sexta-feira, 7 de setembro de 2018

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


É sempre bom repetir: NÃO HÁ FESTA COMO ESTA!
O programa da Festa.

GRACELAND


O Miguel e a Cristina, durante o mês de Agosto, andaram em férias pela América.
Trouxeram-me postais e outras maravilhas.
Irei partilhá-las por aqui.
A porta do frigorífico passa a contar com uma nova imagem: Graceland, a casa de Elvis Presley.

DENEGAÇÃO POR ANÁFORA MERENCÓRIA


Mário de Carvalho é um escritor muito cá de casa.
Dei com este admirável texto que publicou no Facebook e que encontrei no blog Aventar.
Mário de Carvalho nasceu em Setembro de 1944, eu em Março de 1945.
Morava na Rua das Enfermeiras da Grande Guerra, eu na Rua Mestre António Martins, ambas para os lados da Penha de França.
Andámos no Liceu Gil Vicente, a caminho sentíamos o delicioso cheiro, a chocolate, da Fábrica Favorita, ali a Sapadores, frequentámos as matinés do Cine-Oriente mas nunca nos encontrámos.
Talvez um dia.
«Era que trocássemos umas ideias sobre o assunto.»

«Eu nunca fui obrigado a fazer a saudação fascista aos «meus superiores». Eu nunca andei fardado com um uniforme verde e amarelo de S de Salazar à cintura. Eu nunca marchei, em ordem unida, aos sábados, com outros miúdos, no meio de cânticos e brados militares. Eu nunca vi os colegas mais velhos serem levados para a «mílícia», para fazerem manejo de arma com a Mauser. Eu nunca fui arregimentado, dias e dias, para gigantescos festivais de ginástica no Estádio do Jamor. Eu nunca assisti ao histerismo generalizado em torno do «Senhor Presidente do Conselho», nem ao servilismo sabujo para com o «venerando Chefe do Estado». Eu nunca fui sujeito ao culto do «Chefe», «chefe de turma», «chefe de quina», «chefe dos contínuos», «chefe da esquadra», «chefe do Estado». Eu nunca fui obrigado a ouvir discursos sobre «Deus, Pátria e Família». Eu nunca ouvi gritar: «quem manda? Salazar, Salazar, Salazar». Eu nunca tive manuais escolares que ironizassem com «os pretos» e com «as raças inferiores». Eu nunca me apercebi do «dia da Raça». Eu nunca ouvi louvar a acção dos «Viriatos» na Guerra de Espanha. Eu nunca fui obrigado a ler textos escolares que convidassem à resignação, à pobreza e ao conformismo; Eu nunca fui pressionado para me converter ao catolicismo e me «baptizar». Eu nunca fui em grupos levar géneros a pobres, politicamente seleccionados, porque era mesmo assim. Eu nunca assisti á miséria fétida dos hospitais dos indigentes. Eu nunca vi os meus pais inquietados e em susto. Eu nunca tive que esconder livros e papéis em casa de vizinhos ou amigos. Eu nunca assisti à apreensão dos livros do meu pai. Eu nunca soube de uma cadeia escura chamada o Aljube em que os presos eram sepultados vivos em «curros». Eu nunca convivi com alguém que tivesse penado no Tarrafal. Eu nunca soube de gente pobre espancada, vilipendiada e perseguida e nunca vi gente simples do campo a ser humilhada e insultada. Eu nunca vi o meu pai preso e nunca fui impedido de o visitar durante dias a fio enquanto ele estava «no sono». Eu nunca fui interpelado e ameaçado por guardas quando olhava, de fora, para as grades da cadeia. Eu nunca fui capturado no castelo de S. Jorge por um legionário, por estar a falar inglês sem ser «intréprete oficial». Eu nunca fui conduzido à força a uma cave, no mesmo castelo, em que havia fardas verdes e cães pastores alemães. Eu nunca vi homens e mulheres a sofrer na cadeia da vila por não quererem trabalhar de sol a sol. Eu nunca soube de alentejanos presos, às ranchadas, por se encontrarem a cantar na rua. Eu nunca assisti a umas eleições falsificadas, nunca vi uma manifestação espontânea ser reprimida por cavalaria à sabrada; eu nunca senti os tiros a chicotearem pelas paredes de Lisboa, em Alfama, durante o Primeiro de Maio. Eu nunca assisti a um comício interrompido, um colóquio desconvocado, uma sessão de cinema proibida. Eu nunca presenciei a invasão dum cineclube de jovens com roubo de ficheiros, gente ameaçada, cartazes arrancados. Eu nunca soube do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores, da prisão dos seus dirigentes. Eu nunca soube da lei do silêncio e da damnatio memoriae que impendia sobre os mais prestigiados intelectuais do meu país. Eu nunca fui confrontado quotidianamente com propaganda do estado corporativo e nunca tive de sofrer as campanhas de mentalização de locutores, escribas e comentadores da Rádio e da Televisão. Eu nunca me dei conta de que houvesse censura à imprensa e livros proibidos. Eu nunca ouvi dizer que tinha havido gente assassinada nas ruas, nos caminhos e nas cadeias. Eu nunca baixei a voz num café, para falar com o companheiro do lado. Eu nunca tive de me preocupar com aquele homem encostado ali à esquina. Eu nunca sofri nenhuma carga policial por reclamar «autonomia» universitária. Eu nunca vi amigos e colegas de cabeça aberta pelas coronhas policiais. Eu nunca fui levado pela polícia, num autocarro, para o Governo Civil de Lisboa por indicação de um reitor celerado. Eu nunca vi o meu pai ser julgado por um tribunal de três juízes carrascos por fazer parte do «organismo das cooperativas», do PCP, com alguns comerciantes da Baixa, contabilistas, vendedores e outros tenebrosos subversivos. Eu nunca fui sistematicamente seguido por brigadas que utilizavam um certo Volkswagen verde. Eu nunca tive o meu telefone vigiado. Eu nunca fui impedido de ler o que me apetecia, falar quando me ocorria, ver os filmes e as peças de teatro que queria. Eu nunca fui proibido de viajar para o estrangeiro. Eu nunca fui expressamente bloqueado em concursos de acesso à função pública. Eu nunca vi a minha vida devassada, nem a minha correspondência apreendida. Eu nunca fui precedido pela informação de que não «oferecia garantias de colaborar na realização dos fins superiores do Estado». Eu nunca fui objecto de comunicações «a bem da nação». Eu nunca fui preso. Eu nunca tive o serviço militar ilegalmente interrompido por uma polícia civil. Eu nunca fui julgado e condenado a dois anos de cadeia por actividades que seriam perfeitamente quotidianas e normais noutro país qualquer; Eu nunca estive onze dias e onze noites, alternados, impedido de dormir, e a ser quotidianamente insultado e ameaçado. Eu nunca tive alucinações, nunca tombei de cansaço. Eu nunca conheci as prisões de Caxias e de Peniche. Eu nunca me dei conta, aí, de alguém que tivesse sido perseguido, espancado e privado do sono. Eu nunca estive destinado à Companhia Disciplinar de Penamacor. Eu nunca tive de fugir clandestinamente do país. Eu nunca vivi num regime de partido único. Eu nunca tive a infelicidade de conhecer o fascismo.»

