Da pág. 412 do 3º volume da Biografia de Álvaro :
Das janelas das celas pouco se via,
embora num poema de Borges Coelho se diga que «em dias claros vê-se a Nazaré.» A
presença do mar era uma constante e os poemas escritos pelos presos de Peniche
fazem-lhe constante referência, quer como uma metáfora de liberdade, quer como
fonte de perturbação, pelo seu ruído regular, do estado de espírito dos presos.
A ambivalência de registos é ainda maior quando o texto é escrito por alguém do
«exterior», como é o caso do poema de David Mourão Ferreira,
Abandono
Por teu livre pensamento
Foram-te longe encerrar
Tão longe que o meu lamento
Não te consegue alcançar
E apenas ouves o vento
E apenas ouves o mar
Levaram-te a meio da noite
A treva tudo cobria
Foi de noite numa noite
De todas a mais sombria
Foi de noite, foi de noite
E nunca mais se fez dia.
Ai! Dessa noite o veneno
Persiste em me envenenar
Oiço apenas o silêncio
Que ficou em teu lugar
E ao menos ouves o vento
E ao menos ouves o mar!
Este poema, cantado por Amália Rodrigues ficou conhecido como «Fado Peniche», e aqui o mar e o vento são vistos como sinal de vida e esperança.
.jpg)
Sem comentários:
Enviar um comentário