sábado, 21 de fevereiro de 2026
NOTÍCIAS DO CIRCO
«Se o Governo quer agradar a Trump, pode fazê-lo de muitas maneiras. Por exemplo, cria um Prémio Nobel da Paz das capoeiras, com um galo de Barcelos de ouro, cheio de coraçõezinhos, e vai lá entregá-lo, com pompa e circunstância, ao imperador do mundo, dizendo-lhe que ele é “rei” das capoeiras. Ele ficará excitado com o tratamento de “rei” e… agradecerá a Espanha.»
Na sua crónica semanal no Público, José Pacheco Pereira indigna-se com a vergonha que o nosso governo lhe dá.
Portugal vai fazer parte “como observador” do Conselho da Paz de Trump? Que vergonha! E vai ao beija-mão de Trump em Washington?
Parece que não vai ao primeiro, mas vai aos outros. Será que Portugal vai pagar
a senha de entrada que Trump exigiu de 800 milhões de euros? Já nada me admira.
O nosso “observador” não viu anteontem Trump adormecer, trocar os nomes todos,
e fazer vários comentários sobre o aspecto do Presidente do Paraguai, que
considerou “bonito”? Depois especificou que não gosta de homens mas de mulheres, para não ser mal interpretado… E foi assim.
Na Europa, os países que ainda têm uma réstia de dignidade como a Espanha, a
França e a Suécia, pelo menos, disseram que não, a Hungria disse obviamente que
sim, e Itália, Roménia, Bulgária, Grécia, Eslováquia e Chipre aceitaram estar
como observadores. Olhem para os países que são membros-fundadores e percebe-se
logo de que lado Portugal está: Albânia, Argentina, Arménia, Azerbaijão,
Bahrein, Bielorrússia, Bulgária, Camboja, Egipto, El Salvador, Hungria,
Indonésia, Israel, Jordânia, Cazaquistão, Kuwait, Kosovo, Marrocos, Mongólia,
Paquistão, Paraguai, Catar, Arábia Saudita, Turquia, Emirados Árabes Unidos,
Uzbequistão, Vietname…»
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Teria que mudar o título para O Outro Lado das Badanas, mas é um acaso, apenas.
A Relógio d’Água,
uma as editoras do livro, escreve:
«Era uma vez um homem que não era feliz. Tinha uma mulher que não lhe agradava e um trabalho que lhe causava horror. […] [Um dia,] quando se sentia muito infeliz, encontrou uma mulher de grande beleza, que tinha muito dinheiro e um barco. Ela percorria os mares em busca do marinheiro de Gibraltar. Quem é o marinheiro de Gibraltar? É a juventude, o crime e a inocência, um homem simples, o mar, as viagens. Um homem que ela amou e que desapareceu, que está talvez morto ou se esconde. Ele encontrou-a. Gostam um do outro. Ele teve a coragem de decidir sobre a sua vida. É livre. Não tem um cêntimo. Ela contrata-o para o seu navio. Ele vai ajudá-la a procurar o marinheiro de Gibraltar. Partem.»
Sobre a autora:
«Marguerite Duras nasceu a 4 de Abril de 1914 em Gia Dinh, perto de Saigão,
na então Indochina Francesa, cuja paisagem a marcaria profundamente. O seu pai
era director de uma escola e faleceu em 1921 num hospital francês. A mãe,
professora, regressou então à metrópole com os três filhos, mas em Junho de
1924 partiu para Phnom Penh, no Camboja, e depois para Saigão, onde adquiriu
terras e se fixou em 1928 (a posse de terras depressa se revelou ruinosa e a
mãe voltou ao ensino). Marguerite Duras fez estudos secundários num liceu de
Saigão, tirando um bacharelato em Filosofia. Tinha 18 anos quando se fixou
definitivamente em Paris, onde estudou Direito e seguiu cursos de Matemática.
Em 1936, Duras conhece Robert Antelme, com quem viria a casar em Setembro de
1939. Empregara-se, entretanto, como secretária no Ministério das Colónias.
Em 1942, preside a um comité de leitores controlado pelo regime de Vichy. Em
1943, o apartamento de Duras e Robert Antelme torna-se um ponto de encontro de
intelectuais, entre os quais Jorge Semprún. O casal vai participar na
Resistência e, em Junho de 1944, Robert Antelme é detido pela Gestapo e
Marguerite Duras tem de fugir. É ainda durante a guerra que Duras publica os
seus primeiros livros, Les impudents em 1943 e La vie tranquille no ano
seguinte, ambos ainda com uma estrutura tradicional. Depois da libertação,
filiou-se no PCF, de onde saiu anos mais tarde. Em 1950, torna-se conhecida
através de um romance de inspiração autobiográfica, Uma Barragem contra o
Pacífico, onde as características do seu estilo são já visíveis. Em 1954, participa
no comité de intelectuais contra a guerra na Argélia. É já então evidente que o
romance tradicional não interessa a Marguerite Duras e que ela procurava uma
voz singular através da desestruturação das frases, da estranheza das
personagens, da acção e do tempo. Os seus temas são o amor, a espera, a
sensualidade feminina e o álcool. Moderato Cantabile, de 1958, subverte as
convenções vigentes num estilo que depressa se alarga às suas peças teatrais e
textos cinematográficos. Em 1958, escreve o argumento cinematográfico de
Hiroshima, Meu Amor, que será realizado por Alain Resnais. Em obras como Le
ravissement de Lol V. Stein (1964) e O Vice-Cônsul (1966), Duras confirma um
estilo cada vez mais despojado e de grande rigor formal. Duras realiza em 1966
o seu primeiro filme, La Musica, e Détruire, dit-elle em 1969. É então uma
autora de culto. Tornar-se-ia uma das escritoras mais lidas em todo o mundo
depois de publicar em 1984 O Amante, que recebe o Goncourt. Em 1987, Duras
procura explicar a sua dependência do álcool na obra A Vida Material. A partir
do final dos anos 80, padece de várias doenças e começa a sentir dificuldades
na escrita, tendo mesmo sido mantida em coma artificial durante cinco meses.