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Nunca tive causas, a minha bandeira sempre fui eu mesmo.

Mia Couto em Jesusalém

À BEIRA DE UM PRECIPÍCIO


Carta de António José Saraiva, desde Amsterdão, 16 de Fevereiro de 1973, para Óscar Lopes onde volta à divinização de Agustina Bessa-Luís («A Agustina é infinitamente mais «realista» que o Redol, porque os livros do redol são mortos e os da Agustina vivos. Quando a leio sinto-me à beira de um precipício, e por isso não aguento lê-la mais que uma dúzia de páginas seguidas») e um breve comentário sobre as colónias portuguesas:

As minhas correcções à parte da Agustina visaram sobretudo a dar-lhe o lugar que ela merece e que não é o de uma simples «escritora feminina». A Agustina é um dos dois grandes escritores mundiais que Portugal produziu neste século e está a ser vítima de uma certa mesquinhez nacional, bem ajuizadinha, cujos grandes símbolos são no nosso século o Teófilo e o Salazar. Não há dúvida que perdemos nos últimos séculos uma certa capacidade de ver grande como tiveram o Camões,  o Vieira, o Oliveira Martins, o Pessoa e até certo ponto o Sérgio. Secou-se-nos o grãozinho de mostarda. Dizer que os últimos livros dela não são tão bons como os primeiros é fugir à questão. E quanto a não ser traduzida, é lá com os tradutores e os comerciantes de livros.

