segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

OLHARES



Um suculento cozido à portuguesa, na Casa do Concelho da Pampilhosa da Serra, organizado pela Comissão de Melhoramentos da Foz do Ribeiro. 
No regresso a penates, o Garrudo deixou o carro em cascos de rolha, esta simpática velhinha sentada na esquina do Becoda Mó com a Rua das Escolas Gerais, ali por onde passa o 28 Amarelo da Carris.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Comovo-me cada vez que entro numa casa e vejo livros.
Nunca consigo explicar esta sensação, nem colocá-la por escrito.
Ao olhar esta estante, no solar do Luís, em Pinheiro de Lafões, lembrei-me do começo de um poema do António Gedeão, não sei poemas de cor mas tenho as suas memórias:

“A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões
nem mísseis.
Corria branda a noite e a vida era serena.”

Nesta estante estão os livros da “Colecção Argonauta”, pertença do pai do Luís que os leu, os amou e não é difícil imaginá-lo, a quietude da casa, o prazer da leitura e, em fundo, talvez a correria, as vozes dos filhos., talvez ainda a chuva a bater nos vidros da janela, a leitura acompanhada de uma chávena de chá.
O tempo em que corria branda a noite e a vida era serena.
Um dia, numa casa que tivemos em Almoçageme, o Manuel Luís, ao descer as escadas do sótão, disse:
- Cheira a romances policiais.


Os livros têm cheiro?
Têm.
Como escreveu Jorge Listopad: “O livro cheirava a papel fresco que eu gosto, como o pão ainda quente do padeiro.”
Maria do Rosário Pedreira tem um belíssimo livro de poema a que chamou “A Casa e o Cheiro dos Livros”

IDÍLIO EM BICICLETA


Uma das coisas excepcionalmente boas desta viagem que estou a fazer, é poder viver cada momento, cada lugar, cada sitio onde pernoito, cada café ou restaurante onde me sento, cada banco de jardim onde “poiso”, cada conversa circunstancial, com a intensidade das coisas absolutas, únicas e irrepetíveis e com a leveza da absoluta despreocupação com o antes e, especialmente, com o depois – com o autocarro ou o avião, com o jantar, com a reunião, com o encontro, com o compromisso, em suma, com o Relógio.

Texto e Imagem de Idílio Freire

domingo, 27 de fevereiro de 2011

POSTAIS SEM SELO


Qualquer rapariga pode ter “glamour”. Tudo o que tem a fazer é ficar quieta e fazer um ar de estúpida

Hedy Lamarr, actriz norte-americana nascida na Áustria (1913-2000).

Legenda: fotografia de Richard Avedon

O PORTUGAL FUTURO

O Portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do as falto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
Portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a Espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o Portugal futuro”

Ruy Belo em “Homem de Palavra(s)”, Cadernos de Poesia nº 9, Publicações Dom Quixote, Janeiro de 1970.

DA MINHA GALERIA

A recuperar de uma insuficiência cardíaca, Elizabeth Taylor faz hoje 79 anos.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

QUOTIDIANOS



Uma ambulância do INEM em serviço de urgência a uma idosa com suspeitas de estar a sofrer um enfarte foi obrigada a abandonar a rua onde se encontrava para deixar passar o carro do ministro da Justiça, revelou a TVI. A viatura ia buscar Alberto Martins a casa.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

COMO QUEM NÃO QUER A COISA


Para começar, uma declaração de interesses: se os meus amigos, não têm virtudes ou qualidades, eu invento.

Dito isto compreenderão que não adianta muito eu dizer que o Miguel escreve bem, tem um processo de escrita simples, que se torna aliciante e donde sobressai o seu fino e apurado sentido de humor, que apenas, ligeiramente, se estatela quando o seu anti-benfiquismo vem a talhe de letra. Mas também, como diz a Aida,  os nossos dias não são os mesmos sem as suas provocaçõezinhas do pontapé na bola.

Quando, a um grupo restrito de amigos,  o Miguel, começou a enviar as impressões da sua viagem ao Estados Unidos, que acabariam por dar um feliz e interessante livro, "instigante livro", como lhe chamou Pedro Freitas Branco, aconteceu um dia  cair-lhes uma carta que falava do acidente cardíaco que, por um fim-de-semana louco, ao virar duma esquina, lhe bateu no ombro.

Agora que passaram dois anos sobre o percalço, pedi autorização ao Miguel para publicar ,no “Cais do Olhar”, essa carta.

Pela sua leitura verificarão que é um texto muitíssimo bem esgalhado, em redor de um tema, a que, amiúde, pretendemos, sem qualquer ponta de êxito, fugir ou ignorar.

Sobre a vida somos capazes das melhores palavras, de filosofias de pura e cristalina água, mas sobre a morte é um busílis. E, no entanto, a pessoa preparar-se para a morte deveria ser a grande finalidade da vida.

Caro(a)s Amigo(a)s!