Publica ainda O Amante da China do Norte, em 1991, Yann Andréa Steiner, em
1992, e Écrire, em 1993. Faleceu a 3 de Março de 1996, com 81 anos, e o seu
túmulo, tão despojado como a sua escrita, pode ser visitado no Cemitério de
Montparnasse.»
Não é dos livros mais acarinhados de Duras mas gostei de o ler e nunca vi o filme de Tony Richardson com Jeanne Moreau, Orson Welles, Vanessa Redgrave, mas trago para aqui o que o escritor Jorge Marmelo dissertou sobre o livro:
«Jornalista a Quanto tempo pode um livro permanecer
intocado na estante de nossa casa? Muito tempo.
Há romances exímios em confundirem-se e camuflarem-se entre outros que já
lemos, imitando-lhes a tonalidade amarelada das lombadas, a camada de pó, o
mesmo aspecto gasto. Aí ficam adormecidos, quietos e silenciosos como inimigos
ocultos - como as células adormecidas do novo terror. Não respiram, nunca
levantam o braço para se fazerem notar e, quando nada o faz supor, rebentam-nos
nas mãos, acendem certas luzes que temos dentro.
Resgatei ontem um desses livros-camaleão da estante onde, julgava eu, havia
apenas romances lidos há muito tempo. Estava convencido de que em algum momento
da vida me tinha já passado pelas mãos aquele O Marinheiro de Gibraltar, de
Marguerite Duras, mas, como não me lembrava de nada do que pudesse ter lido, o
aborrecimento do domingo levou-me a retirá-lo do sítio, a folheá-lo (com
cuidado para não perder as páginas já descoladas da lombada, sinal inequívoco
de algum uso) e a constatar que, caso alguma vez o tenha lido, não li, na
verdade, coisa alguma: passei-lhe os olhos por cima e esqueci.
Há provavelmente, naquela estante, outros livros nas mesmas circunstâncias,
obliterados pelo mesmo esquecimento, mas resolvi dedicar o final de tarde de
domingo a O Marinheiro de Gibraltar. A edição é de 1991, da Dom Quixote, mas a
primeira página tem uma dedicatória assinada por duas pessoas e datada de
Dezembro de 1995. Tive que fazer um esforço para recordar quem eram aqueles
dois "amigos", também esquecidos, aos quais agora estou
particularmente grato por terem infiltrado o romance de Duras na minha estante,
oferecendo-o à pessoa colectiva à qual, pelos vistos, eu então pertencia:
"Espero que gostem e que vos toque da mesma forma que nos tocou a
nós".
Alguma parte daquele "nós" já extinto o deve ter lido entretanto,
pois as folhas estão descoladas entre as páginas 71 e 139. Mas não fui eu - ou,
pelo menos, não foi a mesma pessoa que hoje sou. Tal como agora me conheço, não
esqueceria, decerto, a bela americana deitada na areia perto do canavial e o
iate ancorado diante de Rocca, nem esqueceria Éolo, o estalajadeiro, ou Carla,
a sua filha, nem essa Jacqueline demasiado agitada e optimista, capaz de passar
dias a correr sob o impiedoso calor de Florença para ver todos os museus e
monumentos da cidade. Não esqueceria, sobretudo, esse homem cansado da vida,
"um desses homens cujo drama consiste em nunca ter encontrado um
pessimismo à altura do seu", que subitamente se descobre vivo enquanto
conversa com um pedreiro italiano e, por isso, larga tudo, Jacqueline e o
emprego no Registo Civil do Ministério das Colónias, para se instalar em Rocca
e fazer pesca submarina, ir aos bailes nocturnos do outro lado do rio e aprender
a gostar de beber pastis ao sol.
Leio ou releio O Marinheiro de Gibraltar, não sei bem, e mergulho numa estranha
nostalgia. Invejo, parece-me, todas as pessoas que recomeçam a viver.»
OLHAR AS CAPAS
O Marinheiro de Gibraltar
Marguerite Duras
Tradução: Isabel
de St. Aubyn
Capa: José
Antunes
Círculo de
Leitores, Lisboa Dezembro de 1989
O Verão angustiava-me. Era certamente o desespero de nunca conseguir viver de acordo com ele.
MÚSICA PELA MANHÃ
Existe
a velha ideia de que se não fossem os irlandeses não tinham romancistas, nem
poetas, nem músicos, nem realizadores de cinema.
Deixemos
Shakespeare, ou os beatles de fora do eventual exagero da citação.
Van
Morrison é um irlandês, nascido em Belfast, que é da minha idade e de que gosto
muito.
São
dele as canções que entram hoje ma Música desta Manhã.
Tive
a grande oportunidade de o ouvir, em 22 de Julho de 2023, no Cascais Cool Jazz.
CONVERSANDO
Das
citações.
A
opinião de Eduardo Prado Coelho:
«Citas muito, dizem.
Sempre foi assim. Como explicar? Não se trata nem do uso de argumentos de
autoridade nem de exibicionismo cultural. Mas incomoda, eu sei, e permite que
se insinue que se não pensa pela própria cabeça, ou que se vive alimentado
pelas modas «que vêm do estrangeiro».
Gostaria de tornar bem
claro como o gosto da citação tem a ver com um amor intenso das palavras. Por
vezes, citação que excita pela convicção de que alguém encontrou um dia as palavras certas –
isto é, os nomes próprios – para dizer algo que em nós foi
expressão confusa e enrodilhada. Aqui a citação tem um efeito de
evidência. Que é sempre, acreditem, motivo de júbilo.
Por outro lado, a
citação é um incitamento. Porque retirar as palavras de um contexto (a
citação faz um desvio) é criar em torno delas um halo de silêncio, um anel
de referências implícitas, que abre o espaço para dizer mais. O espaço
off de uma citação é um convite para se pensar. A citação condensa, mas
ao mesmo tempo indecide – efeito de descontextualização.»
Por
mim, sempre tive a ideia se há alguém que diz as coisas melhor do que eu digo,
não hesito: cito.
São
diversos os comentários que leitores fazem às muitas citações que Ana Cristina
Leonardo faz nas crónicas que publica no Público.
Na crónica de ontem a autora entendeu que era hora de escrever sobre o assunto.