Quanto às colónias só há uma alternativa: ou liquidar tudo, limpando saí as mãos (estado branco independente, ou negociações com os movimentos, ou outra qualquer solução que entregue aquilo ao diabo); ou então procurar criara uma sociedade em que os brancos e pretos convivam. Mas esta segunda solução parece cada vez mais impossível. Somos um país pequeno, pobre, resignado ao destino que não conhecemos nem queremos conhecer! Isso dói-me.

OLHAR AS CAPAS


Sinais de Fogo

Jorge de Sena
Nota: Mécia de Sena
Prefácio: Arnaldo Saraiva
Capa: A. Saldanha Coutinho
Edições 70, Lisboa, Maio de 1981

Uma saciedade contraditória, como de saudade lancinante que se adiasse tranquila sem deixar de ser agudamente física, se me ajustava à frustração humilhada. Limpei-me com o lenço. Olhei aflito em volta, com a sensação que antes não tivera de milhares de olhos escarninhos a observar-me o ridículo. Mas não havia ninguém. Caminhei até ao murete da linha dos comboios, e procurei na vedação de arame, que encerrava as linhas pelo outro lado, uma abertura por onde passar. Encontrei-a mais adiante. Como num entressonhar, fui andando até chegar a uma azinhaga ao fim da qual via postes de eléctrico. Foi quando uma onda asfixiante de bem-estar, um bem estar irónico, sardónico, casquinante, estourou dentro de mim num silenciosos grito que retiniu nos tímpanos, nos muros, na atmosfera já sombria da azinhaga.
- Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço…
Febrilmente, e ao mesmo tempo com a serenidade de quem está seguro de que as vozes lhe falam e não vão calar-se (eu já ouvia as cadências continuar-se), escrevi:

Quanto de ti, amor, me possuiu no abraço
em que de penetrar-te me senti perdido
no ter-te para sempre-
Quanto de ter-te me possui em tudo
o que eu deseje ou veja não pensando em ti
no abraço a que me entrego-
Quanto de entrega é como um rosto aberto,
sem olhos e sem boca, só expressão dorida
de quem é como a morte-
Quanto de morte recebi de ti,
na pura perda de possuir-te em vão
de amor nos traiu-
Quanta traição existe em possuir-te a gente
sem conhecer que o corpo não conhece
mais que o sentir-se noutro-
Quanto sentir-te e me sentires não foi
senão o encontro eterno que nenhuma imagem
jamais separará-
Quanto de separados viveremos noutros
esse momento que nos mata para
quem não nos seja e só-
Quanto de solidão é este estar-se em tudo
como na ausência indestrutível que
nos faz ser um no outro-
Quanto de ser-se ou se não ser o outro
é para sempre a única certeza
que nos confina em vida-
Quanto de vida consumimos pura
no horror e na miséria de, possuindo, sermos
a terra que outros pisam-
Oh meu amor, de ti, por ti, e para ti,
recebo gratamente como se recebe
não a morte ou a vida, mas a descoberta
de nada haver onde um de nós não esteja.

HAVEMOS DE SER OUTROS AMANHÃ


havemos de ser outros amanhã
ou daqui a momentos ou já agora
e dificilmente reconheceremos o espaço da alegria
em que noutras horas chegámos a nascer

e então meu amor
(não sei se reparaste mas é a primeira vez
que escrevo meu amor)
teremos nos olhos a cor sem cor
das roupas muito usadas
e guardaremos os despojos das noites
em que tudo sem querer nos magoava
nas gavetas daqueles velhos armários
com cheiro a cânfora e a tempo inútil
onde há muitos anos escondemos
um postal da Torre de Belém em tons de azul
e um bilhete para a matiné das seis no São Jorge
onde um homem (que muitos anos depois
segundo me contaram se suicidou)
tocava orgão nos intervalos em que
nos beijávamos às escondidas

e dessas gavetas rebenta a poeira do tempo
que matámos a frio dentro de nós
com os filhos que perdemos em camas de ninguém
e as pedras que nasceram no lugar das cinzas
e havemos de perguntar (mesmo sabendo que
já não há ninguém para nos responder)
por que foi que nos largaram no mundo
vestidos de tão frágeis certezas
por que nos abandonaram assim
no rebentar de todas as tempestades
sabendo que o futuro que nos prometiam batia
ao ritmo das horas que já tinham sido
destinadas a outros e nunca
voltariam a tempo de nos salvar

mas enquanto vai escorrendo de nós o pó
desses lugares onde ainda há vozes
que não desistiram de perguntar por nós
vamos bebendo a água inicial das nossas línguas
um ao outro devolvendo o pouco
que conseguimos salvar de todos os dilúvios

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Entre um pão e um livro, onde a diferença? Ambos se comem!