Se eu tivesse partido naquela madrugada de 22 de Fevereiro, iria de "papinho cheio".... Há quem morra com fome, com frio, ao relento, na mais profunda das solidões... Eu teria sido um privilegiado! Vejam só: almoço no “Camané,” entradinhas variadas, sopa de peixe, arroz de lingueirão e um “Don Rodrigo”, tudo regado com um excelente espumante; ao jantar, e a acompanhar a magnífica vitória do Sporting sobre o Benfica, uma riquíssima mariscada em Cabanas, na companhia do meu neto, dos seus pais, da Cristina e de outros amigos. Que melhor morte poderia eu desejar..?
Quando, umas horas depois, me deu a dor, pensava que seria um problema de gases, tal os abusos que tinha feito durante o dia... E ainda me lembro de ter perguntado à enfermeira, no quarto do hotel, se eles não tinham nada para os gases...
Na ambulância, a caminho do hospital, veio-me à memória a cena do "Fountainhead", do King Vidor, em que o velho arquitecto é também transportado ao hospital de  ambulância. Na pequena parte de vidro visível na porta traseira da ambulância ele vê passar, um após outro, os arranha-céus que tinham sido toda a razão da sua vida. Eu vi passar os chaparros de Tavira e arredores, e nunca pensei que pudesse vir a apreciar tão "por dentro" esse belíssimo plano do King Vidor...
Pois foi disto que me lembrei na ambulância, sim senhor...!
Como tantas vezes sucede no Cinema e na Literatura, eu gostaria de poder assumir perante vós  um ar meio  melodramático e dizer: durante aqueles longos minutos, toda a minha Vida passou defronte dos meus olhos... ! Mas é mentira, pois não passou puta de vida nenhuma! A única coisa que passou foi a imagem de um fim de semana estragado, para mim e para as pobres pessoas que me acompanhavam; uma refeição de ostras para o galheiro!; uma ida aos petiscos de Ayamonte que bateu asas...!
Chamem-me inconsciente mas, talvez por a reacção ter sido muito rápida e eu nunca ter chegado a sentir uma dor profunda e insuportável, nunca me senti verdadeiramente em perigo, embora isso pudesse ter acontecido. Nunca imaginei, sequer, a possibilidade de deixar de ver a minha Família e os meus Amigos!
Chegado ao hospital, passei brevemente por um quarto antes de entrar na sala de intervenções onde fiz o Cateterismo. Uma simpática enfermeira, Ana de seu nome, avisou-me que iria ter de me rapar parte dos pelos, para depois se poder colocar os adesivos. Rapou-me o pulso, a perna direita, e também uma boa parte do "genital" (fiquei a saber que, no hospital, é esse o nome técnico da coisa...). Ainda sem saber muito bem se iria ter oportunidade de o voltar a utilizar nas suas múltiplas funcionalidades, confesso que me assustei um pouco, não fosse a enfermeira, nesse seu afã destruidor de pelos, levar-me metade atrás. Mas não! Tudo correu na perfeição e o meu "genital" ficou que nem passarinho pronto a saltar para a frigideira...
Já aqui falei da enfermeira Ana, mas poderia ter falado de muitas mais, tão simpáticas todas elas foram. Percebo agora melhor porque é que muitos doentes se apaixonam pelas suas enfermeiras. Elas são umas Queridas, e mereceram amplamente as caixinhas de chocolates que, à saída, lhes fui levar...!
No dia seguinte ao da intervenção, uma enfermeira, sozinha, conseguiu mudar-me os lençóis e dar-me banho, tudo isto sem eu sair da cama...! Depois de me ter esfregado o corpo todo, passou-me a esponja para a mão e disse-me, com um sorriso cúmplice: "Agora o genital é consigo...". Balelas! Bastar-me-ia ter alegado qualquer incapacidade para mexer o braço, e o "genital" também ficaria por conta dela. E ela faria isso com prazer, porque são esses os "princípios" da sua profissão...
A Felicidade, no hospital, é uma coisa fácil de alcançar. Ter autorização para ir à pia (de cadeira de rodas, é claro...) fazer as necessidades sozinho; poder tomar um duche de verdade no balneário, embora sempre com a enfermeira do outro lado da cortina a dizer vezes sem conta: "Não fique tonto, veja lá se quer ajuda..."; fazer as refeições fora da cama; poder recusar a maça assada, sem ser obrigado a emborcá-la à força...
Em contrapartida, o maior pânico no hospital não são os fios que nos ligam a todas aquelas máquinas, não é o facto de nos virem, de quatro em quatro horas, retirar sangue para análise em enormíssimas seringas, nem sequer a circunstância de uma enfermeira  vir, regularmente e com um sorriso nos lábios, dar-me uma injecção em plena barriga para o sangue não engrossar. Tudo isso é brincadeira...
Terrível, mesmo terrível, é um objecto a que chamam "arrastadeira", destinado a fazer as necessidades sem se levantar o "tutu" da cama...  E a simpática enfermeira bem nos diz (ela deve saber quão difícil é a tarefa...): " Se precisar de ajuda para se limpar, chame-me..." Porra! Quem é que tem coragem para chamar uma enfermeira para uma coisa dessas...?"  Rapar o "genital" ainda vai, agora isso... Resultado: três diarreias de seguida e nem coragem tenho para vos contar todo o espectáculo...!
Os "vizinhos" também não são nenhum problema. Estava muito bem a ver o jogo do Porto com o Atlético de Madrid quando me entra no quarto e se coloca bem defronte da televisão um velhote, vestindo um impecável roupão de lã castanho escuro, com chinelos a condizer. Estende-me a mão, diz que se chama Armando Cabanita e pergunta-me há quanto tempo estou eu no hospital. "Três dias", respondo-lhe. "Pois eu já cá estou há quatro semanas", diz-me ele. E acrescenta: "Tenho uma doença rara (cujos detalhes me explicou sem que eu tenha percebido patavina...) e este tempo todo é só para a preparação, porque a operação, essa tem de ser feita em Lisboa".
Quando o Armando se afastou da televisão, o Porto já tinha conseguido o empate sem que eu soubesse, quando, como e porquê. Mas se alguma mágoa se sentia na voz do Armando, julgo que não era devido à sua "doença rara", mas sim ao facto de ela ter sido diagnosticada tão tardiamente. O Armando imaginava as mordomias que tinha perdido ao longo da vida: palmadinhas nas costas por parte do Presidente da Junta de Freguesia; lugar cativo e na primeira fila nas festas da Casa do Povo; ir na rua e ouvir gritarem-lhe do outro lado do passeio "Atão Ti Armando, meque vai isso...?" e ele, Armando, do outro lado do passeio a tirar o boné da cabeça e a acenar em sinal de reconhecimento...
Mas, por cada Armando, que lá aparece, há também o seu inverso. No dia seguinte a esta cena, estando eu sozinho no meu quarto, entra, com um reluzente fato de treino verde e roxo, aquele que percebi logo ser o meu novo companheiro de quarto. Estende-me a mão, diz-me o nome (que não percebi...), diz-me ao que vem (que ainda percebi menos...), tudo isto com uma genica impressionante num homem que já deveria ter mais de sessenta anos. Despiu-se, vestiu o pijama azul bébé do hospital e estendeu-se na cama, a ler uma revista qualquer que lhe emprestei. Pouco tempo depois dei com ele a chorar que nem um perdido e a ser rapidamente rodeado e "apaparicado" pelas enfermeiras. Quando me fui embora, gritei-lhe um "corra tudo bem!", mas ele nem me respondeu, com a cabeça escondida entre as mãos... No dia seguinte voltei ao hospital para falar com a médica e agradecer pessoalmente às enfermeiras que lá estavam, e, felizmente, já o vi de novo em plena forma...
No último dia a médica perguntou-me se, até aí, havia levado uma vida bem regrada. Eu respondi-lhe que sim, mais ou menos... Mas não deixei de pensar com os "meus botões" que talvez o "erre" do meio esteja a mais, e que a minha vida tenha sido, isso sim, bem "regada"...!
À saída dão-nos uma série de folhetos, que têm a ver com aquilo que eles chamam a "nossa preparação para a vida futura", agora que teremos de passar a encarar bem de frente a triste realidade de sermos, como dizem os franceses, "handicapés". Um deles despertou a minha atenção: chama-se "Sexo e Doença Cardíaca". Ainda fui ver se havia "Vinho Verde e Doença Cardíaca", "Pezinhos de Coentrada e Doença Cardíaca", "Mousse de Chocolate com Chantily e Doença Cardíaca", mas nada...
Não tendo os meus outros prazeres merecido qualquer consideração editorial, dediquei-me, então, ao "Sexo". Este livrinho é profusamente ilustrado, o perfeito "Kamasutra" do doente cardiovascular...! Para além disso, tem um interessantíssimo capítulo de "Perguntas e Respostas", que, muito literariamente, eles substituem por "Mitos e Realidades"... Ora reparem bem neste exemplo:
Mito:
Praticar o sexo após um ataque cardíaco causa enfarte do miocárdio e muitas vezes morte súbita
Realidade:
Isto pode acontecer excepcionalmente, sobretudo quando um membro do casal tem sexo fora do casamento.  (poupo-vos ao resto da resposta...!)
Fiquei logo a saber que o miocárdio entope mais rapidamente com a vizinha do lado, do que com a "Dona de Casa"...Enigmas da ciência...
Mas há mais.... Reparem bem neste mimo: não se diz "se o doente cardiovascular tem sexo fora do casamento". Diz-se "quando um membro do casal"! Ou seja, eu posso andar muito direitinho a mijar no meu penico que, se a "parceira" andar a dar "voltas ao bilhar grande" eu apanho por tabela e a dobrar: não só me nascem uns valentíssimos pares de cornos, como entupo a coronária sem saber ler nem escrever...!
Perguntar-me-ão agora: porque é que isto me aconteceu? Eu sei lá...! Erros meus, má fortuna, amor ardente... E de futuro, nesta tríade, vou passar a ter mais atenção ao capítulo "má fortuna"...
Em termos de "plano de acção" para o futuro, há muita coisa que vou ter de mudar... Disparates desnecessários....Por exemplo, nos jantares do "Grupo Jantarista das Últimas Sextas-Feiras do Mês", em casa do Hugo, vou ter de tomar mais atenção e poupar-me. Em vez de ir sempre a correr pelas escadas acima, feito louco, vou passar a subir no elevador...!
Esta lenga-lenga já vai longa, e eu fi-la de propósito para vos pedir desculpa pelas preocupações que vos dei, para vos agradecer essas mesmas preocupações e para vos garantir que, tão depressa, não se vão ver livres de mim...
Herbert Pagani escreveu que "on peut vivre sans Pain, mais pas sans Amis...". E tem absoluta razão! A Amizade alimenta-nos, dá-nos de beber, ajuda-nos a respirar quando sentimos falta de ar... E foi esse mesmo sentimento que eu vivi na minha cama de hospital, cada vez que recebia um telefonema ou um "sms" da vossa parte...
Obrigado por serem meus,/minhas Amigo(a)s!
Espero estar à altura dessa vossa Amizade!
Um forte Abraço do

