sábado, 18 de julho de 2020

ANTOLOGIA DO CAIS


Para assinalar os 10 anos do CAIS DO OLHAR, os fins-de-semana estão guardados para lembrar alguns textos que por aqui foram sendo publicados.

PIEDOSA MENTIRA

Eu tenho um prato do Benfica…!

É claro que já estou a ouvir as más-línguas do costume a  dizer:  “lá vem este chato dar-nos cabo do juízo com os seus vómitos… Porque não se cala…?” …

Mas garanto-vos que é a pura verdade e que não me estou a preparar para gozar o prato à custa do Benfica…

A imagem comprova que vos falo verdade…

Acredito que estão maravilhados…

Mas, certamente, não tão maravilhados quanto eu próprio fiquei, quando ele me foi oferecido, há muitos, muitos anos atrás. Primeiro, porque era um puto de cinco ou seis anos,  e tudo o que fosse oferta me caia bem; mas, sobretudo,  porque o prato tinha, na altura,  um colorido e um brilho magníficos, que hoje, em parte,  já  se perderam…  Era feito com aqueles pozinhos brilhantes utilizados nas artes manuais e parecia que até no escuro dava luz.

Tem, apenas,duas inscrições: uma que diz  S.L.B. em letras  grandes; outra, Oferta da Piedade escrito de uma forma mais singela.

No meio, dois pequenos losangos, um com um emblema do Benfica e outro com uma fotografia minha de mão dada, ou perto disso, com uma miúda da minha idade, sobrinha da melhor amiga da minha Mãe.

Agora que já acreditam em mim, estou certo de que irão gostar de  conhecer o resto da história… Mas isso irá obrigar-nos a um longo flash-back de mais de 50 anos.


Na altura (1957, 1958…) morávamos numa grande casa  entre o Campo Pequeno e Entrecampos, no local onde se foi instalar, depois, a Feira Popular. A casa tinha dois andares e um grande pátio para a frente e outro para as traseiras (se vos falo nesses pormenores não é por preciosismo, mas por serem importantes para a nossa história…).

Nessa época, que me lembre, não tínhamos nenhuma Empregada residente, mas tínhamos uma – a Piedade – que entrava de manhã cedinho e saia ao final da tarde.

Quem a levava e a ia buscar era o marido, um tipo alto, magro, com ar simpático e bonacheirão, que se chamava Júlio e a quem eu chamava Gungun, não de forma carinhosa, mas por, quando ainda muito miúdo,  não saber dizer o nome de outra maneira. Depois ficou sempre assim, tal como a prima Lena ficou  Bábá  durante muitos anos.

O Júlio/Gungun foi o primeiro da enorme multidão de benfiquistas que se me atravessaram no caminho ao longo da vida.

Mas o Júlio tinha uma particularidade: era um benfiquista talvez ainda mais ferrenho do que todos os outros e meteu-se-lhe na cabeça que haveria de fazer de mim o mais fanático dos benfiquistas à face da Terra, depois dele, claro está…

Desde tenra idade que me  habituei aos nomes dos principais atletas e aos gloriosos feitos do glorioso clube. O nome de Alves Barbosa, por exemplo, era-me bastante mais familiar do que o da maior parte dos meus próprios familiares directos…

O Júlio chegava a casa - recordo-me sempre dessas ao fim da tarde, porque de manhã devia estar a dormir -   e berrava para mim naquele casarão enorme: “LUIS MIGUEL (ou LUISINHO, já não me lembro bem como é que ele me chamava…), QUEM  É O MAIOR…? E eu, estivesse  onde estivesse, tinha de vir a correr para lhe responder, a boca colada  junto aos  joelhos: “É O BENFICA GUNGUN!,  É O BENFICA!,… O BENFICA”…

A cena repetia-se diariamente e, às vezes, entretido nas minhas brincadeiras de criança, apanhava verdadeiros sustos com aquele vozeirão.  Todo o meu nervosismo e, seguramente, a  gaguez que me acompanhou durante muitos anos e ainda se manifesta de quando em vez, tiveram certamente aí a sua origem…

