«Há um grito de alerta que deve ser dado para que não se perca a memória e a experiência que estão ligadas à casa de António Sérgio, na Travessa do Moinho de Vento, em Lisboa. Muitas vezes, as reformas no papel, sobretudo quando visam reduzir efetivos ou encargos, ficam-se pela forma, mas falta-lhes o planeamento e a ponderação das consequências. Arriscamo-nos a ficar numa situação lamentável que, sem ponderação devida, pode ter consequências muito negativas.
A
pequena moradia de que falo, foi construída em 1925 segundo um projeto do
arquiteto Raúl Lino, constituindo uma das referências paradigmáticas das “Casas
Portuguesas”. António Sérgio habitou com grande gosto pessoal a casa até à sua
morte em 1969, e introduziu-lhe pequenas alterações funcionais. É um ponto
crucial do roteiro sergiano da cidade de Lisboa, no coração da freguesia da
Estrela. Aí tiveram lugar as famosas tertúlias de sábados à tarde, animadas
pelo ensaísta, onde avultaram as presenças marcantes de: Álvaro Salema,
Agostinho da Silva, Castelo Branco Chaves, mas também de Natália Correia,
Fernando Ferreira da Costa e José-Augusto França, não faltando Luísa Sérgio,
terna anfitriã.
(…)
A
casa de António Sérgio está em perigo. Tem um património único que não se pode
perder. Lá estão uma Biblioteca do mestre, de valor incalculável, e espólios
como o de Fernando Ferreira da Costa, pioneiro do cooperativismo, que exigem
intervenção imediata para evitar a degradação.
(…)
Há, pois, uma preocupação múltipla que não pode ser analisada de ânimo leve, exigindo orientações determinadas para que se não crie um estranho vazio, devido a ignorância e desatenção.»
Guilherme de Oliveira Martins no Diário de Notícias
Legenda: fotografia de Ana Padilha no Público

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