Luís Miguel

Legenda: é difícil encontrar uma imagem que ilustre um texto como este. Acontece que quando o li, de imediato me saltaram dois livros: “Um Homem Sorri à Morte Com Meia Carade José Rodrigues Miguéis e “De Profundis, Valsa Lenta” de José Cardoso Pires.
Entendi que a capa do livro de Rodrigues Miguéiss não ficava mal de todo.
O título é roubado a um livro do Eduardo Guerra Carneiro.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A PONTE SOBRE O TEJO



A imagem mostra o Ministro das Obras Públicas Arantes e Oliveira a entregar a Salazar uma cópia especial do contrato de construção, encerrada em caixa artisticamente trabalhada.
A propaganda do regime escrevia:
“O largo alcance social e os vastos benefícios económicos resultantes da construção de obra de tanto interesse viviam de há muito no espírito de todos os portugueses. Dezenas de anos passaram, contudo, desde que a ideia da sua construção tomou vulto com a apresentação do primeiro projecto.
Finalmente, mercê da segurança com que a Nação vem trilhando a senda do progresso e o caminho da sua valorização económica, foi possível, mesmo preocupados e assoberbados com problemas graves que outros povos sem razão nem justiça nos criam, lançar mão de tão grande empreendimento, o que bem demonstra que continuamos a trabalhar em ordem e na paz.


O contrato assinado para a construção da ponte, destinada ao tráfego rodoviário, é no montante de 1 764 190 contos.
A ponte está, porém em condições de ser adaptada, no futuro, ao tráfego ferroviário, com via dupla. Esses trabalhos custarão 700 000 contos o que levará o custo para 2 464 190 contos.
Trabalharão na ponte 2 000 operários, além dos que serão utilizados na construção dos acessos rodoviários e nos estaleiros.
Virão para Portugal 80 000 toneladas de materiais, constituindo a maior encomenda feita nos Estados Unidos.
Com  a observação constante dos materiais  utilizados serão dispendidos 10 000 contos.”

QUOTIDIANOS



No Centro de Saúde os médicos começam a trabalhar às 09,00 horas.

O expediente abre às 08,00 horas.

Tinha médico de família, mas com as reformas dos últimos meses do ano passado, uma autêntica debandada, fiquei sem médico.

Os médicos que se reformaram não foram substituídos.

Não há dados precisos sobre o número de pessoas que perderam o médico assistente no seu centro de saúde. Se antes se falava em cerca de 400 mil portugueses sem médico de família, a ministra da Saúde admitiu há dias que agora serão 500 mil. Alguém me disse que poderão ser 600 mil.