Deste modo:
«Como alguns leitores terão provavelmente notado, gosto de citações (também
gosto de advérbios de modo, mas isso agora não vem a propósito). As citações
têm várias vantagens. Acima de tudo, poupam-nos trabalho. Além de nos pouparem
trabalho — benefício de monta para quem considera que o trabalho, além de mal
pago, está sobrevalorizado (caso, por exemplo, de Albert Cossery, autor, entre
outros, de Mandriões no Vale Fértil — trad. Júlio Henriques, Antígona,
3ª ed., 2022) —, permitem-nos expressar melhor ideias que, sem a elas
recorrermos, expressaríamos decerto pior.
Dirão alguns, em tom acusatório, que as citações não passam de uma bengala. Não
serei eu a contrariá-los. Faço apenas humildemente notar que, ultrapassada
certa idade, de uma maneira ou de outra, metafórica ou literalmente, uma
bengala dá sempre bastante jeito. Depois, há a síntese. Uma boa citação
permite-nos ir directos ao ponto. Sem palha. Com sorte, com elegância. E a
elegância, ao contrário do trabalho, anda bastante subvalorizada. Porque se é
verdade que Einstein não chegou à elegantíssima síntese E = mc² flanando
apenas, também é verdade que a hipótese (genialmente arrojada: não tenhamos
medo das palavras) de o tempo não ser uma medida fixa lhe ocorreu ia ele a
passar tranquilamente junto à Torre do Relógio em Berna. Por falar nisso, li
algures num livro, já não me lembro qual, que o biólogo e psicólogo Jean
Piaget, inspirado pelo físico, chegaria à conclusão de que as diferentes setas
do tempo em nada parecem estranhas às crianças: para elas, quanto mais depressa
correm, mais devagar o tempo passa. Lembrando Pessoa: “Grande é a poesia, a
bondade e as danças.../ Mas o melhor do mundo são crianças”.
Ocasionalmente, flanar e pensar pode ter consequências bizarras: umas vezes
cómicas, outras vezes trágicas. Tales de Mileto caiu num buraco, ao que se sabe
sem mazelas de maior, enquanto caminhava a observar as estrelas. Já ao filósofo
Francis Bacon, terá sido o empirismo a matá-lo. Envolvido em experiências sobre
congelação, ao cruzar-se em pleno Inverno com uma galinha, decidiu mandar
matá-la e enterrá-la na neve. O destino da ave perdeu-se, mas Francis Bacon
acabaria mesmo por morrer de pneumonia.
Chegado aqui, o leitor terá talvez concluído, e legitimamente, que, além de
citações e de advérbios de modo, também admiro muitíssimo uma boa história. Só
para dar dois exemplos: o chamado Antigo Testamento ou As Mil e
Uma Noites são fontes inesgotáveis. E para voltar às citações e à sua
defesa, e dado que me referi às escrituras hebraicas: e se afinal o Livro de
Eclesiastes estiver certo e não existir mesmo “nada de novo debaixo do sol”,
pelo menos para nós que, como Sísifo, empurramos ciclicamente a mesma pedra, revoltados
de quando em vez?
Albert Camus, o autor da célebre abertura de O Mito de Sísifo — “Só há
um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio. Julgar se a vida
merece ser ou não vivida é responder à questão vital da filosofia” (uma
daquelas frases que comprovam sobremaneira que “o começo de um livro é precioso”)
—, não escolheu o suicídio ante o absurdo. Morreria prematuramente e de maneira
absurda num acidente na estrada, durante uma viagem de automóvel em que decidiu
participar apenas ao último minuto. Já cá não está para nos ajudar a decidir
sobre a revolta, mas quando se tropeça por acaso em Loretta, as decisões mais
recentes do Parlamento Europeu (PE), rasurando a palavra “mulher” só parecem
comprovar, senão os trabalhos de Sísifo, decerto a longevidade do absurdo.»
A prosa sobre citações já vai
longa, mas não resisto a terminar colocando o comentário de uma leitora na
edição do Público de ontem:
«Gosto de citações, remetem- nos para obras que podemos desconhecer e aprendemos e, por outro lado, é uma homenagem. Não vejo nisso qualquer problema. É preciso ter lido muito para as tornar oportunas e nisso a Ana é exemplar.»
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
POSTAIS SEM SELO
A vida hoje é outra, a História segue o
seu caminho e muita gente há que corre atrás desse comboio só para arranjar
lugar na 1ª classe. Nós preferimos fazer parte daqueles que melhoram a via para
que o comboio não descarrile.
Autor desconhecido
SOLTAS
«A maior parte da sua obra poética foi escrita em Moçambique, ao mesmo tempo que pintava e dava lições gratuitas a alunos locais, no Núcleo de Arte. Foram seus alunos atentos os hoje famosos Malangatana Valente (pintor) e Chissano (escultor). Quadros era um docente notável, esforçado e admiravelmente sensível às dificuldades dos alunos. Era de uma extrema minúcia em tudo o que fazia. Lembro-me, com grande saudade, de noites prolongadas até de madrugada, na nossa casa, em Lourenço Marques, com o António Quadros a desvendar-nos todos os mistérios da vida e percursos das abelhas. Era assim com tudo: um dedicado e autêntico profissional.
Enquanto escrevia o seu
longo poema satírico – Quybyrycas, prefaciadas por Jorge de Sena –, mais
longo que os Lusíadas, tinha fixado na parede um gráfico em que mostrava o
progresso diário do poema, em estrofes concluídas. Tanto o Quadros, pintor,
como o Grabato Dias, poeta, se consideravam, orgulhosamente, simples operários.
O preço dos quadros que vendia nada tinha a ver com a enorme reputação de que
já então desfrutava: era rigorosamente calculado em função do número de horas
de trabalho investidas na obra. Preços dignos, mas razoáveis.
Termino com uma
passagem da homenagem que lhe prestei nas minhas memórias:
“Como poeta, como pintor, como fazedor, como criador, como intrépido desvendador de territórios ignotos, António Quadros foi um dos raros génios que tive o privilégio de conhecer, em vida. Não me apetece, neste caso, estar com cuidado a medir as palavras: disse “génio” e disse bem”.»
Eugénio
Lisboa, JL, 23 de Setembro de 2020.
1.
