sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A REPÚBLICA TRÊS MESES DEPOIS



Numa crónica no “Jornal de Notícias”,  por ocasião das comemorações dos 100 anos da Implantação da República, Manuel António Pina escrevia:

“No centenário da implantação da República, juntamente com o fim dos privilégios de sangue e a adopção do princípio republicano, festejou-se algo que não existiu: um regime democrático.
A I República foi estruturalmente antidemocrática, não só tendo instaurado a censura, perseguido sindicatos e organizações de trabalhadores, proibido manifestações, promovido a intolerância e a violência política, mas sobretudo rejeitando o voto universal e excluindo do colégio eleitoral a imensa maioria analfabeta da população portuguesa (bastará dizer que, em 1910, havia 850 mil eleitores recenseados que, com a lei eleitoral republicana de 1911, ficaram reduzidos a 400 mil).”

Num artigo de opimião, datado de 31 de Dezembro de 1910, e incluído no seu livro “Saibam Quantos…”, Fialho d?Almeida escrevia:

“Há três meses completos que esta Lisboa é uma imensa cloaca de “cidadonismo” arremangado e bestiaga, emporcalhando as ruas de manifestações sem objecto, e fazendo consistir a vida cívica n’um fervilhar d’escumalha que dá vivas e morras a heroes transitórios e a patriotasnos arrivistas. A gente tranquila pergunta quando é que esta feira d’alarves fingindo envergaduras de revolucionários conscientes, e quando é que a vida estudiosa e comercial reintegra outra vez Lisboa na sua pacatez d’estudo  e de trabalho”




Como o que torto nasce, tarde ou nunca se endireita, foram-se abrindo os caminhos para, dezasseis anos depois da implantação da República, eclodir o pronunciamento militar que ficou para a História com a designação de “Movimento de 28 de Maio” e que há-de dar origem ao advento do salazarismo.

“Infelizmente, há muita coisa que parece só eu posso fazer.”, Salazar, numa nota oficiosa, datada de Abril de 1935.

Nota:  No texto de Fialho d’Almeida, manteve-se a ortografia da época.

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