quinta-feira, 8 de setembro de 2016

SARAMAGUEANDO


O autor está ali no livro, o autor é o livro, mesmo quando o livro não consegue ser todo o autor. Mão foi simplesmente para chocar a sociedade do seu tempo que Gustave Flaubert declarou que Madame Bovary era ele próprio. Parece-me, até, que ele não fez mais do que arrombar uma porta desde sempre aberta. Sem faltar ao respeito que é devido ao autor de Bouvard et Pécuchet, poder-se-ia mesmo dizer que uma tal afirmação não peca por excesso, mas por defeito: faltou a Flaubert
acrescentar que ele era também o marido e os amantes de Emma, que era a casa e a rua, que era a cidade e todos quantos, de  todas as condições e idades, nela viviam, porque a imagem e o espírito, o sangue e a  carne de tudo isto tiveram de passar, inteiros, por um só homem: Gustave Flaubert, isto é, o autor. Emma Bovary é Gustave Flaubert porque sem ele seria coisa nenhuma. E se me é permitida agora a presunção de pronunciar outro nome depois de ter mencionado o do autor de  L’éducation sentimentale, diria que também eu, ainda que tão pouca coisa, sou a Blimunda e o Baltasar de Memorial do Convento, e que em  O Evangelho segundo Jesus Cristo  não sou apenas Jesus e Maria Madalena, ou José e Maria, porque sou também o Deus e o Diabo que lá estão.
O que nós sempre contamos, afinal, é a nossa própria história, não a história da nossa vida, aquela a que chamamos biográfica, mas essa outra que dificilmente saberíamos contar em nosso próprio nome, não tanto porque nos desse demasiada vergonha ou nos trouxesse demasiado orgulho, mas porque o que há de grande no ser humano é grande de mais para poder ser  dito em palavras, fossem elas milhares, e porque o que faz de nós geralmente pequenos e mesquinhos é a tal ponto quotidiano e comum que por aí não encontraríamos nada de novo que pudesse comover esse outro grande e pequeno ser que o leitor é.

Talvez seja por estas razões e outras semelhantes que certos autores, entre os quais julgo poder incluir-me, privilegiam nas histórias que contam, não a história que vivem ou viveram, mas a história da sua própria memória, com as suas exactidões, os seus desfalecimentos, as suas mentiras que também são verdades, as suas verdades que não podem impedir-se de ser mentiras.  Essa é a única história que poderemos honestamente contar porque, em verdade, não conhecemos outra.
E então? Deveremos realmente regressar ao autor? Sim, em minha opinião, sim, mas atenção, não ao autor, como tal, desligado, como hoje demasiado o vemos, do seu ser social e ético. Receio bem que as  palavras que vou dizer vos soem como antiguidades fora de moda, mas o que proponho aqui é uma espécie de reconciliação, é o regresso apaixonado à concreta figura de homem ou de mulher que está por trás dos livros, e sem a qual, sem essa figura concreta, a literatura simplesmente não existiria. São essa mulher e esse homem que sobretudo me interessam, não para que me digam como foi que escreveram as suas grandes ou pequenas obras (o mais provável é não o saberem eles próprios), não para que aperfeiçoem a minha educação e me guiem com as suas lições (eles são, quase sempre, os primeiros a não segui-las), mas muito simplesmente para que me digam  quem são nesta sociedade que  nós somos, eles, eu, todos nós. O que peço é que eles estejam aí todos os dias, visíveis, sobretudo audíveis, como cidadãos deste presente que é o nosso, mesmo se, como escritores, crêem estar trabalhando para o futuro.
O problema, se verdadeiramente existe, se não é mais do que um fruto tardio e pouco atraente da minha imaginação, não reside no suposto facto da extinção das causas de teor social, ideológico ou político que, com resultados estéticos tão variáveis como foram as intenções, conduziram a literatura, num determinado momento, àquilo a que se chamou, com evidente espírito redutor, o comprometimento. O problema, se quereis que me exprima duma maneira mais directa e sem rodeios, é que o escritor,
hoje, em geral, recusa qualquer comprometimento, salvo evidentemente o que ele chama, se é bastante franco para declará-lo, o comprometimento pessoal e exclusivo com a sua obra. Atrever-me-ei mesmo a dizer que muitas teorizações que nos rodeiam, quantas delas belas e inteligentes, acabam, mesmo não sendo esse o seu objectivo, por se constituir como escapatórias intelectuais, maneiras diversas de esconder, aos nossos próprios olhos, a má consciência e o mal-estar profundo de um grupo de pessoas – nós, os escritores – que depois de terem presumido, durante muito tempo, de serem o farol da humanidade, acrescentam agora, à irredutível escuridão do acto criador (sabíeis que escrevemos no escuro?), as trevas da renúncia e da abdicação cívica. Entendemos como normal que, depois da sua morte, o escritor seja julgado segundo aquilo que fez. Mas, enquanto ele aí está, presente, vivo, permiti que vos diga que temos também o direito de julgá-lo segundo o que é.

Do ensaio O Autor Como Narrador, publicado no nº 38, Primavera/Verão 1997, da revista Ler do Círculo de Leitores.

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