terça-feira, 5 de outubro de 2021

O MEU AVÔ E O HOMEM DA BANDEIRA


 O me

O meu  avô paterno foi uma das referências da minha vida de criança e adolescente.

Sempre que necessário, apresentava-se assim:

«Mário Santos, republicano histórico, benfiquista e anticlerical.»

Todos os anos, pelo 5 de Outubro, subia ao Cemitério do Alto São João, depois à Praça António José de Almeida para uns «Viva a República».

Morreu em 1968, com 93 anos.

Foi um dos muitos que morreu sem saber qual a cor da liberdade.

Estava na Praça António José de Almeida, quando, no 5 de Outubro de 1958, a PIDE prendeu o General Humberto Delgado.

O meu pai dizia-lhe que ele devia deixar-se dessas romagens que não conduziam a nada.

«Dizes tu! Eu e o homem da bandeira nunca falhamos!»

Referia-se a um republicano que, no 5 de Outubro, aparecia com uma grande bandeira portuguesa. Esse chegou a ver a cor da liberdade e, depois de Abril, foi militante do Partido Socialista.

O meu pai morreu em Junho de 1990.

Num 25 de Abril, 1988 (?), o meu pai whiscava, eu gintonicava, Cecília Bartoli, em fundo, cantava Vivaldi, discorríamos sobre os tempos idos, dos que estavam para chegar e ele batia na tecla de que o 25 de Abril acabaria nas mesmas evocações-quase-solitárias do meu avô e dos companheiros republicanos históricos.

Sucedeu nascer um desesperante silêncio, agitei o gelo no copo, olhei a rodela de limão, murmurei para dentro de mim que o meu pai era capaz de ter razão, mas deixei o silêncio escorrer…

Que nada perturbe esse silêncio… ainda estou a ouvi-lo… e numa, difusa, vagamente avermelhada, imagem, admito ver o meu avô e o homem da bandeira…

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