Antes, para obter uma receita, deixava a lista dos medicamentos no posto médico e no dia seguinte poderia ir buscá-la.

Sem médico de família atribuído, não posso deixar a lista dos medicamentos, e para obter uma receita tenho que ter uma consulta. Para marcar consulta tenho que ir manhã cedo e tentar ser atendido por um médico de reforço que, por ali, esteja a fazer serviço.

Na vez primeira apareci um pouco depois das sete meia, tinha a senha nº 16 e já não consegui vaga. Passei a ir, pouco depois das sete, para a porta do posto, e é assim que tenho obtido as receitas. Mas, mesmo assim, quando lá chego já sou o sétimo ou o oitavo. Há utentes, principalmente idosos, que se levantam às 5 da manhã para que seja possível obter uma consulta. Agora as manhãs são escuras e nem um livro se pode ler enquanto aguardo a abertura da porta. Fico a ouvir as conversas. São sempre desabafos tristes, por vezes dramáticos, e, não poucas vezes, lá aparece o lamento, o que nos está a fazer falta é um outro Salazar.

Passaram anos e anos, mesmo muitos, a exigir altíssimas médias para se entrar medicina e agora não há formados suficientes para colmatar as saídas que se verificaram, que continuam a verificar-se.

Uma reportagem do “Público” dava conta que se chegou ao ponto de haver médicos que se reformaram e, mais tarde, voltaram, através de empresas de prestação de serviços, a trabalhar para o Serviço Nacional de Saúde, e a ganharem muito mais.

Não temos médicos mas temos das maiores redes de auto estradas da Europa, grande parte delas, quase desertas de automóveis.

Quem quer saúde, paga-a! – assim, falava um qualquer ministro no século passado…

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O VALOR DO VENTO


Irene Lisboa em Solidão II:

Já no Monte Agudo – pelos meus dezassete anos – eu queria dizer qualquer coisa ao vento. Rapariga solitária, demasiado solitária, impressionava-me o vento, a lua e outras coisas mais. Mas também sei, não esqueci que me achava incapaz de dizer o que queria ou sequer, de entender o que o vento me sugeria. O vento é um companheiro. As vozes acompanham-nos. Cortam o absoluto silêncio, a atonia e a calma do calado.”

Frank Sinatra, num concerto para angariação de fundos para ajudar crianças invisuais.

Algumas crianças visitam-no no final do espectáculo, e uma pergunta-lhe:

- Frank: de que cor é o vento?

Talvez um enorme silêncio como resposta.

De que cor é o vento?

RuyBelo, um dia, soube o valor do vento:

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
O vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
O vento é o melhor veículo que conheço
Só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
Mas só hoje soube o verdadeiro valor do vento
O vento actualmente vale oitenta escudos
Partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Legenda: Fotografia de Afonso Santos.

POSTAIS SEM SELO


- Estás muito bonita! Fazes-me lembrar um tango de Arola que eu ouvia no cabaré "Parda Flora", em Buenos Aires.
- Talvez houvesse por lá alguém parecido comigo?
- Não. É precisamente por não te pareceres com ninguém que gostaria de te encontrar sempre, em toda a parte.

Hugo Pratt em A Balada do Mar Salgado

OLHARES


Um domingo de Julho em Trigaches para o baptizado do sobrinho-neto Francisco.  
Um sítio melhor do que aquele de onde vieste. 
Um café depois da curva, sem “juke-box”,  apenas uma máquina de café a precisar de conserto. 
A roda do moinho de água a girar.
O vento na planície alentejana. 
Umas vezes forte, outras vezes suave.

O PIOLHO DA AMADORA


Também a Amadora tinha o seu Piolho, em contraponto ao então moderno Cine-Teatro Lido, de que falarei depois. o Piolho da Amadora era imponente, a fazer lembrar um velho Nobre falido, mas com porte. O seu nome verdadeiro era “Recreios Desportivos da Amadora”, sala do início do Séc. XX, que como disse antes, teria testemunhado espectáculos dos melhores artistas de então. A modernidade transformou a outrora sala de teatro e ópera, num cinema, mas manteve o seu interior inalterável. Lembro-me de uma sala. Já um pouco degradada, mas que mantinha o seu balcão, plateia, e ainda os camarotes e frisas, onde de quando em vez o pessoal ia, juntando-se em grupos de 5 e colocando um ar de circunstância, lá iam 5 putos para um camarote, sentados em cadeiras velhas, mas sentindo-se os Reis da Malta. Foi o primeiro cinema onde me lembro de ter ido sem a companhia da minha Mãe, com quem me habituei a gostar da 7ª Arte, é verdade que ela sempre gostou mais daquelas coisas esquisitas da “Sissi Jovem Imperatriz”, mas levava-me a ver tudo o que era filmes da Disney, especialmente ao “Condes”. Lembro-me que era um acontecimento, não se ia ao Cinema assim de qualquer forma, punhamos a roupa melhor, e lá íamos, com sorte ainda se comia um pacote de bolachas de baunilha ou um nogat. Mas a fase do Piolho foi para ver outros filmes, sendo um cinema de reposições, os primeiro filmes de que tenho memória de lá ir ver foram os do Cantiflas, as coboiadas do Trinitá, que eram, usando uma expressão do meu Pai, de “Porrada de criar bixo”. Lembro-me também de ver os “Herbies” da Carocha dos Diabos. E muitos mais ao longo dos anos, mesmo quando num último assomo de modernidade, o Piolho foi remodelado e rebaptizado de “Cine Plaza”, passando então a apresentar extreias. Um dos grandes momentos de que me recordo, foi no filme “Fuga para a Vitória” o pessoal todo da assistência a gritar “GOLO”, de cada vez que a equipa dos prisioneiros marcava, naquele espectáculo de Pelé e Ardilles. E o momento em que ainda com 10 anos conseguia entrar num filme para maiores de 12, fazendo um ar de mais velho ao estender o bilhete para o porteiro, no tempo em que eles ainda controlavam essas coisas. E depois assistir ao “Documentário”, normalmente sobre a fauna Africana e comentado com sotaque brasileiro, depois aos “Desenhos Animados”, e finalmente ao grande filme. Era mesmo um acontecimento ir ao Cinema, não sou um cinéfilo, mas sempre gostei muito de “Ir ao cinema” ! Obrigado Piolho.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

O ZECA QUE FAZ FALTA !

