quinta-feira, 16 de março de 2017

O PILOTO DA BARRA


Tinha o ar distante e austero de quem recebe
no rosto os ventos do mar, e se dizia uma palavra
só ele a ouvia. No canto da mesa onde estava,
olhando para as conversa e sacudindo
a cabeça por nada ouvir, fazia parte de outro
mundo. «Foi o rio que o pôs surdo», disse
alguém; «foram os gritos das gaivotas»,
corrigiu a mulher que saiu de ao pé dele e
atravessou a sala, com o olhar dos homens
a persegui-la. «Faz versos», disse-me
o amigo, «e guarda-os só para ele». A noite
continuava o seu caminho. A mulher
não voltou. E ele segurava o copo ainda
cheio de bagaço, como quem segura o leme
e não sabe quando, nem onde, irá chegar.


Nuno Júdice em JL, 29 de Maio de 2013

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