domingo, 12 de março de 2017

RECADOS


O ano de 2017, assinala o centenário do nascimento de Carson McCullers, 19 de Fevereiro de 1917, bem como o cinquentenário da sua morte, 29 de Setembro de 1917.

Cumprindo as efemérides, a editora Relógio d’Água, publicou O Coração é um Caçador Solitário, numa tradução de  Diogo Vaz Pinto, seguindo-se A Balada do Café Triste, Relógio Sem Ponteiros, Reflexos nuns Olhos de Ouro e Frankie e o Casamento.

As “vidas invisíveis” que se revelam em páginas de uma prosa que parece tocar o silêncio segundo as flutuações de um blues. O ambiente do sul dos Estados Unidos, onde Lula Carson Smith nasceu há cem anos - 19 de fevereiro de 1917 - e cresceu, morrendo meio século depois sem nunca ter despido o vestido de menina. Nos seus livros vive toda aquela infância presa entre acordes de desolação, e uma adolescência tremida, partilhada com essas personagens que atravessam a juventude povoando cantos sombrios, numa timidez bravia. Um catálogo de inadaptados: figuras que carregam alguma deformidade, física ou íntima, algum estigma social, os seres errantes, as vidas presas por um fio.
E há os sonhos vigiados de perto pela vergonha, as contradições próprias das zonas mais agrestes desses territórios beirando o fim do mundo. O isolamento e com ele a suspeita de tudo, as comunidades como meios de clausura e castigo moral, a intolerância racial, a subjugação das mulheres aos maridos com existências sumidas em fundo doméstico, tudo isso comparece nos seus contos e romances. A sua é uma literatura da defesa dos espíritos desfeitos pelo embate num mundo que preza a forma do quadrado em que as suas dimensões se encerram.


No catálogo da editora existe já uma selecção de contos de Carson McCullers traduzidos por Ana Teresa Pereira.

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