quinta-feira, 19 de março de 2026

VENTO GARRÔA


(Parque Eduardo VII, 1954)


Ouve-me tu, desta vez.

Nem cercos precários,

desvios que nunca se encontram

ou compromissos com o absoluto:

não quero mais coincidir

com o tempo,

agora que deixei de coincidir

com a minha língua.

 

Quero um amor que tenha

a lealdade de um cancro,

que alastre apenas dentro de mim

e me escolha os ossos

com dedos ligeiros mas demorados

de nódoa negra.

 

Diz-me o sentido

e seguir-te-ei,

de palavras levantadas contra o frio,

até chegar o som da espinha

quebrada como um livro

que se cansou de ser aberto.

 

Inês Dias em Resumo: a poesia em 2012

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