Ultrapassada que foi essa fase de doutrinação na História,  nos nomes e nas palavras-de-ordem, passámos então, digamos assim, a uma fase mais prática. Passei a ir ver os jogos ao vivo no Estádio da Luz, com o bom do Júlio e  com a Piedade, adepta quase tão fervorosa quanto ele…

A primeira vez que me lembro foi um Benfica – Porto, que me parece que o Benfica ganhou por 1 – 0, com um golo de cabeça do Águas. Apesar de puto, tinha sido tão massacrado que já sabia muito bem, nessa altura, que no mundo da bola  não havia cabecinha  como a do José Águas…

A última, já mais crescidote e a única que me lembro de ter sido à noite para a então chamada Taça dos Campeões Europeus, um Benfica – Feyenord que o Benfica ganhou por 3 – 0 ou por 3 – 1, já não me lembro ao certo. Mas três foram, de certeza…

No entretanto, não sei dizer ao certo mas devo ter ido à Luz pelo menos  uma boa dúzia de vezes,  e ficava, quase sempre, de fim-de-semana em casa deles.

Mas  o problema é que o Júlio e a Piedade moravam em Odivelas e, mais tarde, em Camarate e não tinham carro (lá mais para o fim lembro-me que até já tinham um  muito velho, mas não o levavam para o Estádio…). O que significava  que tínhamos de ir de transportes públicos até ao cimo do Campo Grande e depois …  a butes até à Luz . Ida e volta…

E não pensem que a 2ª Circular de então era a beleza que é hoje… No início, nem sequer existia o viaduto  sobre a Estrada das Laranjeiras e tínhamos de descer lá para o fundo e voltar a subir em direcção ao Estádio. Lembro-me de ter feito esse caminho debaixo de chuva e com tudo enlameado à minha volta, provavelmente já resultante das obras do viaduto…

A ideia que tenho, desse tempo, é que ir à bola não me desagradava de todo (devia comer um gelado ou beber  um pirolito…), mas nunca constituiu,  para mim, um prazer muito especial. Muito longe, por exemplo, da magnífica obsessão que já era, na mesma altura, uma ida ao Cinema…

Mas aquela caminhada para a Luz era demasiado cansativa…

E esse  prazer  inicial  transformou-se em obrigação, a obrigação em suplício, o suplício em tortura e tudo isso junto me aguçou o engenho para inventar  enormíssimas dores de barriga ou inadiáveis obrigações escolares de cada vez que se adivinhava um convite para o Paraíso da Luz…

Eles devem ter percebido…

A Piedade, entretanto, deixou de trabalhar para a minha Mãe e assim terminou, de forma inglória, a minha curta carreira de maior benfiquista à face da Terra (depois do Gungun, claro está…)…

A oferta do prato, já o adivinharam, vem desses tempos de doutrinação ideológica.  Não sei de quem  terá partido a ideia de oferecer um prato do Benfica ao miúdo, se da Piedade se do Júlio, mas para o caso pouco interessa. Quem  fez a obra  foi o Júlio, que era o verdadeiro artista…

Mas houve uma coisa que sempre me intrigou neste prato…

Havendo tantas fotografias minhas em nossa casa, e sendo, na altura, o futebol uma  coisa de Homens, porque carga d’água foram eles escolher uma fotografia onde eu apareço acompanhado por uma rapariga…?

Dei comigo a fazer as minhas próprias suposições…

Será que o Júlio quis associar ao Benfica uma ideia de Paixão, assim simbolizada por aqueles dois miúdos de mão dada…?  Até é possível que eles  dissessem  na altura, por brincadeira,  que a Natalinha – assim se chamava a pequena  – era a minha namorada…

Ou será que o prato, assim bonito e reluzente, não simbolizaria mais, afinal,  do que a Paixão do próprio Júlio pela Piedade, e eu e a Natalinha não passássemos de um mero pretexto para a ilustrar…?  No dia-a-dia era, aliás, bem perceptível que o Júlio tinha uma autêntica devoção pela  Piedade, que não ia sem ela para lado nenhum e (isso digo eu agora, claro está…) o simples facto de a ir levar e buscar todos os dias poderá demonstrar grande preocupação da parte dele  em que ela não se perdesse pelo caminho…

Jamais o saberei e, agora, pouco importa. Prefiro pensar que o prato foi feito só para mim,  embora me continue a irritar  o facto de estar acompanhado, e não sozinho, nessa fotografia…

Guardei esse prato religiosamente ao longo dos anos e, perdido que deverá estar, para sempre, o xailinho azul bebé onde me enrolavam em pequenino, ele constitui uma das minhas duas únicas recordações materiais  desses tempos de tenra idade. A outra é o prato onde comia a sopa, bordejado de bonequinhos e que já está, hoje, em poder dos meus netos, seus legítimos herdeiros.

