«Esta imagem é uma imitação das que Trump publica todos os
dias e em que se apresenta com diferentes trajes e posturas, desde Jesus Cristo ao Capitão América. Se vivêssemos num mundo
normal, o narcisismo patológico de Trump já o teria levado a ser internado numa
instituição para doentes mentais. O homem mais poderoso do mundo está louco, certificado por muitos médicos e psiquiatras, e
a sua loucura tem aberto um caminho perigoso para tornar os EUA uma ditadura, e
dado origem a muitas mortes, destruição de vidas e famílias, invasões,
vinganças, ameaças e uma perturbação mundial dos equilíbrios geoestratégicos
sem qualquer ideia de fundo, mas apenas caos e errância. O pior retrato dos
anos que vivemos é esse homem poder continuar a estragar as poucas coisas que
as democracias e o primado da lei e do direito tinham adquirido, poucas coisas,
mas raras e boas, no meio de um mundo que já era, em si mesmo, muito mau. Trump
valorizou todas as coisas más e está a destruir as boas.
André Ventura é o nosso discípulo de Trump. Tem muito de comum com Trump, a
violência, a crueldade, o conteúdo vingativo contra os mais fracos, o combate à
empatia, nos dias de hoje, um programa anticristão, criticado com severidade pelos bispos portugueses e pelos Papas. O “Deus” da legenda
no cavalo é mais o do Jeová do Antigo Testamento e menos o de Cristo no Novo,
ou melhor ainda não é Deus nenhum, porque o “Deus” é o que está a montar o
cavalo.
O título que dei a este artigo, a prova de que o ridículo não mata, aplica-se à
letra. Para além da enorme prosápia, tudo está errado nesta imagem. O grande
anacronismo é obviamente a bandeira jacobina, que, mesmo sendo a nossa bandeira
nacional, tem uma história e um conteúdo totalmente incongruentes com o
cavaleiro e cavalo, as duas imagens mais fortes. Convém lembrar que, quando a
República escolheu a actual bandeira, muitos republicanos e monárquicos ficaram
furiosos pelo abandono do branco e azul. Não tenho nenhuma dúvida de que, se
esse debate fosse hoje, Ventura estaria com os monárquicos contra a bandeira
“ideológica” da República.
Compreende-se, a actual bandeira nacional recupera a bandeira revolucionária do
31 de Janeiro e do 5 de Outubro, com origem na Carbonária, escolhendo o verde,
a “cor que, segundo Augusto Comte, mais convém aos homens do porvir”, como se
diz no relatório oficial da bandeira. Comte e o positivismo, Carbonária,
República revolucionária, pouco têm que ver com o “Deus, Pátria e Família"
e com o programa político do cavaleiro medieval que a segura. Na verdade, valia
mais usar a bandeira da Mocidade Portuguesa.
Como a imagem foi feita com inteligência artificial e ninguém tinha a cultura
mínima para a rever, os erros abundam. O castelo de fundo nada tem que ver com
os castelos medievais, mas sim com os pastiches românticos que vão desde Sintra
à Penitenciária de Lisboa. Mas, na verdade, a ideia dos pastiches, se calhar,
tem todo o sentido. A procissão que aparece ao lado tem também anacronismos
semelhantes. Liderada pela bandeira jacobina, atrás vão as cruzes. Pode ser
liberdade poético-política, mas estas falsificações têm um significado.
Mas é Salazar a sua inspiração, como se vê nesta imagem,
toda ela um programa: homem a regressar do trabalho no campo, a mulher a
cozinhar, o filho vestido da Mocidade Portuguesa e a cómoda com um pequeno
altar. Este é o mundo imaginário do Chega e de Ventura, e mais valia admiti-lo
na sua inspiração salazarista sem rodeios.
Quanto ao significado do conjunto da imagem de Ventura, tenho mais sugestões
para novas imagens: D. Miguel, um Inquisidor, Salazar, Silva Pais, e muitos
outros, dos protagonistas da ditadura aos Integralistas Lusitanos, os
cavaleiros da Monarquia do Norte, etc., etc. Hesitei em sugerir Miguel de
Vasconcelos, em parte uma provocação que não vale a pena, mas por outro lado
mais certeira, porque Miguel de Vasconcelos era um patriota dos espanhóis, e
Ventura e o Chega são patriotas dos americanos de Trump e fecharam os olhos à
nossa soberania teórica da base das Lajes.
O que isto tudo revela é que esta política do cavaleiro branco vai ao mais
fundo da nossa ignorância e que, se Ventura quer fazer de cavaleiro medieval,
talvez se arranje uma máquina de viajar no tempo para o enviar para o século
XIV, uma época, apesar de tudo, complicada pelas jacqueries que não gostavam
deste tipo de cenas. Essa máquina chama-se crítica política, voto e primado da
lei, democracia.»


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