quarta-feira, 2 de setembro de 2026

CRONICANDO POR AÍ


A primeira vez que conheci  Fernando Hedgar da Silva, impressionou-me. Há cerca de 13 anos, eu e os meus colegas do PÚBLICO estávamos na Guiné-Bissau para contar publicamente, pela primeira vez, a história dos filhos que os militares portugueses fizeram com mulheres guineenses, angolanas e moçambicanas durante a Guerra Colonial (1961-1974) e que deixaram para trás — órfãos de pais vivos. Desde então, conheci mais de uma centena de filhos como Fernando, mas ele deixou uma marca. Impressionou-me muito a sua inteligência, a sua clareza de raciocínio, a sua combatividade, mas também a enorme mágoa e raiva que carregava em si.

Até à juventude, Fernando viveu convencido de que o pai português — um ex-militar que tinha estado na Guiné-Bissau durante a guerra — se chamava Furriel, que furriel era nome próprio, como António ou Luís; era o que a mãe, que não sabia ler, lhe transmitira. E era quase tudo o que sabia sobre o tal português que passou toda a vida a tentar descobrir, que queria a todo o custo conhecer para lhe dizer, cara a cara, que “um pai não abandona um filho”, e ele sabia-o, era pai de 13. Do tal militar também sabia que estivera colocado no quartel de Teixeira Pinto (hoje chamada Canchungo) e que, como ele próprio nascera em 1968, tinha de estar lá colocado pelo menos nove meses antes; a mãe, a guineense Sabadozinha Mendes, vivia numa casa nas traseiras do quartel.

Fernando, que era camionista, teve um AVC no ano passado, ficou com sequelas, morreu aos 58 anos, no Hospital de Canchungo. A sua morte prematura é mais a regra do que a excepção num país onde poucos chegam a velhos. Segundo a Organização Mundial de Saúde, só 4% ultrapassam os 65 anos.

A sua morte pôs-me a pensar no que conseguiu e no que não conseguiu. Foi dele a ideia de dar forma a uma espécie de família informal, criando, em Bissau, a Associação Filho de Tuga, da qual era presidente, onde todos se dizem sentir irmãos, filhos do mesmo pai: o longínquo Portugal. "Filho de tuga" é o nome colectivo pelo qual continuam até hoje a ser conhecidos na Guiné-Bissau; por vezes, há até quem os chame de "restos de tuga".

Encontrei insultos parecidos com este nas viagens que entretanto fiz para contar esta mesma história em Moçambique e Angola; também aí estes homens e mulheres, filhos de mãe africana e pai português, são até hoje vistos como “sobras” do colonialismo português, os últimos filhos mestiços do império. Ainda lhes chegam aos ouvidos frases como "volta para a tua terra" ou "vai para a terra do teu pai". Hoje sei que há milhares de homens e mulheres como Fernando.

Por iniciativa dele, todos os anos, no dia 1 de Novembro, os filhos da associação guineense organizam o que ele quis que se ficasse a chamar Cerimónia de Homenagem ao Pai Desconhecido. Nesse dia, deixam colectivamente uma coroa de flores junto às campas dos militares portugueses mortos durante a Guerra Colonial que nunca foram trazidos para Portugal, abandonados também eles. Fernando explicou-me que, simbolicamente, aqueles homens mortos sempre foram o mais próximo que todos eles estiveram dos pais portugueses vivos. O Cemitério Militar de Bissau foi, para muitos deles, o primeiro sítio onde foram procurar o pai e é lá que alguns deles continuam a ir para sentir essa proximidade.

Lamento não ter feito mais por Fernando, além de contar a sua história no meu livro Furriel não É nome de pai e na série documental da RTP1 Filhos de tuga. Ele queria mais, queria que eu o trouxesse para Portugal. O seu grande sonho era, além de procurar o seu pai sem nome em todos os arquivos possíveis, passar os dias sentado pacificamente em frente da Assembleia da República portuguesa, com um cartaz a dizer "Eu sou Filho de Tuga. Sou português", até lhe darem a ele e aos seus o direito de, ao menos, verem o sofrimento e discriminação de uma vida compensado pela nacionalidade que sempre foi usada para os insultar. Fernando queria ser “tuga” por inteiro. Os seus “irmãos” continuam a querê-lo.

Catarina Gomes, Público 24 de Agosto.

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