domingo, 2 de fevereiro de 2020

FUI SEMPRE DESCRENTE DE MIM MESMO


António ramos Rosa escreveu da melhor poesia portuguesa contemporânea.

Um homem amável que viveu quase sempre com imensas dificuldades económicas. agarrado a uma saúde muito débil.

De manhã escrevia os seus poemas, à tarde desenhava e elaborava as suas críticas literárias, traduzia, escrevia cartas aos seus pares e essa é uma parte importantíssima do seu espólio.


Grande parte das fotografias de Ramos Rosa mostram-no sempre rodeado de livros, jornais, papéis e desenhos.

Gosto muito de António Ramos Rosa.

Vergílio Ferreira também.

Ao longo dos volumes da sua Conta-Corrente, Vergílio Ferreira tem algumas referências a António Ramos Rosa.

Esta pertence ao 1º volume, foi escrita a 26 de Fevereiro de 1969, uma quarta-feira:

«Conversa pró-prandial com o Ramos Rosa num café. Que personagem curiosa este grande poeta. Claude Roy disse dele, salvo erro, que lembrava um Quixote surrado. Enganou-se de mundo, anda aqui por se ter distraído. Porque ele nasceu para viver noutro lado onde não haja regras de trânsito, de disciplina, de subsistência. De modo que faz um esforço enorme para se acomodar. Um grande achado para ele foram as práticas do ioga ou coisa que o valha. O mundo em que circula desarranja-lhe os mecanismos interiores. E toda a sua preocupação é consertá-los. Mas ele a compor e a realidade a estragar. Quando julga que venceu, fica radiante. Dias depois volta à oficina com o psíquico esmurrado. Não chegará nunca a tirar a carta de condução no mundo. Hoje trazia outra descoberta: mastigar interminavelmente um pedaço de alimento até sentir vómitos. Isso lhe afinaria o sabor para recuperar um paladar originário. E ria. E estava feliz. Nós alimentamo-nos tão estupidamente, com um paladar tão encortiçado. Ele quer restaurar , o sabor que deve haver talvez do lado de . Encantado com a descoberta. E eu com o encantamento. Adorável poeta. Extraordinário poeta.»

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