Segundo a DECO o preço do cabaz alimentar está a aumentar desde o início de
2026, na semana passada bateu o recorde dos últimos quatro anos e é provável
que, em consequência dos prejuízos causados pelas tempestades, o valor ainda
suba mais.
2.
Bonito,
bonito é preparar a festa
Gratificante,
gratificante é nela participar.
Claro
que depois há a nostalgia do fim da festa, aquela tristeza cinzenta que fica
sempre no fundo das garrafas vazias.
3.
A
saúde é um estado transitório que não augura nada de bom.
4.
Em
qualquer parte do mundo há sempre alguém à espera de um livro, de uma canção,
de um filme que cure a violência e a solidão.
5.
Praticamente,
durante largas dezenas de anos, fomos governados pelo PSD e pelo PS.
Sabe-se
que ambos os partidos não estão puto interessados no país. Ambicionam o poder
para poderem dar empregos e mordomias para os jotinhas que vão criando
nas suas sedes.
6.
Uma
idiossincracia dos miúdos é que só os nossos é que prestam, Os dos outros não
passam de pastiches, réplicas ranhosas.
7.
O
mundo, esse continuou a girar em volta do sol, tal como Galileu tinha previsto.
QUEM SÃO OS ADULTOS QUE O FAZEM
Os sítios onde se guardam os livros, que são, como sabemos, impressos em papel, e que podem ter muitos, muitos anos, centenas alguns, têm todos um cheiro especial, que certas pessoas podem achar pesado, mas que a outras transporta imediatamente para dias e noites de leitura e de pesquisa. Nada se compara a um mergulho num livro, mesmo quando temos a sensação que muitas outras coisas poderíamos estar a fazer em vez de o ler. “Talvez não haja dias da nossa infância mais plenamente vividos que aqueles que julgamos deixar sem os viver, aqueles que passámos com um livro preferido”, diz-nos Proust, uma frase que eventualmente hoje terá uma ressonância muito diferente — quem são as crianças que hoje em dia passam tardes da sua infância a ler? Quem são os adultos que o fazem?
Guta
Moura Guedes de uma crónica no Expresso
DÁ-ME
dá-me amor
dá-me a folha de árvore
que guardaste na
algibeira
pelo menos
dá-me o descanso de
dormir
no meu próprio corpo
enquanto o pássaro
- qualquer pássaro –
deixa inesperadamente
de cantar
e repousa
enquanto o diálogo
o nosso diálogo
se interrompe para que
passem
as nuvens
nesse momento precisamente nessa ocasião
dá-me o teu silêncio
e perguntas
não me faças não me faças nenhuma
creio que agora é
inútil.
Mário-Henrique
Leiria em Poesia
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
OLHAR AS CAPAS
Estudos Sobre Teatro
Bertolt Brecht
Tradução: Fiama
Hasse Pais Brandão
Colecção
Problemas nº 1
Portugália
Editora, Lisboa Março de 1964
O individuo é cada vez mais fortemente impelido a
comprometer-se nos grandes sucessos que transformam o mundo. Deixa de lhe ser
possível «exprimir-se» apenas. É solicitado a solucionar os problemas comuns e
posto em condições de o fazer. O erro reside, tão sòmente, em as engrenagens
não serem ainda, hoje em dia, da comunidade, em os meios de produção não
pertencerem aos produtores e em se atribuir ao trabalho um carácter mercantil,
sujeitando-o às leis gerais da mervadoria. A arte é, pois, uma mercadoria; sem
meio de produção (engrenagem) não seria possível produzi-la! Uma ópera só pode
ser feita para a ópera.
GESTOS
Gestos,
apenas
gestos. A minuciosa ternura
posta
nas coisas imediatas,
nas
que duram contra a noite,
nas
que acendem lâmpadas precárias
e
contêm o silêncio, o silêncio,
como
se música fossem
e
nela nós viéssemos
perder.
Gestos,
tu
ouves?
Nem
o teu coração pode dar guarida
a
tanto silêncio da terra.
Se
agora mesmo devagar nos anoitecesse
e
se, mergulhados numa aguda nostalgia
ou
na recordação de um rosto,
nos
desencontrássemos do mundo,
só
esse gesto viria resgatar-nos,
a
nós, feridos de amor e de sentido.
Por
isso, hoje só posso dizer
o
que o teu coração abandonou.
Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
OLHAR FRIGIDEIRAS, TACHOS, PANELAS
Maria de Lourdes Modesto morreu a 19 de Julho de 2022.
Na
crónica que publicou no Expresso de 29 de Julho de 2022, João Paulo
Martins, no ponto 2 da sua crónica sobre o Verão e os seus vinhos, não quis
deixar de homenagear «a grande senhora da nossa gastronomia»:
1. Em época de canícula as bebidas
frescas são as que nos sabem melhor. Apesar de eu ser grande apreciador de
Espumantes/Champanhes, tenho que reconhecer que o calor excessivo obriga os
enófilos a uma certa contenção no consumo. A primeira razão é que não se
combate a sede com vinho mas sim com água e, no Verão, com muita água mesmo,
para evitar desidratações que, dizem os médicos, nos podem afectar
terrivelmente sem darmos por isso. Por isso, pelo sim pelo não, vamos assumir,
no mínimo, meio litro de manhã e outro tanto à tarde. Não só não custa nada
como nos tira a sede. E é sem sede que podemos melhor apreciar o vinho,
sobretudo a acompanhar a refeição, como é nossa tradição em Portugal.
Convenhamos que há outras bebidas refrescantes como a limonada, à qual
deveremos juntar muito pouco (ou nada, mesmo) de açúcar. Se tiver uma Bimby
fará uma limonada em três tempos sem qualquer dificuldade. O Verão é também
associado com long drinks, como o gin tónico. Esta é, por excelência, a bebida
do fim de tarde após regressar da praia. Pode também escolher um Porto tónico
ou um menos falado mas também muito bom, Porto rosé com muita hortelã e água
tónica. O moscatel também se presta a vários cocktails. No caso dos brancos e
rosés é indispensável ter um balde de gelo perto da mesa porque o vinho
aquecerá num instante; use também o mesmo balde de gelo para refrescar o tinto
que isso do tinto à temperatura ambiente já era…E o generoso do final da refeição
também agradece se for servido fresco.
