sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

MANHÃ FARTA


É terrível o som
da casca do ovo cozido partido sobre o balcão
é terrível esse som
quando ressoa na memória do homem sem pão
é terrível também a cabeça desse homem
do homem sem pão
quando se olha às seis da manhã
na montra do grande armazém
uma cabeça cor de farinha
mas não é para a sua cabeça que ele olha
na montra da loja Potin
está-se nas tintas para a sua cabeça, o homem
não pensa nela
sonha
imagina uma outra cabeça
uma cabeça de vitela, por exemplo,
com molho vinagrete
ou qualquer outra cabeça que se trinque
e remexe o maxilar lentamente
lentamente
e range os dentes lentamente
porque o mundo lhe dá cabo da cabeça
e ele nada pode contra esse mundo
e conta pelos dedos: um dois três
um dois três
há três dias que não come
e por muito que há três dias repita que
isto não pode continuar
isto continua
três dias
três noites
sem comer
e atrás daqueles vidros
aqueles pastéis, aquelas garrafas, aquelas conservas
peixes mortos protegidos pelos chuis
chuis protegidos pelo medo
tantas barricadas para seis míseras sardinhas…
Logo adiante o bar da esquina
café-creme e croissants quentes
o homem cambaleia
e dentro da cabeça
uma névoa de palavras
uma névoa de palavras
sardinhas para comer
ovo cozido café-creme
café com um pingo de rum
café-creme
café-creme
café-crime com pingos de sangue!…
Um homem muito estimado no seu bairro
foi degolado em pleno dia
o assassino o vagabundo roubou-lhe
dois francos
ou seja: um café pingado
setenta cêntimos
duas fatias de pão com manteiga
e vinte e cinco cêntimos para a gorjeta do empregado.
É terrível
o som da casca do ovo cozido partido sobre o balcão
É terrível esse som
quando ressoa na memória do homem sem pão.


Jacques Prévert

Legenda: pintura de  Karen Offutt

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