«Deixemos pois o Goulart falar, A estalada que lhe deste, porém, não é coisa de que te possas gabar na praça pública, nem na tua consciência. Digo-te porquê, gravemente e medindo bem o peso das minhas palavras to digo; porque é uma cobardia. Conforme me contaste, não julgo que o tivesses feito de caso pensado, na plena posse da tua calma e da tua lucidez. Faço-te honra de supor que já estás arrependido – ainda que não confessas, por um pudor descabido, de que o Padre Zósima (dos irmãos Karamazoff) te daria a desrazão e o remédio.
Este caso do Goulart é
sintomático: todos gostam de bater no Goulart é um dos poucos idealistas
(taradinho, com as ideais todas torcidas está visto) que andam por essas ruas.
Tem um ideal (taradinho, etc.), e luta por ele. Depois, é coxo, paneleiro,
fraco de ombros. É monárquico e católico. É um tipo com uma cultura muito acima
do vulgar e é sério. Dá ou não vontade de bater (bater com tanta facilidade)
num tipo destes? Dá. O medo que as pessoas têm de bater num polícia e a
vontade transferem-se psicaliticamente para os lombos e os bochechos do
Florentino. Vem no Freud explicado.
Luiz Pacheco, de uma Carta ao actor Fernando Gusmão em Textos Avulsos, Inéditos eDispersos.
Legenda:
Goular Nogueira

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