2. Não quero deixar de prestar aqui a minha homenagem a Maria de Lourdes Modesto, uma grande senhora da nossa gastronomia (termo que lhe era caro e ficava muito irritada quando se falava em «gastronomia e vinhos», já que, defendia ela, gastronomia, por si, já inclui os dois temas. Conversadora, sempre muito crítica em relação ao que via, ouvia e provava, sempre a refilar com os menus degustação porque, argumentava, «chego ao fim e não me recordo do que comi, tal foi a quantidade de coisinhas que me serviram…». Gostava de ralhar com os Chefes mas a verdade é que todos tinham por ela um especial carinho. E, em visitas (várias) com direito a chá e bolinhos na sua casa do Estoril, troquei com ela livros e receitas, eu sempre a aprender, claro, e ela sempre muito disponível para conversar e trocar ideias. São pessoas assim que fazem o nosso percurso de cozinheiros amadores, que nos inspiram e nos dão vontade de continuar a eterna descoberta de um novo sabor, uma nova combinação, um ingrediente-surpresa ou um twist, como agora é uso dizer-se. Ela era apreciadora de vinhos e fazia questão de ter os guias que iam saindo, sempre atenta às sugestões que lhe chegavam. E eu, que me recordo dela na televisão nos anos 60, sou um felizardo por ter tido a oportunidade de estar perto de tão ilustre personagem da nossa história recente. Comer bem e saber comer será a melhor homenagem que lhe podemos fazer.
OLHAR AS CAPAS
Uma Época no Inferno
Jean-Arthur
Rimbaud
Versão
Portuguesa, prefácio e notas de Mário Cesariny de Vasconcelos
Colecção
Documento Humanos nº 9
Portugália
Editora, Lisboa, Junho de 1960
Outrora, se estou bem lembrado, a minha vida era um
festim em que todos os corações se abriam, em que todos os vinhos cintilavam.
Uma noite, sentei a Beleza nos meus joelhos.
E vi que era amarga. E injuriei-a.
Armei-me contra a justiça.
Fugi. Ó feiticeiras, ó mistério, ó ódio, éreis vós a guarda
do meu tesoiro?
Consegui destruir em mim toda a esperança. Contra toda
a alegria lancei o bote cego da besta feroz. Estranguladas!
E chamei os carrascos para morder, na agonia, a
corunha dos fuzis. Conjurei as pragas para sufocar na areia, mergulhar em
sangue. O infortúnio foi meu vero deus. Estiracei-me na lama. Sequei ao ar do
crime. E preguei boas partidas à loucura.
E a primavera trouxe-me a terrível risada do idiota.
FRANÇA DEBAIXO DE ÁGUA - A CRISE QUE QUASE NÃO VEMOS EM PORTUGAL
Enquanto o debate público se centra nas cheias em Portugal, a França atravessa uma situação excecional que devia preocupar toda a Europa.
As
imagens publicadas pelos média são fortes.
Os números são ainda mais claros:
Porque isto não é um “acidente isolado”.
É
a demonstração de que crise climática e vulnerabilidade da nossa sociedade
andam de mãos dadas.
Quando centenas de milhares de pessoas ficam sem casa e sem luz, o impacto é económico, social e sistémico.
Estamos a investir o suficiente para proteger linhas, postes e subestações contra eventos extremos?
Como é possível uma catástrofe desta dimensão num país vizinho ter tão pouco eco no debate público em Portugal?
A
transição energética já não é só sobre produzir energia limpa.
É, cada vez mais, sobre manter a luz acesa quando o clima testa os limites da engenharia.
Vale
a pena ler o artigo do Le Figaro.
A segurança energética europeia é muito mais frágil do que gostamos de admitir.
Pergunta
para debate
Estamos a preparar a nosso País para o “novo normal” climático — ou continuamos apenas a reagir depois do choque?
Nota: este
texto é de um colega meu.
Pareceu-me
interessante.
Colaboração de Rui Ornelas
À LUPA
Mandar os portugueses entregarem os fogões e aquecedores a gás para os substituir por aparelhos a electricidade, nunca pareceu uma medida acertada.
MAS QUE MEMÓRIA
mas que memória
podemos ter
de nós?
e de qual tempo?
deste tempo exterior
em que
depois de criados
e decifrados
os consensuais alfabetos
da exploração
da vida
chegou o projecto Stardust
com material inalterado
desde o início
do sistema solar,
que não nos diz
se então já havia actos de amor
e portanto
não nos diz nada (?)
é preciso emparedar o
demente
que propõe que podia haver
o que não há.
e outros
como ele.
acham-se todos
cada vez mais
perdidos
no meio do próprio ruído,
carregando
males
e mails
como se a diferença
entre ambos estes termos
não fosse
apenas o espaço
de uma ou outra letra,
e a ressonância
da voz do homem
que treme fora como a terra dentro.
Alberto
Pimenta
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
NESTE DIA
Neste dia, estamos no dia 2 de Maio de 1968, no 4º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira.
Para
preparar um texto sobre os cafés de Lisboa, de que José Gomes Ferreira foi
assíduo frequentador, dei com uma entrada do 4º Volume dos Dias Comuns,
referente ao dia 2 de Maio de 1968, em que o Zé Gomes assinalava o número
especial da Seara Nova que registava os 50 anos da sua actividade
literária, deste modo:
«O
Fafe proclama: «José Gomes Ferreira é o meu maior amigo! José Gomes Ferreira é
o meu maior poeta».
Comoveu-me.
(Sintoma de velhice?)
Por
fim, José Saramago que mal conheço, termina assim o seu depoimento: «Ao lado da
poesia de José Gomes Ferreira está o poeta que ele é: parece um pleonasmo, uma
redundância, talvez um lugar-comum, um dizer-por-dizer. Pois muito se engana
quem o julga.»
O que é curioso é que, àquela data quase se desconheciam («José Saramago que mal conheço»), («José Gomes Ferreira a quem mal conheço, a quem nada devo senão a alegria e o conforto de o admirar»).
José
Gomes Ferreira morreu a 8 de Fevereiro de 1985.
José
Saramago ganhou o prémio Nobel em 1998.
De
certeza garantida o Nobel teria dado uma enorme alegria ao Zé Gomes.