Mas o que eu gostaria hoje, verdadeiramente, era de poder dar um enorme, um enormíssimo abraço à Piedade e ao Gungun…

Há uns anos atrás, ao contar está história, alguém me falou que o Henrique Mendes tinha um programa na SIC cujo objectivo era, precisamente, encontrar pessoas desaparecidas… Mas nem eu teria  lata para aparecer na SIC com um prato na mão, nem eles, certamente ávidos de histórias de ciúmes, traições, vinganças familiares, cenas de faca e alguidar, iriam alguma vez dar importância a esta minha preocupação…

Dei comigo, por isso,  a imaginar a minha própria  história…

Era um Domingo de muito sol, o Estádio da Luz estava  bem composto e, ao intervalo, o Benfica já ganhava por  três a zero (vão perceber que, para a história funcionar bem, o dia tem de estar bom e o Benfica tem de dar uma cabazada…).

Durante o intervalo o simpático Speeker de serviço faz uma pausa no discurso habitual e lança uma desafio à multidão:

“Porventura está entre vós alguém que se chama Júlio,  mora ou morou para as bandas de Camarate,
é ou foi casado com uma Senhora chamada Piedade que trabalhou a dias num lugar que se chamava
Mercado Geral de Gados, ali perto de Entrecampos,  onde depois foi instalada  a Feira Popular…?

Se sim, pede-se a gentileza de se dirigir no final do jogo à estátua do Eusébio,  porque alguém Amigo lhe
deseja fazer uma boa surpresa…

Obrigado!”

(ouvem-se palmas, porque quando o Speeker da Luz fala há sempre palmas, excepto para o árbitro e para os
jogadores da equipa adversária…)

A tarde continuava magnífica, o Benfica ganhara por  7 – 0 e foi sem qualquer tipo de esperança que me dirigi, no final do jogo, para a estátua do Eusébio,  com o meu prato cuidadosamente embrulhado debaixo do braço…

Esperei imenso tempo, bastante mais do que seria razoável… Várias vezes estive para me ir embora,  mas uma voz cá dentro dizia-me sempre para  esperar um bocadinho  mais, que diabo, já que me tinha dado a tanto trabalho…

Já o sol ia baixo  quando vi surgir, ao longe, aquela figura alta e magra, embora um pouco curvada, que parecia andar muito devagarinho apoiada numa bengala. Naquele contraluz, era mais uma sombra que caminhava lentamente,  mas não tive a mais pequena dúvida de que era ele…

Deixei-o avançar um pouco mais e então aproximei-me  e chamei-o pelo nome. Acenou-me que sim com a cabeça e ficou  a olhar para mim com um ar interrogativo.

Disse-lhe quem era e ele lembrava-se de mim, talvez porque tivesse levado aquele tempo todo, desde o intervalo do jogo, a pensar no Mercado Geral de Gados…

Depois de um longo abraço, perguntei-lhe se queria tomar alguma coisa e ele respondeu-me que uma tacinha de branco e uns pastelinhos de bacalhau  o deixariam já muito bem  jantado.

Sentámo-nos no sítio mais sossegado que consegui encontrar e perguntei-lhe, de imediato, pela  Piedade.

Uma lágrima ao canto do olho respondeu por ele, muito antes das suas próprias palavras… Tinha-lhe desaparecido  há vinte anos  anos atrás, numa morte estúpida. Uma queda num alçapão num armazém do Catujal, onde trabalhava. A queda não fora grande, mas a forma como batera com a cabeça e o pescoço fora-lhe fatal… Morte instantânea e sem sofrimento, ao menos isso…

Lamentei a situação e procurei mudar de conversa.