José Leal Ferreira

DUAS ATITUDES


26 de Janeiro de 1947

Há apenas duas atitudes – a cristã e a estóica. Provàvelmente a atitude comunista serve para as fundir – tem a caridade e o sentido da dureza, sabe afinal que tudo é duro e no entanto faz o bem.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

OLHAR AS CAPAS


A Fera Tem de Morrer

Nicholas Blake
Tradução: Lima da Costa
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 162
Livros do brasil, Lisboa s/d

20 de Junho de 1937 – Vou matar um homem. Não sei o seu nome, não sei onde vive, não tenho ideia de com quem ele se parece. Mas vou descobri-lo e matá-lo…
Deve perdoar-me esta abertura melodramática, amável leitor. Soa a passagem duma das minhas novelas policiais, não é? Sòmente acontece que esta história nunca será publicada, e que o «amável leitor» é uma delicadeza convencional. Proponho-me cometer o que o mundo chama «um crime»; todos os criminosos, que não têm cúmplices, precisam de um confidente: a solidão, o isolamento aterrador e a emoção do crime são também demasiadamente fortes para que um homem os possa manter dentro de si. Mais cedo ou mais tarde contará tudo  e, se ele se mantiver firme, o seu super-ego atraiçoá-lo-á – aquele moralista estrito com quem brinca ao gato e ao rato, umas vezes furtivo, outras timorato, outras, ainda, absolutamente seguro, forçando o criminosos a dobrar a língua, induzindo-o às confidências, pondo-o a nu, fazendo de agente provocador. Todas as forças da lei e da ordem seriam impotentes contra um homem completamente destituído de consciência. Mas bem dentro de todos nós existe aquele impulso para fazer sacrifícios – um sentimento de culpa, o traidor de portas a dentro. Somos denunciados pelo que ele tem de falso. Se a língua se recusa a confessar, as acções involuntárias o farão. É por isso que o criminoso volta à cena do crime. É por isso que estou a escrever este diário. Você, meu leitor imaginário, hipócrita, meu semelhante, meu irmão, vai ser o meu confessor. Não lhe esconderei nada. Será você quem me salvará da forca, se isso for possível.

O PERFUME DO VERÃO


Deitámo-nos alegremente em leitos de juncos frescos.
Tinham podado há pouco as videiras e, sobre nós, os choupos
e ulmeiros murmuravam como a água que ali passava
vinda da gruta onde vivem as ninfas.
À sombra, mas quentes pelo sol, cantavam as cigarras e
sob as silvas coaxava uma rã. Ouviam-se
a cotovia e o pintassilgo, a rola arrulhava as abelhas,
douradas dançavam em volta da fonte.
Tudo cheirava ao tempo da fruta,
ao perfume do verão.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Quando se acredita em milagres, já não há nada a esperar da esperança.

O QUE SE ESCREVE QUANDO JÁ A MORTE VEM SUBINDO A ESCADA


Apanhou a carta do chão, meteu-a no sobrescrito, escondeu-a entre os livros, mas não se há-de esquecer de procurar um sítio mais seguro, um dia destes vem Lídia fazer a limpeza, dá com a carta, e depois, é certo que ela, a bem dizer, não tem quaisquer direitos, se aqui vem a casa é porque a vontade lhe puxa, não porque eu lho peça, mas oxalá não deixe de vir, que mais queria Ricardo Reis, ingrato homem, meteu-se-lhe uma mulher na cama de seu livre gosto, assim não precisa de andar por aí arriscado a apanhar uma doença, há homens com muita sorte, e este ainda queixoso só porque não recebeu de Marcenda uma carta de amor, não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas, isto é o que se escreve quando já a morte vem subindo a escada, quando se torna de súbito claro que verdadeiramente ridículo é não ter recebido nunca uma carta de amor. Diante do espelho do guarda-fato, que o reflecte em seu inteiro corpo, Ricardo Reis diz, Tens razão, nunca recebi uma carta de amor, uma carta que só de amor fosse, e também nunca escrevi uma carta de amor, nem por metade dela ou minha metade, esses inúmeros que em mim vivem, escrevendo eu, assistem, então a mão me cai, inerte, enfim não escrevo.

