quarta-feira, 3 de junho de 2026

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Da pág. 412 do 3º volume da Biografia de Álvaro :

Das janelas das celas pouco se via, embora num poema de Borges Coelho se diga que «em dias claros vê-se a Nazaré.»  A presença do mar era uma constante e os poemas escritos pelos presos de Peniche fazem-lhe constante referência, quer como uma metáfora de liberdade, quer como fonte de perturbação, pelo seu ruído regular, do estado de espírito dos presos. A ambivalência de registos é ainda maior quando o texto é escrito por alguém do «exterior», como é o caso do poema de David Mourão Ferreira,

 

Abandono

 

Por teu livre pensamento

Foram-te longe encerrar

Tão longe que o meu lamento

Não te consegue alcançar

E apenas ouves o vento

E apenas ouves o mar

Levaram-te a meio da noite

A treva tudo cobria

Foi de noite numa noite

De todas a mais sombria

Foi de noite, foi de noite

E nunca mais se fez dia.

 

Ai! Dessa noite o veneno

Persiste em me envenenar

Oiço apenas o silêncio

Que ficou em teu lugar

E ao menos ouves o vento

E ao menos ouves o mar!

 

Este poema, cantado por Amália Rodrigues ficou conhecido como «Fado Peniche», e aqui o mar e o vento são vistos como sinal de vida e esperança.

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