domingo, 2 de agosto de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

ESCOLHEU A SOLIDÃO

Maria Ondina Braga
 faz parte do enorme lote de escritores caídos no quase (?) completo esquecimento.

Numa entrevista, de cortar o coração, dada à revista Ler, (Outubro de 1990), lamentava-se o quanto era maltratada pelos editores.

Atente-se:

O meu primeiro livro Eu Vim Para Ver a Terra foi um livro que me trouxe grande desgosto: saiu cheio de cortes e gralhas, o editor não me deu para revisão, os caracteres chineses apareceram até ao contrário!
Traduzi durante mais de dezanove anos, quase vinte, e hoje, ao lembrar-me disso, espanto-me. Traduções que me pagavam um ano e dois anos depois de as ter entregado, que, às vezes, uma editora (pelo menos) não me quis pagar. Isto já sem falar do pouquíssimo que pagavam todas. E não recebia nenhuma percentagem nas edições frequentemente sucessivas, nem quando o editor vendia o livro a uma organização editorial.
A minha sorte tem sido bem fraca: editores que não pagam os direitos de autor ou pagam apenas uma mínima parte, não dão à Sociedade Portuguesa de Autores a relação dos livros existentes, houve um que fez edições piratas a há depois os que abrem falência, o autor fica separado da sua obra, como aconteceu com a editora dos meus dois últimos livros, não pagou, o caso foi para contenciosos da SPA, que, por sua vez, também nada resolve. Nunca tive um editor que se empenhasse na promoção da minha obra e, como me não dão prémios, espanto-me até se la se vender.

Depois desta triste e lamentável atitude dos editores para com os seus autores, perguntaram a Maria Ondina Braga das razões de escrever:

Difícil para mim dizer a razão por que escrevo. Talvez porque espiritualmente isso me compensa um pouco da absurdidade da vida. O certo é que, se no princípio da minha carreira me fosse possível avaliar o preço por que ela me ia ficar, outra eu não escolheria. Através da escrita tenho conhecido gente agradável e de valor e tenho tido bons momentos. Eu propriamente não escolhi ser escritora. Quando em 1963, em Macau, escrevi Estátua de Sal, pensava lá em publicar um dia esse livro! Nada comigo nunca foi premeditado ou programado. Escrevo como vivo, à mercê das horas e dos dias, à mercê de mim mesma. E isto já é compensador.

Maria Ondina Braga morreu a 14 de Março de 2003.

Texto publicado em 22 de Janeiro de 2016.

Legenda: Busto de Maria Ondina Braga, na Avenida Central em Braga.

1 comentário:

Seve disse...

"Nada comigo nunca foi premeditado ou programado. Escrevo como vivo, à mercê das horas e dos dias, à mercê de mim mesma. E isto já é compensador."

Cavaco Silva ao contrário!