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Portugueses na Califórnia, a saudade, sentimento a remeter para uma balada do folclore açoriano, que José Afonso canta, no seu primeiro Lp «Cantares do Andarilho», com uma simplicidade simplesmente arrepiante.
Saudades.

Ó Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Ó Tirana saudade
Saudade, ó minha saudadinha
Foste nada no Faial
Foste nada no Faial 
Foste nada no Faial
No Faial baptizada na Achadinha

Saudade onde tu fores
Saudade onde tu fores
Saudade onde tu fores
Saudade leva-me podendo ser
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Que eu quero ir acabar
Saudade onde tu foras morrer

A saudade é um luto
A saudade é um luto
A saudade é um luto
Um amor, um amor, uma paixão
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
É um cortinado roxo
Que me morde, que me morde o coração



OLHAR AS CAPAS


Portugueses na Califórnia

Helder Pinho
Prefácio: Jorge de Sena
Posfácio: Eduardo Mayone Dias
Capa: João da Câmara Leme
Editorial Notícias, Lisboa, Outubro de 1978

A saudade e a solidariedade foram as duas características bem portuguesas que mais nos revelaram os nossos compatriotas. Elas aprendidas e assimiladas no berço natal, constituem em muitos dos casos a razão de ser da ligação do emigrante
À pátria que o viu nascer.
- É a maior catástrofe do açoriano, a saudade. Ele não é capaz de esquecer nada, quando emigra, leva tudo consigo: a ilha, o pai, a mãe, os gatos, os cães, os coelhos… As ilhas, aquelas queridas ilhas, andam sempre às costas com ele, açoriano, e, quando volta a pisar terra portuguesa a primeira coisa que faz é perguntar: ó minha mãe onde é que está isto e aquilo que ali estava?...

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


Conhecer o mal é já uma defesa. Onde não há inocência, pode haver pecado; mas onde não há sabedoria, há sempre desgraça.

Agustina Bessa-Luís em A Sibila

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Estava a passar os olhos por um texto de Camille Paglia, publicado na revista Ler, quando os olhos descansaram nesta frase:

«A primeira personagem feminina e militante mais influente dessa época foi, provavelmente, Ursula Andress no papel de Honey Rider, uma caçadora de búzios de temperamento agressivo, no primeiro filme de James Bond, O Agente Secreto 007, de 1962, em que ela sai do mar num deslumbrante biquíni branco e com uma faca presa à anca».

É de facto, uma cena fascinante e arriscaria a dizer que o sucesso futuro das fitas de Bond, o agente secreto 007 de Sua Majestade com ordem para matar, tem algo a ver com essa cena.

My Name is Bond, James Bond.

Bond como o seu criador, Ian Fleming, gostava de dizer:

«Detesto porções pequenas de tudo quanto é bom.»

Durante alguns anos fui um espectador das fitas de Bond, nunca um seguidor incondicional , acabando  por  desligar-me quando Sean Connery deixou de o interpretar.

 Ian Fleming teria preferido David Niven em vez de Connery.

Enfim…

Há uns anos, os críticos andaram a tecer umas loas sobre o  estupendo desempenho de  Daniel Craig em Casino Royale  e eu embarquei.

Foi o meu último Bond.

Não desgostei.

O filme tem todos os ingredientes habituais; cenas de pancadaria, aquelas  perseguições malucas em carros descapotáveis, a engenharia bélica e electrónica com que ele se vai safando dos inúmeros perigos  e armadilhas e  uma longa  sequência de um jogo de poker, que acho muito bem esgalhada, mesmo não percebendo patavina  do jogo.
Há também uma sempre excelente Judi  Dench a fazer de “M”, a superior hierárquica  de Bond,  e a dizer, para quem a quer ouvir, de que tem «saudades da Guerra Fria», tal como  Victor da Cunha Rego disse que  um dia ainda  haveríamos de lamentar o fim da União Soviética, porque é sempre bom ter um inimigo e  à falta dele o mundo tornou-se mais perigoso.

Um pormenor de diálogo do filme:

James Bond – Você não faz o meu género.
Vesper Lynd – Por ser inteligente?
James Bond –  Por ser solteira!

A última imagem do filme é uma assombrosa mansão nas margens do Lago Cuomo.


Claro que os filmes de Bond devem muito a Sean Connerey, às Bong girls e às canções, que ficaram para a história, de alguns dos filmes.

O primeiro filme, Doctor No, não tem canção mas apenas aquele lance de jazz que ficou conhecido como James Bond Theme.

Tenho um velho Cd que reúne as melhores canções dos filmes de James Bond que ficaram para a história e cito estas:

From Russia With Love – Matt Munro
Goldfinger – Shirley Bassey
We Have All The Time in The Word – Louis Armastrog
Thunderball – Tom Jones
Diamonds Are Forever – Shirley Bassey



UM VIAJANTE QUE PERDEU UMA LIGAÇÃO


Nada mais fácil do que identificar-se comigo, por agora o meu comportamento exterior é o de um viajante que perdeu uma ligação, que é uma situação que faz parte da experiência de toda gente; porém uma situação que se verifica no início de um romance remete sempre para qualquer outra coisa que aconteceu ou que está prestes a acontecer, e é esta qualquer outra coisa que torna arriscada a identificação comigo, para ti leitor e para ele autor; e quanto mais cinzento, vulgar e indeterminado for o início deste romance mais tu e o autor sentirão crescer uma sombra de perigo sobre a fracção de «eu» que irreflectidamente investiram no «eu» de uma personagem de que ignoram a história que ela traz consigo, como aquela mala de que tanto desejava conseguir livrar-se. Livrar-me da mala devia ser a primeira condição para restabelecer a situação anterior: anterior a tudo o que sucedeu a seguir. É a minha intenção quando digo que gostaria de remontar o curso do tempo: gostaria de apagar as consequências de certos acontecimentos e restaurar uma condição inicial. Mas todos os momentos da minha vida a carretam um montão de factos novos, e todos estes factos novos acarretam s suas consequências, pelo que quanto mais tento voltar ao momento zero de que parti, mais dele me afasto: embora tendo todos os meus actos a intenção de apagar consequências de actos precedentes e conseguindo até obter resultados apreciáveis neste apagamento, que me abrem o coração a esperanças de alívio imediato, contudo tenho de considerar que cada uma das minhas acções para apagar acontecimentos precedentes provoca uma chuva de novos acontecimentos que complicam ainda mais a situação anterior e que terei de tentar apagar por sua vez. Por isso tenho de calcular bem todas as acções de modo a obter o máximo de apagamento com o mínimo de recomplicação.

OLHAR AS CAPAS


Os Meus Amores

Trindade Coelho
Portugália Editora, Lisboa, Junho de 1962

No velho casarão do convento é que era a aula. Aula de primeiras letras. A porta lá estava, com fortes pinceladas vermelhas, ao cimo da grande escadaria de pedra, tão suave que era um regalo subi-la. Obra de frades, os senhores calculam... Já tinha principiado a aula quando a Helena entrou comigo pela mão. Fez-se um silêncio nas bancadas, onde os rapazes mastigavam as suas lições e a sua tabuada, num ritmo cadenciado e monótono, cantarolando. E ouviu-se então a voz da Helena dizer para o Sr. Professor, um de óculos e cara rapada, falripas brancas por baixo do lenço vermelho, atado em nó sobre a testa: 
– Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha. 
Oh!! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali estava a encomendinha! – Está bem, que fica entregue. E lá em casa como vão? 
E enquanto o velho professor me tomava sobre os joelhos, a Helena enfiava-me no braço o cordão da saquinha vermelha, com borlas, onde ia metido nem eu sabia o quê. Meu pai é que lá sabia... E ali estava eu entre os joelhos do Sr. Professor, com o boné numa das mãos e a saquinha vermelha na outra, muito comprometido. A Helena, que sorria contrafeita, baixou-se para me dar um beijo, e disse-me adeus. 
Choraminguei, quis sair na companhia dela. 
– Não, agora o menino fica – disse-me a Helena. 
– Isto aqui é uma escola onde se aprende a ler. – E agachando-se, diante de mim: – Olhe tanto menino, vê? 
– Mas fica tu também... – disse-lhe eu então.
 Nas bancadas houve hilaridade geral. O mestre teve de intervir, iracundo: 
– Caluda, sua canalha! Não vêem que está gente de fora? Caluda, que vai tudo raso com bolaria! Foi então que reparei em toda aquela rapaziada. Ah, eles eram todos meus conhecidos! Vivam lá vocês! E estavam todos alegres, pelos modos. Reanimei-me. Então já eu podia ficar, estavam ali os meus amigalhotes; cheguei mesmo a rir das caretas que me faziam alguns, o Estêvão principalmente.
 – Isto é preciso muita paciência, Sr.ª Helena, muita soma de paciência. Um mestre precisa de ser um santo –, (Pausa. Olho duro sobre as bancadas.) – Mas está bem, diga lá que a encomendinha cá fica. Em boa hora entrasse...

