quinta-feira, 25 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Tampo Vazio

Raul de Carvalho
Colecção Círculo de Poesia
Moraes Editores, Lisboa, Dezembro de 1975

Como me mandam sempre
fazer o que não sei...
encho-me de pavor por não saber...
Penso depois que o necessário é preencher o tempo...
É o que tenho feito.
De qualquer maneira...
De todas as maneiras.
Às vezes penso que é bom trabalhar para os outros...
Que isso nos traz um grande alívio.
Que, enquanto temos o espírito ocupado com o que sobra ou enche o espírito dos outros,
nos vamos iludindo, esquecendo...
nos vamos apoiando.
Penso que precisamos, todos, de apoio.
Que, se Deus nos falta, falta-nos tudo.
E que é compreensível recorrer,
de vez em quando,
à estricnina.
Penso que, de manhã, se está, em geral, mais desperto.
Que é a hora melhor para iludir compromissos.
Para se esquecer que se acordou, e temos...
Penso várias e uma só coisa ao mesmo tempo.
Penso que tenho tido pouca sorte mas que assim era preciso.
E se ouço passos, tremo...
Penso que gostaria, tanto!, de ler um livro...
sem pensar em mais nada.
De ajeitar, delicadamente,
o lenço a minha mãe.
De viajar.
Penso que a vida nos reserva grandes coisas,
e que ainda estais a tempo...
Dou por mim a pensar de outra maneira:
que nunca chegaremos ao fim,
que não sabemos se queremos lá chegar,
e que, se a vontade nos escapa, temos vontade de tudo menos de morrer.
Porque algo, um pequenino motivo inconsciente, uma parte, minúscula, do nosso destino,
precisa atravessar as trevas, e viver!
Penso muitas vezes se acaso ser poeta não será outra coisa,
e que os versos que escrevo bem pode ser que estejam
me enganando...
Há forças que não sei explicar.
No que sempre acredito, duvido sempre -
observo-me - estou sempre de pé atrás...
Também eu, é verdade, senti deslumbramento
pela variedade multicolor dos canteiros,
pelos reflexos e mil jogos de cor da luz sobre a folhagem...
Parecia-me que a beleza perdoava tudo e a todos conferia majestade.
Hoje penso que não: que adoeci, que fui envelhecendo, que há poucos livros úteis, que, para sobreviver, temos de trabalhar... e que o trabalho sem amor
 mata.
Não penso já no amor, penso na morte.
Não na morte que a todos nos espera, a um canto do mundo, a um momento, não na morte final estou pensando agora.
Agora e a toda a hora penso na diária morte que atravesso e se atravessa em mim.
Nessa, sim, é que eu penso; irremediavelmente.
Porque a outra morte tem remédio ou, se o não tem, paciência...
Esta, sim, é que custa.
É que custa a carregar todos os dias,
peso morto.
Peso morto em que penso
sobre o tampo limpo.
Limpo e vazio

Sem comentários: