terça-feira, 6 de outubro de 2026

AREEIRO

O sinal vermelho, o carro

travado. À esquerda, a bomba de gasolina;

à direita, a gaiola equívoca.

Duram um minuto e meio,

a minha espera

e os contos que me visitam,

rápidos monogramas em ponto cruz

dessa louca sem nome.

 

Morou ali no tempo

Em que a cidade acabava antes.

Gritava no corredor

que era um pássaro, nascia de manhã

com asas, as penas caíam-lhe à mesa.

Ao fim do dia, abria-se a porta

da varanda. Arrancou

e comeu todas as petúnias brancas.

Depois, o bordado caído

e os olhos atirados para o céu,

por onde hão-de passear estes aviões

agora. Presos: o tecido no bastidor e o ar no peito

(ao contrário daquele que ainda circula –

a única coisa que as grades não podem segurar).

 

Margarida  Ferra em Curso Intensivo de Jardinagem

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