 
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  (excerto de uma entrevista à Flama Jun/1974)

Foi há 24 anos que o Zeca deixou de animar a malta, e como faz falta. Mais do que um baladeiro ou cantor de intervenção, a memória que tenho dele é a de um Homem de ideais e convicções fortes. Sempre mais preocupado com o que tinha para dizer, do que com a forma como o fazia, preferindo “animar a malta” em cima de uma camioneta de caixa aberta, ou numa qualquer sociedade recreativa, como a Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense que inspirou a cantiga-senha do 25 de Abril. Dizia ele que esses eram os momentos culturais importantes, e não os “Coliseus”, “São Luiz” ou “Pav. dos Desportos”, que seriam mais coisas de aparato, assistidas por quem não entendia o que ali se passava. Zeca Afonso não foi um cantor de atrair multidões a um sítio, foi mais de chegar a cada um e em cada um permanecer, a sua musica não se consome, entranha-se em nós e de nós fica a fazer parte. Feito cantor profissional por expulsão do ensino, mais do que falar sobre ele, importante é ele falar sobre nós, é ler as suas palavras, e sentir que foram ditas há décadas, como poderiam ter sido ditas hoje, se em vez de evocarmos a morte, estivéssemos hoje a celebrar a sua vida :
“Que é feito dos seus amigos de Coimbra, das baladas, da resistência, do famoso PREC?
Pela minha parte não tenho grande coisa a dizer sobre isso. Acho que os intelectuais deste país têm os Soares que merecem. É realmente uma geração que gosta de se apresentar a si mesma como vítima da desilusão. Para mim é uma atitude de traição, que não têm a coragem de confessar e por isso inventaram grandes malabarismos. Depois encostam-se ao PS, ao PSD ou a qualquer outra muleta do poder. Digamos que são pessoas que não me interessam.” (Excerto de entrevista concedida ao jornalista e escritor José Amaro Dionísio em Junho de 1985.)
E se ao ouvirmos “Os Vampiros”, sentimos que aquilo que foi escrito há 50 anos continua a fazer sentido, só podemos concluir que os “responsáveis” de hoje são mais parecidos com os de então do que aparentam....
“Quando começamos a procurar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado!”(excerto de entrevista ao Se7e nov 1985)








OLHARES




Avelãs, perto da Guarda, Novembro de 2007

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

SR. MATA E SR. ESFOLA


"Como fizeram para reduzir os salários e as prestações sociais, PS e PSD juntaram--se de novo no Parlamento, desta vez para impedir limites (nem sequer para os reduzir, só para lhes pôr freio) aos vencimentos dos gestores públicos.
Gestores públicos é um eufemismo usado para designar "boys" e "girls", em geral sem mais qualificações para gerirem o que quer que seja do que a sua disponibilidade para serem geridos. E se há assunto em que PS e PSD estão de acordo, além de que os pobres é que devem pagar as crises provocadas pelos ricos, é o da protecção dos "seus".
Embora não pareça, há no entanto diferenças entre PS e PSD. Por exemplo, o PS quer despedimentos fáceis & baratos para estimular "o emprego" enquanto o PSD também quer despedimentos fáceis & baratos mas para estimular "a economia". Para quem for despedido é igual, mas visto do lado do PS e PSD é muito diferente.
Do mesmo modo, o PS rejeitou as propostas do BE, PCP e CDS para que os salários dos gestores públicos tivessem como tecto o vencimento do presidente da República por isso ser "da competência do Governo" ao passo que o PSD as rejeitou por serem "populistas". "Boys" e "girls" do PS e PSD continuarão, pois, a poder ganhar mais do que o presidente da República. E não por um mas por dois bons motivos, um o do Sr. Mata outro o do Sr. Esfola.
É assim que PS e PSD conseguem o milagre de estar em desacordo fazendo exactamente o mesmo."

Manuel António Pina, "Jornal de Notícias", 22 de Fevereiro de 2011

OPORTUNIDADES...

A revolta em países árabes pode ser vantajosa para o turismo português por ser uma oportunidade para repor a oferta nacional entre as primeiras escolhas dos consumidores, defendeu hoje o presidente do Turismo de Portugal, Luís Patrão.

IDÍLIO EM BICICLETA


O Álvaro recebe dez quetzais por dia, cerca de um euro. E não consigo apagar da memória: o meu primeiro salário diário, por oito horas, seis dias por semana, aos 12 anos de idade, foi 250$ (1,25€). Sou economista, sei que o meu 1,25€ em 1979, tem um valor actual superior talvez a 10€. Mas sabe-me bem olhar com esperança para o pequeno Álvaro, embora essa esperança não resista à observação desapaixonado das terras altas da Guatemala, de todas as tantas Guatemalas que se estendem sob o céu cinzento.

Texto e Imagem de Idílio Freire

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Na “Assírio & Alvim” há um cuidado muito especial em editar livros.

Sente-se a marca indelével deixada por Henrique Monteiro, um transmontano afável, um gigante repleto de sensibilidades extremas, amante de livros, “gosto de pensar que edito livros como quem trata de uma vinha”, um homem que embelezou os nossos dias e que, vitimado por um cancro, com 42 anos, nos deixou, em Junho de 2001.

São bonitos e imprescindíveis os livros da Assírio, um pouco carotes, é certo, mas não há galinha gorda por pouco dinheiro, o que me obriga a uma ginástica mensal de contar trocados, inventar saídas. Vou comprando os que não posso mesmo adiar, mas sei que, um pouco antes da chegada da Primavera, a Assírio abre as suas portas para a “Feira do Livro Manuseado”.
São rigorosos os critérios que a “Assírio &Alvim” impõe para a venda dos seus livros, e o critério de qualidade obriga a que os livros, mesmo com pequenissimos defeitos, regressem ao armazém, para agora serem vendidos nesta feira a preços muito abaixo do preço de capa.
Até 19 de Março dêem um salto às lojas da "Assirio & Alvim"  na Rua Passos Manuel, ou na Rua do Carmo.

Não se arrependerão!