Perguntei-lhe se ainda vinha à bola com frequência e respondeu-me que não, que vinha muito raramente, quando o tempo estava bom e o jogo não fosse de grandes sustos, porque a máquina já não lhe funcionava da mesma maneira… E as pernas sempre foram o seu calcanhar de Aquiles… Usava bengala não por absoluta necessidade, mas por prudência… Andava sempre devagar, mas não necessitava de grande apoio. Mas um dia, na confusão das entradas do estádio, foi empurrado e caiu desamparado no chão… Serviu-lhe de emenda e, a partir daí, foge das confusões … Vê os jogos no café do bairro e quando vem ao estádio, para matar saudades, traz sempre consigo a  bengala para se apoiar melhor. Às vezes embirram com ela à entrada, mas acaba sempre por conseguir passar…

Falava lenta e pausadamente, e comia, também, muito devagar, saboreando com prazer.

Perguntei-lhe o que tinha feito na vida  e contou-me que tinha montado um negócio de serralharia perto de casa, que lhe tinha dado para viverem os dois sem problemas,  já que nunca tinham conseguido ter filhos. O negócio dava o suficiente para a  Piedade não ter necessidade nenhuma de trabalhar, mas ninguém a aguentava parada em casa…

Ele próprio tinha trabalhado até muito tarde porque, sobretudo depois da Piedade lhe ter desaparecido, estar parado era o pior que lhe poderia acontecer.

Mas a partir do momento em que a vista começou a piorar e as pernas a pesarem-lhe ainda mais, passou o negócio e ganhou um dinheirito que lhe vai chegando para as necessidades, que também já não são muitas…

Continua a viver na mesma casa de Camarate que eu conheci, embora lhe tivessem feito grandes obras. É lá que se sente bem e é lá que continua a sentir a companhia da mulher. Acontece-lhe muito ouvi-la na cozinha a arrumar a loiça, mas é sobretudo à noitinha, antes de se deitar, que ela se vem sentar no sofá junto dele para dois dedos de conversa.

Os vizinhos mais antigos já lhe disseram que, qualquer dia, tem de pensar em vender a barraquita e ir para um Lar, para estar mais acompanhado. Mas dali ninguém o tira… Se tivesse de sair de casa morreria mais depressa do que o Cardozo levaria a fazer uma desmarcação dentro da área, disse-me ele, esboçando um ligeiro sorriso…

Deixei-o acabar de comer e percebi  que lhe soube bem.  Café  já não tomava à noite, mas aceitou acompanhar-me num Licor Beirão, para comemoração do nosso encontro.

Confesso que hesitei bastante antes de avançar, atendendo às circunstâncias… Mas convenci-me a mim próprio de que ele haveria de gostar…

Enchi-me então de coragem e, com toda a cautela,  mostrei-lhe o prato e perguntei-lhe se isso o fazia recordar  alguma coisa…

Deixei-o a olhar durante algum tempo e depois pousei a minha  mão sobre o seu braço e agradeci-lhe, comovidamente, o ter feito de mim benfiquista desde  pequenino..

Quanto voltou a levantar o olhar na minha direcção as lágrimas estavam lá, mas também lá estava, estampado  no rosto, o mais belo sorriso com que me brindou durante todo esse  tempo em que estivemos juntos…

E fiquei, então, com a certeza absoluta de que foram essas minhas palavras, e não a exibição e a goleada do Benfica, o que lhe fizera  ganhar verdadeiramente o dia, nessa tarde.

Texto de Luís Miguel Mira

Publicado em 29 de Janeiro de 2012

2 comentários:

Seve disse...

Que linda e fascinante história!

Estes momentos inesquecíveis tornam-nos mais humanos.

Na era dos telemóveis ainda haverá espaço para os meninos viverem momentos tão sublimes?
Lembram-me o filme "Cinema Paraíso".
Obrigado Sammy!

Sammy, o paquete disse...

Caro Seve: o obrigado será enviado para o Luís Miguel Mira que é o autor desta história maravilhosa. Neste momento anda algures em férias cá dentro, porque a pandemia lhe deu cabo dos planos para mais uma viagem à América para mais deslumbres, mais conhecimentos, mais crónicas.