Fica
aqui o depoimento de José Saramago sobre José Gomes Ferreira publicado na Seara
Nova nº 1471, referente a Maio de 1968:
Fomos
em busca do depoimento que José Saramago escreveu para a Fotobiografia
de José Gomes Ferreira, organizada pelo seu filho mais velho, Raúl Hestnes Ferreira
Para a cópia que reproduzimos, servimo-nos do aquivo da Fundação José Saramago:
«Em
Maio de 1973, o suplemento literário do jornal Diário de Lisboa publicou
uma entrevista ao poeta José Gomes Ferreira (Porto, 1900 – 1985). Décadas
depois, José Saramago escreveria um texto contando que fora ele o autor dessa
entrevista que não aparecia assinada. Contou também lembranças e os
ensinamentos que guardava daquela conversa realizada há 50 anos.
José
Saramago no papel de entrevistador
Saber
a idade que José Gomes Ferreira ia cumprindo era facílimo, só tínhamos de
pensar nos algarismos das unidades e das dezenas do ano em que estivéssemos.
Mas era difícil acreditar que em 1973, por exemplo, ele já enchera 73 anos de
vida. Podia-se admitir, sem demasiada discussão, que aquelas rugas, por serem
as cabidas, e aqueles cabelos, por terem branqueado, mais ou menos concordassem
com o registo do calendário, mas isso era só enquanto elas repousassem e eles
esperassem o vento que infalivelmente os haveria de revolver. Então os números,
os da idade e os do ano, desandavam, corriam velozmente para trás, e em menos
tempo do que leva a contá-lo transfigurava-se o José Gomes Ferreira, tornado
outra vez em homem novo, em adolescente entusiasta pronto a correr ao Batalhão
Académico Republicano para realistar-se, em menino a olhar fascinado o deslizar
de uma gota de água na vidraça, e sempre, em todas as circunstâncias, iluminado
por aquele fundo de incorruptível e desconcertante inocência que iria ser, por
toda a vida, a sua mais leal companhia.
Não
foi casualmente que mencionei acima o ano de 1973. Trabalhava então na redação
do Diário de Lisboa, onde, além de exercer a espinhosa e
labiríntica função de opinante em tempos de censura, me esforçava, creio que
com alguma ventura, por coordenar e fazer publicar todas as semanas as
dezasseis páginas de um suplemento literário. Fiquei a dever essa fortuna a
quantos colaboradores, em muitos casos por simples gosto pessoal, ou a câmbio
de remunerações insignificantes que só o mesmo gosto lograva tornar aceitáveis,
generosamente me abasteciam de material obviamente variável na qualidade, mas
sempre empenhado, e por mim agradecido. A par dos habituais artigos e críticas,
a par dos ensaios, dos poemas, dos contos, o suplemento literário daquele desaparecido Diário
de Lisboa foi também palco de algumas das mais suculentas polémicas da
época… E, claro está, havia as entrevistas. Em geral, por falta de tempo,
sobretudo por falta de jeito, não era eu a fazê-las, mas alguma forte razão,
que sou agora incapaz de recordar, me levou a chamar a mim a responsabilidade
de entrevistar o José Gomes Ferreira. Que as minhas artes de entrevistador não
eram de extremos, ficou logo demonstrado na calina questão inicial que hoje me
faz encolher de vergonha: “Tem algum método de trabalho?”, foi a pergunta. À
batida ridiculez da questão quis o poeta responder com paciência exemplar, a
paciência de quem já tinha visto e ouvido muito do mundo. Disse ele: “Com mais
de meio século de vida literária tive, como é óbvio, não um, mas vários métodos
de trabalho. E até um método de preguiça com que construí as linhas
fundamentais do meu trabalho literário. Pois nos anos de 20, de 30, de 40,
etc., trabalhava num ofício que poucos contactos tinha com a literatura,
agarrado a uma moviola de escravo. A minha vocação de escritor, que só à custa
de muitos sacrifícios e teima consegui preservar, exerci-a nos intervalos desse
trabalho, aproveitando a preguiça das horas de descanso para rabiscar papéis,
papelinhos e diários, sempre com a sensação de que estava a roubar tempo e
dinheiro ao meu bem-estar e ao da família. Era, em resumo, um escritor de Horas
Roubadas. Valia-me também o mês de férias anuais em que tentava pôr em ordem os
versos rabiscados durante o ano, ou cumprir alguma encomenda que ousava muitas
vezes aceitar com uma coragem que ainda hoje me deixa pasmado.
Por
exemplo, o prefácio às Folhas Caídas de Garrett escrevi-o em
quinze dias de férias passadas em casa do João Cochofel, no Senhor da Serra”.
“E hoje?”, perguntei, surpreendido por tal abundância de informação em troca da
mais corriqueira das perguntas.
“Bem.
Hoje abandonei a moviola, estou reformado, vivo quase exclusivamente dos livros
e das minhas colaborações nos jornais e fui obrigado a estabelecer um método de
trabalho adaptado à minha idade, sem horários, claro. (Mesmo nos tempos do
trabalho-tortura sempre me defendi dos horários.) Actualmente o meu método
resume-se a evitar escrever de noite, para escapar às insónias. Não tive outro
remédio senão habituar-me a trabalhar de manhã, servindo-me, como já disse, dos
materiais que reuni pacientemente durante os árduos anos de preguiça. À tarde,
leio, converso com os amigos nos cafés, visito os editores e à noite volto a
ler e, às vezes, até a jogar as cartas, para me deitar o mais tarde possível.
Pois contínuo a ser noctívago, embora transpusesse as vagabundagens para o
corredor da minha casa onde ando quilómetros e quilómetros de ruas desertas
imaginárias”..
A
pergunta que lancei a seguir – “Obedece ou cumpre conscientemente qualquer
ritual que considere propiciatório do trabalho?” – continha a menos original de
todas as curiosidades possíveis, certas e prováveis, mas foi tão generosamente
atendida como a primeira: “Rodeio-me de livros, de pastas, de apontamentos, de
Diários, de cadernos, de improvisos e todo esse caos de papel de que lhe falei
e donde arranco, ou tento arrancar, as linhas harmónicas da criação do meu
mundo. Porque, como sabe, o que é difícil é criar o caos. Aliás, nos últimos
tempos, ensaiei um novo método de criá-lo. É o que eu chamo, no calão íntimo do
meu laboratório-oficina, a planificação da cabeça. Assim: estendo na mesa uma
folha de papel de máquina e começo a cobri-la, ora em linha recta, ora
obliquamente, umas vezes em baixo, outras ao lado, palavras, frases, desenhos
mal feitos, pensamentos, ideias, tudo o que me acode à cabeça, que ligo,
desligo, formo, deformo e risco, até apurar não sei o quê, quase sempre coisa
nenhuma. Porque o que este jogo tem de mais fascinante é o parecer que não
serve para nada, pelo menos imediatamente. Só mais tarde, quando junto esses
mapas e os analiso, descubro coisas extraordinárias que me sugerem ideias
importantes. Flores incríveis enrodilhadas num silvado de teias de aranha
incoerentes que depois simplifico em frases e versos aparentemente fáceis.
Planificar o cérebro – eis a minha última descoberta”.
Percebia
que para José Gomes Ferreira as questões propostas lhe eram de certa maneira
indiferentes, que poderiam ser repetitivas, aventureiras, ingénuas, mesmo
absurdas, ele se ocuparia de que as respostas lhes dessem sentido. “Emenda,
reescreve, ou fixa-se na forma original? Por outras palavras: é um elaborador,
ou um impulsivo?” perguntei. E ele respondeu: “Como se subentende do que já
disse, sou ao mesmo tempo um impulsivo e um elaborador.
Improviso
em rajadas, nos tais papelinhos. E depois trabalho-os com afinco paciente e
teimoso, às vezes durante anos. Sim. Corto, emendo, reescrevo, copio, recopio.
E até às vezes conservo religiosamente a forma inicial. Sem tocar na mínima
palavra para não desmoronar o poema. Gosto também de trabalhar em coisas
diversas na mesma ocasião. Agora, por exemplo, publicada a Poesia-V, em que o
século vinte continua a viajar em mim, preparo quatro livros. A Poesia-VI, que
encerrará porventura o meu ciclo poético, O Sabor das Trevas, longa narrativa
alegórica, Gaveta de Nuvens, compilação dos meus escritos de aparência crítica,
e Face em espelho torto, biografia inexacta de um homem exacto. O Sabor das
Trevas já vai na segunda versão. É um livro difícil. Uma espécie de João Sem
Medo nocturno numa atmosfera insólita de realismo fantástico”.
Para
não variar, a pergunta seguinte – “Considera que progrediu desde que começou a
escrever?’» também viria a ser salva pela resposta: “Como é natural, a experiência
da vida enriqueceu-me (a outros empobrece) e, sentindo-me mais rico, a minha
linguagem de raiz barroca simplificou-se, embora cada vez escreva com mais
dificuldade e suor. Mas (em arte não há progresso, há às vezes traição)
continuo basicamente o mesmo de sempre, a cantar o que me apetece, ou o que
possa apetecer-me cantar, cada vez mais livre e ajustado à minha sinceridade”.
“Mas há quem o considere sectário…”, insinuei, e logo a resposta: “Nunca o fui
nem sou. A não ser que se queira chamar sectarismo à intransigência e
fidelidade visceral ao que há de mais profundo em mim mesmo: ao que penso, ao
que sonho, ao que desejo, ao que não acredito…”.
Continuou a ser assim, sempre, na Revolução, depois dela, até aos últimos dias de vida. Numa carta datada de 23 de Abril daquele ano e referindo-se a esta entrevista, pedia-me insistentemente que recomendasse aos revisores do jornal que não lhe tirasse o não das palavras finais. Ele lá sabia porquê…»
HORAS DE IR PARA O EMPREGO
Deixei em casa
a palavra lua, a
palavra flor, a palavra pássaro
e desci as escadas
já com o emperro dos
dias
de máquina vã
No patamar
uma garrafa de leite
- pequeno monstro
branco de sentinela
o mau hálito luminoso
da manhã
José
Gomes Ferreira em Poeta Militante, 3º volume
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
NOTÍCIAS DO CIRCO
Um Governo enrolado na tempestade
As próprias medidas iniciais anunciadas pelo Governo no célebre Conselho de
Ministros extraordinário, que ocorreu cinco dias depois da tempestade Kristin ter
varrido a zona centro, não são exactamente como Montenegro as comunicou ao
país.
O prometido Lay-off pago a 100% não existe: o Estado, afinal, só irá pagar dois
terços do salário.
O pagamento imediato de dez mil euros para a reconstrução de telhados mediante provas fotográficas não é bem assim: até cinco mil euros o pagamento é facilitado, mas entre cinco a dez mil euros exige vistorias e o dinheiro poderá demorar duas semanas a ser entregue.
Lê-se no editorial, de hoje, do Público, assinado por Helena Pereira
OLHAR AS CAPAS
Servidão e Grandeza dos Franceses
Louis Aragon
Tradução e nota
Preliminar: João José Cochofel
Colecção das
Três Abelhas
Publicações
Europa-América, Lisboa, Março de 1966
Nada nesta vida
é exactamente como se imagina. Não sei, na verdade, se Deus dispõe quando o
homem põe. De todo o coração gostaria de me tranquilizar, a capacitar-me de que
assim é. Mas, então Deus dispõe de modo bastante estranho…
REOLHARES
O
QU’É QUE VAI NO PIOLHO?
(Publicado em 18 de Abril de 2011)
Numa das cenas mais fortes – e elas são tantas - de "Apocalypse Now", esse extraordinário filme de Francis Ford Coppola, (1979), sobre a intervenção norte-americana no Vietnam, um coronel de cavalaria (espantoso Robert Duvall) diz para os soldados que o rodeiam:
“Adoro o cheiro a napalm pela manhã. Tem o cheiro da vitória.
Enquanto
monologa com os soldados que o rodeiam, os helicópteros atacam e destroem uma
aldeia vietnamita ao som da “Cavalgada das Valquírias” de
Wagner.
De
cócoras, em tronco nu, para além do cheiro a “napalm”, o coronel louco,
disserta sobre a onda perfeita para praticar “surf”.