“É preciso dizer que a Assírio estava de pantanas. A Assírio foi fundada em 72, depois esteve uns anos sem publicar, mais tarde o Homero, produtor do Página Um, tinha lá um escritório e deu uma mão, mais duas pessoas que lá trabalhavam. Aquilo estava num regime de sobrevivência. Quando fui para lá, os livros editados não chegavam a dez. A Assírio vivia mais da distribuição do que da edição. É nesse contexto que entro, um pouco desinteressadamente.
A minha mola foi sempre o afecto. Nunca pensei ser rico, ter poder…”

Henrique Monteiro ao “Diário de Notícias” , 2 de Maio de 2001.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A HORA DAS NOVELAS


Banda Sonora de “Mulheres Apaixonadas” (2003)

I’ve Gotta Live – The Hobeats
Hold On – Pedro Migueis
Inside My Love – Juanita Dailey
My Image The Mirror – Karynn
Carenza – Paolo
By My Side - Jimmy Wise
Thinking About You – Ezspesial
Cé Pace Lo Sai – Roberta Lombardi
Don’t Give It Up On Me – Millie Jackson
Eilline – Spelling Nadja
Sakura – Edu Alves
In Love Again – Laylasam
A Different Love Song – Caroline Drawson
Sunshine – Colt 45
So Do I – Paulo Gonzo
Hide Way – 3’24 Wonderland

POSTAIS SEM SELO


Com a Irene Lima perguntei-lhe se não era feio para uma mulher abrir as pernas para pôr o violoncelo entre elas, e ela respondeu que não tinha vergonha nenhuma, porque possuía o amor que tinha ao violoncelo como se possui um homem com as pernas.

José Duarte, “Notícias Magazine”, 11,01.2009

Legenda: Julia Dufvenius em “Saraband” de Ingmar Bergman, 2004

domingo, 20 de fevereiro de 2011

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Scarlett Johansson é, desde Março de 2009, a embaixadora do “Moet & Chandon".
Um mistura a que o meu pai chamaria explosiva.

Woody Allen, quando escolheu Scarlett para o seu filme “Match Point”, terá dito:

O que custa é ter uma boa ideia. Quando ela aparece, tudo se torna mais fácil.

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


O meu pai gostava mais de “blues” do que de “jazz”.
Não tinha grandes leituras sobre a matéria e a afirmação provinha de mero gosto pessoal.
Tinha simpatia por Billie Holiday e uma predilecção muito especial por “Strange Fruit”,
canção que Billie Holiday gravou em 20 de Abril de 1939 e que se transformou em porta-estandarte da luta dos Direitos Civis dos negros norte-americanos. Em 1999, a revista “Time” descreveu-a como sendo a “canção do século” e foi incluída na lista de “Canções do Século” pelo organismo que tutela a indústria discográfica dos Estados Unidos.
 

Na autobiografia que  ditou a William F. Dufty (1) , Billie Holiday conta a história de “Strange Fruit”:

“Foi durante a minha passagem pelo Café Society que nasceu uma canção que se tornou o meu protesto pessoal: «Strange Fruit». O embrião da canção estava num poema escrito pelo Lewis Allen. A primeira vez que o vi foi no Café Society. Quando ele me mostrou aquele poema fiquei logo impressionada. Parecia que falava de todas as coisas que tinham morto o meu pai.
O Allen também tinha sabido das condições em que o meu pai morrera e, claro, estava interessado na minha voz. Ele sugeriu que Sonny White e eu fizéssemos a música para o poema. Por isso juntámo-nos os três e fizemos o trabalho em três semanas. Também tive uma grande ajuda do Danny Mendelsohn, um outro músico que já me tinha feito arranjos. Ajudou-me com muita paciência a fazer o arranjo para a canção porque não tinha a certeza se conseguia transmitir essas coisas, que tinham um significado para mim, ao público de um clube fino.
Tinha medo que as pessoas detestassem. A primeira vez que a cantei fiquei com a sensação que tinha sido um erro e tinha razões para ter medo. Não houve sequer um ameaço de palmas quando acabei de cantar. Então uma só pessoa começou a bater palmas nervosamente. E de repente toda a gente estava a bater palmas”
  
                                                 

Certamente que o meu pai gostaria de ter ouvido este tributo que Tony Bennett prestou a Billie Holiday.

“God Bless The Child”.
________________

(1)   - “Lady Sings The Blues”
               Tradução e adaptação de Frances Jude Rosário Duarte
               Prefácio de José Duarte
               Edições Antígona, Lisboa 1992   

sábado, 19 de fevereiro de 2011

OLHARES




Lisboa, 
Rua da Senhora do Monte: uma curiosa varanda de esquina, perto do Miradouro, e a vivenda Serra.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Esta é a Igreja de S. João Evangelista no número 17 da Rua Barão Sabrosa em Lisboa.

Aqui era o “Max”, um “piolho dos anos 30.

O cinema foi comprado pelo Patriarcado de Lisboa para a construção da igreja e a instalação de um Centro Social.

Nele cheguei a ver algumas fitas, mas o “Cine-Oriente estava mais à mão. Ao “Max” apenas ia, não pelas fitas, porque naquele tempo via tudo, o que viesse à rede era peixe, mas apenas quando nas matinés dos domingos do “Cinóre” já não arranjava bilhete
.
Com o andar dos tempos, acabei por saber que, antes da bilheteira do “Cine-Oriente” abrir, os porteiros vendiam bilhetes com 10% de comissão, e, nos meus domingos, poucas mais vezes olhei o “guichet” da bilheteira com o letreiro “LOTAÇÃO ESGOTADA.
Naquele tempo, nestes cinemas de bairro, ser porteiro não era profissão, mas apenas um biscate para compor os ordenados de miséria que nas suas profissões aqueles homens auferiam.


Este anúncio foi retirado da página de espectáculos do “Diário de Notícias” de 4 de Dezembro de 1968 Quer os cinemas de estreia, quer os cinemas de bairro, publicitavam nos jornais, os filmes que tinham em exibição.

Hoje, como quase ninguém compra jornais consulta-se o “Google”.

Provavelmente terá sido dos últimos anúncios do “Max”, porque o cinema será, nesse final de década, será demolido para dar lugar à Igreja de S. João Evangelista.

