sábado, 1 de agosto de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

ATIRAVA-SE PARA CIMA DAS CADEIRAS


O dia 3 de Agosto de 1968 acordou radioso de sol brilhante.

 Salazar passava um curto período de férias no forte de Santo António no Estoril.

Nessa manhã, o calista Hilário preparava-se para fazer o seu trabalho e Salazar, com o Diário de Notícias na mão, sentou-se numa cadeira de lona.

 Acabou por cair e bater com a cabeça nas pedras da esplanada do Forte.

 A governanta Maria de Jesus, e o calista logo acorreram para o ajudarem a levantar-se e Salazar pede que nada digam sobre a queda e que não chamem o médico.

 São variadas as versões sobre a queda de Salazar.

 Desequilíbrio?

 Descuido?

 A cadeira, por debilidade da armação de madeira ou da própria lona, não se encontrava nas melhores condições?

 A versão de Manuel Marques, barbeiro de Salazar:

 Tinha a mania de se sentar atirando-se para cima das cadeiras, dizem os seus próximos, opinião corroborada por diversos médicos que explicam que, aos 79 anos, e com uma vida sedentária como era a sua, por falta de musculatura nas pernas, teria tendência de se sentar num movimento de quem se deixa cair.

 Mas há fontes que rezam que nem cadeira havia e apenas aconteceu uma  daquelas  macacoas, a que qualquer homem, perto dos 80 anos, está sujeito.

 Mais: que o episódio ocorreu a 5 e não a 3 de Agosto.

 Com ou sem cadeira, a 3 ou 5 de Agosto o importante é que a queda de uma cadeira faz com que a vida de um país começasse a mudar.

 José Saramago, no seu livro Objecto Quase, descreve maravilhosamente este episódio da História portuguesa. Chamou-lhe Cadeira e, se ainda não conhecem o conto, podem lê-lo aqui.

Nas suas Memórias Rómulo de Carvalho relata  aos filhos dos netos dos meus netos, a queda do ditador Oliveira Salazar:

 Costumava o nosso homem, para descansar o corpo, e especialmente o cérebro, do assédio das preocupações da governação, sentar-se, olhando o mar, no isolamento pastosos de uma esplanada do forte de Santo António do Estoril, situado na linha das praias, a pouca distância de Lisboa. Aí, só, irremediavelmente só, aconchegava-se na cadeira de repouso, cerrava as pálpebras e dormitava na paz do Senhor, embalado pelo sussurro das águas.

Numa tarde de Agosto de 1968, Salazar, já com os seus setenta e nove anos, dirigiu seus passos lentos para a sua cadeira de descanso. Sentia-se cansado, certamente, e desejoso de abandonar o corpo àquele seu habitual conforto. Descuidadamente, com o à vontade de quem está só, Salazar deixou cair o corpo em peso sobre a cadeira. Foi um momento histórico. A cadeira estalou, partiu-se, desconjuntou-se e estatelou o corpo do ditador no lajedo do forte, enquanto as águas do Tejo, mansamente, se alongavam nas areias da praia sussurrando.

Texto publicado no dia 3 de Agosto de 2013.

Legenda: fotografia, datada de 1962, da autoria de Eduardo Gageiro.

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