cumprir as promessas de liberdade constantes da sua declaração ao país.

PORQUE HOJE É DOMINGO







Coloco aqui algumas fotografias que tirei na manifestação dos 40 anos do 25 de Abril.
Estou farta de todos os anos ouvir a mesma lenga-lenga do valer a pena continuar a assinalar a data da nossa libertação.
Por mim, e não só, o 25 de Abril nunca será uma data insignificante.
Ouvir dizer que estávamos melhor nos tempos do Salazar e Caetano é uma afronta que me repugna. Só quem viveu aqueles tempos miseráveis – muitos já esqueceram… - pode entender o quanto aquele dia marcou a vida dos portugueses.
Ainda há dias perdi a calma com um jovem taxista que me dizia que os tempos que hoje vivemos, maus tempos, é certo, eram culpa do 25 de Abril. Fora do sério apenas lhe falei de uma coisa que ele não deve fazer a mínima ideia do que foi: guerra colonial.
Quando me perguntam onde estava no 25 de Abril, respondo sempre que não sabia de nada, que estava a sair da cama para ir trabalhar, quando a Aldina, a vizinha do lado, me veio dizer para ouvir o que a rádio estava a dizer.
Sabia, no entanto, que já há andava na luta pelas 44 horas semanais no comércio, que quando o 25 de Abril chegou tínhamos atingido o ponto dessa luta entrar na fase do agora ou nunca.
O 25 de Abril foi a pronta possibilidade do ganhar essa luta.
Trabalhava como empregada do balcão desde os 12 anos e tinha 29 quando chegámos ao tempo dos cravos e da esperança.
É por isso, e tanto mais, que certas lengas-lengas me deixam furiosa,
Por mim, digo e repito:
Sempre, 25 de Abril sempre!
Obrigado!

NOTÍCIAS DO CIRCO


Cândido Moreira, presidente da Anafre, Associação Nacional de Freguesias disse que a proposta que nos foi apresentada pelos CTT continua a ser insustentável para as freguesias. Ou seja, muitas passam a ser funcionárias dos correios quase a custo zero.

AUTOCOLANTES DE ABRIL


Os ricos nunca perdem a jogada, nunca fazem um erro. Espiam. E esperam os erros dos outros. Administram os erros dos outros. São hábeis e sábios. Têm uma larga experiência do poder e quando não podem usar a própria força, usam a fraqueza dos outros. E ganham.

Sophia de Mello Breyner Andresen