Mas é curioso olhar-se a programação desse dia:

"Marilyn" é um documentário da "20 Century Fox", com imagens de filmes de Marilyn Monroe, realizado, em 1963, por Harold Medford, e narrado por Rock Hudson.

Naqueles anos cinzentos, a informação cinematográfica, para já não falar da cultura, apenas estava ao alcance de uma vasta minoria, pelo que posso imaginar que  a malta da Picheleira e do Alto do Pina, correu em peso ao “Max”, para "matar" um filme com a Marilyn e o Rock Hudson. Se bem se lembram, os filmes eram com e não de, pelo que os actores eram a nossa preocupação.

"A Lança em Chamas" (“Flaming Star”) é um filme de Don Siegel, (1960) e foge aos cânones da  filmografia de Elvis Presley.

A sinopse do filme, feira pela Wikipédia, é o que tenho à mão de semear e, como não estou a fazer nenhuma história do cinema, por aqui me sirvo, diz-nos  que tudo se passa em 1870 no estado do Texas, no meio de guerras entre brancos e índios, e Elvis, filho de pai branco e  mãe de descendência índia, depois do pai e do irmão escolherem o lado dos brancos, terá de fazer a sua opção.
.
Quem destas coisas sabe, diz tratar-se do melhor filme de Elvis Presley, onde fica provado, que ele teria sido melhor actor, se lhe tivessem proporcionado argumentos com pés e cabeça.

Tenho uma vaguíssima ideia do filme, mas tudo passa um pouco ao lado, porque sou suspeito na matéria: considero Elvis Preley, como actor de cinema, um perfeito desastre.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

IDÍLIO EM BICICLETA


O deserto vai crescendo, não física, mas emocionalmente, com os quilómetros que me percorrem as pernas e a mente. Sinto-o cada vez mais forte. Sinto-me cada vez mais parte dele, enredado nele, prisioneiro dele. Só há uma estrada – esta. Só há uma paisagem – esta. Só há um som – este silêncio. Só há duas cores – azul e morte. Só há um sol – este a que nada escapa. Só há uns goles de água – os que trago na bagagem. Só há um coração a bater – o meu.

Texto e imagem de Idílio Freire

AMADORA 67


Por cento e trinta e cinco contos apenas
viva masi longe sem o saber
com rendimento assegurado
e um provincianismo convicto e suburbano
das profissões liberais
e outras que tais.
Por cento e trinta e cinco contos apenas
tenha uma neurose suburbana
com rendimento asseguarado
cheia de sol e de moscas

A vila tem
construtores civis
e outros à paisana
que fazem prédios
e filhos
suburbanos
que ouvem o programa da moda
e têm poses de filme da televisão
e têm um carro que ronca
(por causa do quinto ano)
Com risquinhos atrás e um trevo
(por causa das meninas extrospectivas
E suburbanas)

Ao domingo toma-se banho
e o relato à tarde pelo transistor
vêm os parentes de Lisboa
comem-se bolos com creme no café
dão-se estalinhos com a língua para esmoer a desgraça
tomar um galão é o que fica bem às senhoras
os cavalheiros é imperial e tremoços
há muitas alegrias de retrosaria e fanqueiro
e um Cadillac a gasóleo por causa das empreitadas

Por não poder estar à testa
Mãe extremosa trespassa
Saudade de fadista doentinho
Que chumbou a duas no sétimo
Se o comprador provar ser evoluído
Terá como brinde a voz ambígua
Última oportunidade de realizar o seu sonho por pouco dinheiro

Porque o comboio circula com atraso
grandes descontos na assinatura
agora a primeira calasse ao alcance do seu pé de meia

Porque o comboio circula com atraso
desfrute de um neo-sebastianismo
justamente concebido para o seu tamanho

Vá de comboio para o seu ninho
suburbano.

Armindo Miranda

UM PASSEAR PELOS TEMPOS


Foi por finais de 1966 que, pela vez primeira, fui até à Amadora. Deixava-se a estação do comboio e em tudo à volta, só se viam quintas e mais quintas, e hoje deparamos com aquele triste e horrível mundo de cimento e mais cimento.

Os pais do Armindo tinham um pequeno tasco no nº 299 da Avenida Elias Garcia.
Aos almoços frequentado por operários, aos jantares por gente idosa com estatuto de comensais, tudo numa atmosfera a lembrar os romances do José Rodrigues Migueis. Foi nesse tasco que, por uma noite de ingénuas conspirações para derrubar o regime, comi a mais saborosa e suculenta mão de vaca de jardineira que em minha vida inteira ao dente me chegou. Tudo num sossego, um devagar nos tempos, rematado com um café de saco, um bagacinho caseiro, uma cigarrilha “Alto”.

As conversas com o Armindo eram abrangentes e, amiúde, pelo meio improvisava poemas, conversas soltas, algumas intermináveis, como uma sobre o “Herzog” do Saul Bellow, que nunca se concluiu porque, de repente, me apanhei na recruta em Tavira e nesse lapso o Armindo, para fugir à guerra colonial, deu o salto para França. Apenas um postal ilustrado de Grenoble a dizer que chegara, e depois não mais notícias do Armindo, nem do Zé Ferraz que com ele seguira viagem. Ficou o som das conversas, imagens outras, aquele vocativo que os homens dão ao que não conhecem. Também um abraço constante, nas grandes distâncias e no breve tempo.

Mais ou menos por esses tempos também frequentei a cave-estudio-casa do pintor Artur Bual.
Uma vez, mais o Helder e o poeta e pintor Hugo Beja chegámos pelas duas da tarde e acabámos por perder o último comboio para Lisboa. Quem desfez o galho onde nos enfiámos foi o poeta~pânico Karlos Faria, que foi ter connosco à estação da Amadora onde , sentados, aguardávamos a passagem do primeiro comboio para Lisboa. Cada um dos três com um quadro que o Bual insistira que trouxéssemos. O meu ainda hoje é presença marcante nas paredes aqui da casa.

Ao lado da cave do Bual, numa rua vulgar da Amadora, havia um tasco onde por diversas vezes o palhinhas foi-se enchendo de tintol. Cada um a pagar o seu, o do Bual foi para o rol.
O Artur Bual morreu em 11 de Janeiro de 1999. Tinha 72 anos.