domingo, 2 de setembro de 2018

POSTAIS SEM SELO


É ainda tempo de tomarmos conta do nosso destino.

Álvaro Guerra em Noite de Cães

DO FUNDO DO ABISMO


Do fundo do abismo
é que te falo.

Ou me estendes a mão
ou não a estendes.

Disso depende haver
ou não, a madrugada.

Mário Castrim em Do Livro dos Salmos

OLHAR AS CAPAS



Noite de Cães

Álvaro Guerra
Círculo de Leitores, Lisboa, Outubro de 1971

Reconciliação com o absurdo? talvez, talvez seja este conforto de estar viva entre objectos de acaso, tão desenraizada quanto possível, os pinceis, as tintas, a espátula, as telas brancas, a autonomia das cores, o resto – móveis reunidos sem critério – eu tecendo planos de espera e desafio, agora que a morte de Miguel me completa o remorso que tentarei combater para ganhar-me; para trás ficaram os meus sonhos de menina, alguns vividos, mesmo os sonhos de amor, sobretudo os sonhos de amor… Diante de mim, o imenso espaço branco de outros sonhos para viver.

sábado, 1 de setembro de 2018

OLHAR AS CAPAS



O Rival

Roger Vailland
Tradução: António Neves-Pedro
Capa: Aramando Alves
Colecção Metamorfoses nº 13
Editorial Inova, Porto, Janeiro de 1975

- Tem entrevista marcada?
- Não.
- Então faça o favor de preencher uma ficha.
Mignot escreveu:
NOME: Fréderic Mignot
FINALIDADE DA VISITA: da parte de secção de Clusot do Partido Comunista Francês.
- Faça a fineza de esperar um momento, - disse o contínuo, que depois se dirigiu, coxeando, para escada.
Mignot teve a impressão que o velho lhe lançara um olhar espantado. Na realidade, há muito que o velho era demasiado míope para ser capaz de ler, mesmo quando punha os óculos: e era apenas isso que lhe dava aquele ar assombrado.
- Mande entrar esse senhor imediatamente. – disse Letourneau, que ficou à espera, com o coração a bater com força.
«Aí está a iniciativa misteriosamente anunciada ontem pela pequena Amable», pensou ele. «Cumpriu a sua promessa». Estava disposto a fazer algo de muito importante «introduzindo o inimigo na fortaleza». «Aqui está finalmente o meu primeiro acto de coragem», disse para si mesmo.
Mignot preparara cuidadosamente toda uma série de argumentos para persuadir Letourneau a petição para a libertação de… Mas Philippe dispôs-se a assinar mesmo antes de ouvir uma única palavra.
«Então é apenas isto!» pensava ele. Chegara a temer que Pierrette exigisse dele uma profissão de fé pública, como, por exemplo, ir ao domingo de manhã, à saída da missa, vender, berrando o L’Humanité. Tivera receio de ser ridículo. Não que ele ligasse grande importância à opinião que dele fariam os burgueses, e sabia até, pelo contrário, que os seus amigos de Lyon ou de Paris teriam achado extremamente divertido que ele andasse a gritar L’Humanité pelas ruas de uma sede de concelho provincial. Mas temia parecer ridículo aos olhos dos operários: «Não me saberia comportar como eles, ficaria deslocado.»

O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS


De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia em Poesia Completa

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

AGORA QUE É SETEMBRO


Procurar cheiros. Os dias de chuva.
Uma velha canção de Bécaud, também a contagem dos dias  que faltam para que seja Natal. Outra vez.