Textos Avulsos, Inéditos e Dispersos
Luiz Pacheco
Edição de Rui Sousa e
Sofia A. Carvalho
Com apoio à edição de
Pedro Meneses e Sofia Casaleiro Roque
Capa: P. Serpa
Edições Tinta-da-China, Junho de 2026
Há só mar e sol no meu país. O Senhor fez as contas todas e deu‑ -nos isto: mar e sol. Nos mais pobrinhos (para o abençoarmos), piolhos para catar e muita ignorância e muita paciência que o tempo sobra. Saio à rua de manhã quando o sol já aquece. Sabe tão bem um calorzinho destes! (obrigado). Coisa maravilhosa: ao fundo no largo enorme canta um menino, o menino do cego. Sou positivo: nunca dou esmolas a cegos, por mais cegos, que toquem mal, assim como assim ser cego-tocador é uma profissão como outra e requer duas coisas: Ser cego (secundária, basta a aparência e a gente comove-se que aquilo podia ser conosco); tocar (essencial, pago a música donde ela me vier). Ora, coisa maravilhosa: aquele cego guitarreava estupendamente e a criança cantava um fadinho com a sua vózita de menina, mas tão pura nos seus agudos e tão entoada. Venham os tais os que duvidam do povo: estava toda a gente enlevada no cego com o menino, estava toda a gente diferente. E para fechar o quadro, só mais isto: veio o vèlhote e disse: — Então tu não cantas a tua cantiguinha? (era a altura do menino receber as esmolas e o vélhote viera atrasado). Mas o menino iria repetir o fadinho logo ali na outra esquina. A rua encheu-se outra vez de beleza. Que tudo isto aconteceu.

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