Autodidacta, gostava de dizer que nunca se preocupara em aprender. Preocupavam-no sim, um bom bacalhau assado, um rosto de mulher, os jogos do Benfica que ouvia numa telefonia. Chamaram-lhe pintor maldito, tal como ao Luiz Pacheco chamaram escritor maldito. Não gostava de críticos e borrifava-se no que diziam. As exposições passavam-lhe ao lado.

“O impulso é que é o grande estado de beleza da interioridade”

Naquela enorme tarde-noite de um Maio de 1967 não conseguimos que o Bual nos desse uma resposta sobre a sua obra. Uma apenas.

- Eh pá não me chateiem a tola!

O Helder, on road para o excelente repórter que haveria de ser em “A Capital”, onde fez de tudo, até crítico gastronómico sob roupagem de Dom Pipas, cheio de ingenuidade, dizia-lhe que era uma pena ele andar a esbanjar tanto talento e o Bual, pegando no copo de tinto, a lançar-lhe um

- E se fosses chatear o c…!

Acabou por sair uma reportagem-entrevista completamente chalada, publicada no “Diário de Lisboa”, mais de metade cortada pela censura, e que está para aí  perdida nas caixas que hei-de um dia abrir, amanhã é que vai ser, e será o dia de são nunca à tarde, um qualquer 30 de Fevereiro.

Eu já devia ter avisado que sou um dispersivo, perguntam-me as horas começo por dizer como se fabricam os relógios na Suiça. Vim aqui para colocar um poema do Armindo Miranda sobre a velha Amadora e meti-me por becos e atalhos. e já não atino com o fim a meada meada. Como o paleio se foi estendendo,  o poema vai em post à parte, um golpe de asa, um terno, ao mesmo tempo cínico, pequeno retrato de uma Amadora onde um apartamento custava cento e trinta e cinco contos, “pois, pois, J. Pimenta!”, como dizia o anúncio dos “Parodiantes de Lisboa”.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A HORA DAS NOVELAS


Banda Sonora de “Celebridade” (2002)

Nossa Canção – Vanessa da Mata
Amor e Sexo – Rita Lee
O Que Tinha de Ser – Maria Bethania
Always – Caetano Veloso
Brisa do Mar – Chico Buarque
Nossos Momentos – Gal Costa
Com Que Roupa – Gilberto Gil
Fama – Beth Lamas
Rio de Janeiro – João Bosco
Doce Castigo – Nana Caymmi
A Vizinha do Lado – Roberto Sá
Olha Não Me Olha - Lulu Jopper
Só Bamba – Pérola Black
Diavolo In Me – Tedd Rusticini

POSTAIS SEM SELO


Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como reflectidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.

Cecília Meireles

Legenda: Pintura de Andrew Wyeth

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

PASTELARIA



Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny de Vasconcelos de “Nobilíssima Visão” (1045-1946) em “Burlescas, Teóricas e Sentimentais”, Editorial Presença, Lisboa, Julho de 1972.

Legenda: Fotografia de Willy Ronis

QUOTIDIANOS


Na pastelaria do bairro, na hora do “croissant” misto e do galão – “com café de máquina”, sr. Dias, por favor – alguém pediu a Rui Tavares, eurodeputado do Bloco de Esquerda, que lhe explicasse, como se ele fosse uma loura muito burra, aquela história da moção de censura ao governo de que falou o Dr. Louçã.
No dia seguinte, Rui Tavares, no “Público”, dizia a esse alguém:

“Tento aplicar o meu critério à recente moção de censura do Bloco de Esquerda e, infelizmente, não me dá nada. Tento pegar-lhe por várias pontas, e não há ponta por onde se lhe pegue. Nada muda se a moção perder. O governo fica no lugar, e é provável que dure até mais tempo. Se a moção ganhar, tudo muda — para pior, com um governo ainda mais à direita. Resta uma explicação "instintiva", a de que o BE se quis livrar do vírus da colaboração com o PS, no rescaldo das presidenciais. Isto seria uma dupla crise de confiança: do bloco em si mesmo como oposição; e do eleitorado no bloco como partido compreensível.”

Legenda: Fotografia de Luís Miguel Mira em “Crónicas da América”

OBRIGADO PORTUGUESES


O “Notícias de Portugal”, boletim semanal de propaganda do regime, editado pelo SNI, referia-se, nesta prosa instigante, à chegada do “Santa Maria” a Lisboa, o fim da “ tragi-comédia do paquete Santa Maria”, como lhe chamava o pasquim:

O Tejo oferecia espectáculo impressionante.
Ao mesmo tempo que aumentava o número de embarcações que se dirigiam, a toda a velocidade,, para o “Santa Maria”, crescia a multidão ao longo da margem direita.
Toda a muralha de Alcântara, de extremo a extremo, estava cheia de populares, que já tinham ocupado inteiramente a plataforma da estação marítima.
Também na margem oposta, centenas e centenas de pessoas se concentraram ao longo do rio, formando, aqui e além, grandes grupos.
O “Santa Maria ficou a pairar em frente de Belém, para entrarem a bordo as entidades oficiais e os representantes dos meios de informação.
Rodearam-no então, os barcos dos pilotos, os cacilheiros, os “ferry-boats”, os iates de recreio, as fragatas e outras embarcações de pesca
Repetiam-se os toques de sirene.
Surgem outras embarcações, entre os quais velozes gasolinas e um vistoso iate, este do Conde de Barcelona.
O “Santa Maria” retoma a sua marcha, em direcção ao cais de Alcântara.


A certo momento, pelos altifalantes, anuncia-se:
-Portugueses! O Sr. Presidente do Conselho, Prof. Oliveira Salazar, vem a bordo do “Santa Maria” Dentro de instantes entra nesta estação marítima.
Assistiu-se, então, a nova onda de entusiasmo, se possível mais vibrante, se possível mais expansivo.
Antes de se retirar da estação marítima, o Presidente do Conselho apareceu à varanda superior do edifício da gare, agradecendo as ovações do povo.
Aos microfones, Salazar afirmou, dirigindo-se à multidão:
-Temos o “Santa Maria connosco. Obrigado, portugueses!
Novas aclamações rodearam o Presidente do Conselho quando, muito lentamente, o seu carro deixou Alcântara”.