domingo, 15 de janeiro de 2023

CONVERSANDO


 Não podemos ser destrutivos ao ponto de dizer que a «Revista» do Expresso não tem ponta por onde se lhe pegue.

Há por lá uma secção «Planetário – No Caminho das Estrelas» da responsabilidade de João Pacheco, filho do poeta Fernando Assis Pacheco que morreu, prematuramente, à porta da Livraria Bucholz.

Numa das suas últimas colunas, João Pacheco disserta sobre Movimentos Improváveis:

«O prato do dia era ensopado de borrego à moda de Borba. Mas o que estava em causa naquela jogada arriscada era uma garrafa de Porto de 1952. A aposta fora feita à volta da mesa de bilhar opondo o maître da Casa do Alentejo ao narrador do livro “Requiem”.»

Regressei ao livro e apanho estas palavras:

«Aparentemente estou lixado, mas não me vou dar por vencido, é proibido o macê? O macê não, disse com ironia o Maitre da Casa do Alentejo, mas se o senhor rasgar o pano terá que pagá-lo. Está bem, disse eu, então acho que vou tentar um macê.»

Na Rua dos Anjos, em Lisboa, quase a cortar para a Almirante Reis, com o antigo Cinema Lyz na outra esquina, havia um café formidável: o «Ribatejano».

Café, restaurante, sala de jogos, do lado direito que tem entrava, venda de jornais, revistas e tabacos, engraxador por entre as mesas, um belo balcão.

O antigo Café Ribatejano,  no lado esquerdo o espaço da venda de jornais, revistas.
 

                                                       O antigo Café Ribatejano, o café e  o restaurante, a sala de jogos.

O café há muito que fechou portas e no seu lugar ainda está a Nortel – Utensílios e Equipamentos para Hotéis e Restaurantes.

Tantas horas que passei naquele café, a ler o Diário de Lisboa, um qualquer livro, o café era de «saco», tinha uma pastelaria fina e uns excelentes pastéis de bacalhau.

Acabada a leitura, rumava para a sala de jogos: damas, xadrez, bilhares, a três tabelas e snooker.

Na parede o aviso: «É proibido o macê».

O mesmo aviso existia na sala de jogos, no primeiro andar da Cervejaria Portugália.

Nunca tive habilidades para o bilhar, limitava-me a ver e gostava disso, pricipalmente o snooker.

Ainda o Requiem do Tabucchi:

«O Maitre da Casa do Alentejo tapou a garrafa e disse: o que fica é para quem ganhar, acho que chegou a altura de o senhor experimentar o seu macê.

Levantámo-nos e eu senti que tinha as peernas pouco seguras, pensei que naquelas condições era uma milagre se conseguisse acertar na bola, mesmo assim peguei no meu taco, passei o giz na ponta e fui até à beira da mesa de bilhar. Pus-me na ponta dos pés para atingir a bola de cima. A minha mão tremia ligeiramente, teria de precisar de um apoio, mas o macê joga-se sem apoio, de cima para baixo.»

João Pacheco, para ilustrar o texto, escolheu «Grande Masse», de 1933 do artista japonês NakagawaIsaku e adianta sobre o macê:

«O objectivo do jogador é picar a bola, mas esse malabarismo é muito arriscado, até para a saúde do panoi verde da mesa de bilhar. É também esse truque de bilharista que esta jogadora está atentar na gravura “Grand Masse”»

Por macê não poderia deixar de trazer aqui a loucura mansa de Alexandre O’Neill com o seu «É Proibido o Macê», que faz parte de «As Andorinhas Não Têm Restaurante»,  nº 7 da Colecção Cadernos de Literatura, publicado em 1970 pelas Publicações Dom Quixote, livro que levou sumiço da Biblioteca da Casa:

 «Satisfeita a malvada, Datuatia mete o último preso na enxovia, passa a a língua pelo teclado e pelas gengives e diz que este do carvoeiro é que sim, é que pinta. Observada uma aflita à velha, que tem os pintores escondidos atrás do Sagrado Coração e está a dar carapau ao Benfica, Datuatia pega na albarda, resmunga «tèlogomãe». «Não venhas tarde» cacareja a velha num arrasto neopopulista de varizes.

Ao passar pelo Vicente, Datuatia traqueja e diz para a velha das castanhas «troque-me este em miúdos!» e ri-se como um selvagem. A tiazinha fica-se a dar ao abano, como que a espalhar o petisco com que Datuatia a mimoseara. «Que vá gozar a patusca da mãe dele» diz a tiazinha de mistura com outras gentilezas de fazer corar o mais conspícuo, mas já Datuatia virara a esquina na bruta gáspea.

Em menos duma loja de barbeiro, Datuatia chega aos Bilhares, atira o cabedal para uma cadeira, põe a pata em cima do verde e declara que dá quinze às cinquenta a qualquer dos èpás que por ali se coçavam. «Prajá» disse um deles. Chamaram o Rentàterra, que em três trrrins tirou as bolas, depositou-as em cima do verde e preveniu pela estafadésima vez os èpás que era proibido o macê.»

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