quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

GESTOS

Gestos,

apenas gestos. A minuciosa ternura

posta nas coisas imediatas,

nas que duram contra a noite,

nas que acendem lâmpadas precárias

e contêm o silêncio, o silêncio,

como se música fossem

e nela nós viéssemos

perder.


Gestos,

tu ouves?

Nem o teu coração pode dar guarida

a tanto silêncio da terra.

 

Se agora mesmo devagar nos anoitecesse

e se, mergulhados numa aguda nostalgia

ou na recordação de um rosto,

nos desencontrássemos do mundo,

só esse gesto viria resgatar-nos,

a nós, feridos de amor e de sentido.

 

Por isso, hoje só posso dizer

o que o teu coração abandonou.


Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

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