A loucura, os ensandecidos personagens de uma guerra cruel, exemplarmente caracterizados e denunciados por Coppola.
Como é que um povo de anões conseguiu derrotar o poderio bélico dos Estados Unidos.?
“Empenhamos, nesta guerra, o nosso poderio e a nossa honra nacional, o Presidente Johnson em 1965.
Em Março de 2002, centenas de horas de conversas, gravadas na Casa Branca, foram tornadas públicas. Como esta de Richard Nixon com Henry Kissinger, seu secretário de Estado:
“Nixon: Mais valia usar
a bomba atómica no Vietname.
Kissinger: Isso, julgo,
seria ir longe demais.
Nixon: A bomba atómica
perturba-o? A única coisa em que nós discordamos é sobre os bombardeamentos.
Você está tão preocupado com os civis e eu estou-me bem nas tintas. Não me
interessa isso.
Kissinger: Preocupo-me com os civis porque não quero que o mundo se mobilize a acusá-lo de ser um carniceiro. Podemos ganhar a guerra sem matar civis.”
Cerca
de três milhões de vietcongs mortos, incluindo dois milhões de civis.
Cerca
de 60 militares norte-americanos mortos, grande parte negros e latino-americanos.
Foram gastos 220 mil milhões de dólares. Calcula-se que, para matar um
vietcong, os Estados Unidos gastaram 675 mil dólares.
Foram
transportados 10 milhões de americanos em aviões comerciais.
Foram
utilizadas 15,35 milhões de toneladas de bombas.
Ainda
hoje morrem vietnamitas, vítimas de minas e bombas não deflagradas.
Desconhecem-se quantas minas, bombas e obuzes continuam por explodir.
POEMA
Um sábio
não sabia fumar cachimbo
mas a mulher do sábio
sabia
quando o sábio chorava
por não saber fumar cachimbo
a mulher do sábio sorria
e assim durante meses e
anos
até que
no dia em que o sábio sabia que morria
não disse à mulher que sabia
por isso quando ele
chorava
a mulher do sábio sorria
António
José Forte
domingo, 15 de fevereiro de 2026
SOLTAS
Um quase princípio dos anos 70.
A
carreira de eléctricos nº 24 Praça do Chile-Carnide e vice-versa.
O
eléctrico com gente a deitar por fora.
É
quando uma senhora com um casaco de pele, 40/50 anos, se desequilibra e
estatela-se no «banco dos palermas», em cima de um homem de fato-macaco e
lancheira.
-
Credo! Monstros! Ninguém dá o lugar a uma senhora!
O
homem de ganga e lancheira diz-lhe:
- Olhe madame, eu saí
de casa às seis da manhã e estive a trabalhar em pé todo o dia e a senhora se
calhar vem do chá…
Fica um enorme e agudo silêncio na carreira do eléctrico nº 24 Praça do Chile-Carnide e vice-versa.
1.
O Presidente da República além do conforto às populações, pediu maior celeridade às companhias de seguros. Foram despachadas apenas 12 mil das cerca de 100 mil participações feitas à seguradoras.
Entretanto a situação de calamidade decretada pelo Governo a 29 de Janeiro nas zonas mais afetadas pela depressão Kristin, e duas vezes prolongada após novas tempestades, termina este domingo, bem como a isenção das portagens, apesar das reivindicações de vários municípios.
2.
Quando chatearam
a cabeça ao realizador daquele filme sobre um facto histórico, não sei quê os
historiadores isto e aquilo, o homem passou-se mesmo e berrou:
«Quando um historiador me chateia os cornos, eu
pergunto sempre: “olha lá, tu por acaso estiveste lá? Não? Então cala a puta da boca!»
3.
«Não, se desligar a TV a chuva não pára de cair, e não, não é por escrever isto
que se quer reduzir a importância da comunicação social em momentos de crise ou
da gravidade da situação que vivemos. Mas, acreditem, há mesmo alturas em que
vale a pena tirar os olhos do ecrã e olhar lá para fora. Quem sabe se não vamos
conseguir descobrir um pouco de azul.»
David Pontes de um editorial do Público.
4.
Alguém disse:
«Só existem milhares de influenciadores porque existem milhões de idiotas»
5.
Lido por aí:
«Está na hora
dos responsáveis editoriais da informação televisiva fazerem uma autoanálise,
porque o empolamento desproporcional de uma só força partidária, além de ser
prejudicial ao pluralismo e à democracia, não representa o espectro de
eleitores do nosso país. Eleição após eleição, o Chega perde, mas os média
preferem dizer que cresce, numa profecia de autor realizável. »
6.
O Jornal de
Notícias revela que "Há quem ligue
para o 112 a pedir pizas ou por falta de saldo no telemóvel".
7.
«Chuva, vento,
cheias, telhados pelo ar, lama entre os quartos e a cozinha, trânsito de barcos
nas ruas, gente desesperada e sem nada. Não há Governo. É preciso culpar alguém
para apaziguar a fúria dos deuses, queimar bruxas, crucificar estrangeiros. As
televisões estão prontas, as câmaras ligadas e em directo. O poder à
extrema-direita parece que lhe cai do céu.»
Rui Manuel Amaral no Bicho Ruim
8.
No meio das tempestades que assolaram o país, um empresário numa televisão, dizia ao presidente «daquela coisa» que nas dezenas de trabalhadores que a sua empresa possui, apenas um é português e que todas as empresas no país, sejam do que forem, precisam, como pão para a boca, dos trabalhadores imigrantes.
OLHAR AS CAPAS
Os Escritores e a Literatura
Madeleine
Chapsal
Entrevistas
Tradução:
Serafim Ferreira e Armando Pereira da Silva
Capa: Homero
Amaro
Publicações Dom
Quixote, Lisboa Abril de 1967
Se o escritor não se encontra ligado aos problemas da sua época, nada tem a contar. Mesmo que queira, não se pode encerrar numa torre de marfim. Não existe qualquer torre de marfim. O homem que se fecha, não poderá contar-se a si mesmo indefinidamente e, como não fará nada, terá muito pouco para dizer de si próprio… De outro modo, reflecte-se eternamente a si mesmo, reflectindo-se. O escritor, como homem, está necessariamente comprometido com qualquer coisa, mesmo quando não acredita.
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