Lemos para sabermos que não estamos sozinhos.
C. S. Lewis
Legenda: pintura e Henri Fantin-Latour
A Divisão de Investigação Criminal da PSP está esta terça-feira a fazer buscas dentro da própria polícia por suspeita de fraude no serviço gratificado.
Em causa, segundo o Público, está
um suposto esquema através do qual os agentes que prestam serviço gratificado
em estações da CP e nas carruagens de comboios têm recebido mais dinheiro do
que aquele a que teriam direito devido à falsificação do número de horas de
trabalho.
Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
Num qualquer tempo antes de 25 de Abril, o director da PIDE-DGS, determinava
que, pelo menos três agentes deviam assistir às missas de domingo,
principalmente nas igrejas em que alguns padres, em acto de culto, atacam
declaradamente as instituições e a política ultramarina do governo e os seus
princípios morais.
Sempre que
possível as homilias devem ser gravadas.
O que não se
pode é assistir passivamente com simples protestos verbais, à acção dissolvente
e subversiva conduzida por esses sacerdotes.
«Mas a formação dos magistrados é absolutamente essencial, porque já se tornou por demais evidente que ainda hoje há decisões judiciais absolutamente indignas de um país que se diz ser um Estado de direito democrático e tem uma Constituição da República correspondente, que aliás recebe expressamente no seu texto a Declaração Universal como ponto de referência interpretativo privilegiado em matéria de direitos liberdades e garantias.»
Teresa Beleza
C. S. Lewis
Tradução e Notas: Carlos Grifo Babo
Capa: José Brandão
Colecção Elementos Sudoeste
Porto Editora, Porto, Abril de 2003
O devoto da
acultura é, como pessoa, muito mais válido que o ambiciosos por posição social.
Lê, tal como visita galerias de arte ou assiste a concertos, não para se tornar
bem-visto, mas para se melhorar a si próprio, desenvolver as suas
potencialidades, enfim, tornar-se um ser humano mais completo.
Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.
Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto.
Intacta é a sua ausência
Como a estátua de um deus
Poupada pelos invasores de uma cidade em ruínas.
Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo.
Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento.
E que ninguém repita o seu nome proibido.
Sophia de Mello Breyner Andresen de Mar Novo em Cem Poemas de Sophia
Dedico-me ao poema como um homem velho se dedica a um vaso com flores.
Miguel-Manso
Legenda: pintura de Van
Gogh
Jornada de África
Manuel Alegre
Círculo de Leitores, Fevereiro de 1989
Estão sentados em
volta de uma mesa de pinho. Canta-se e bebe-se, a caneca passa de mão em mão. «E se a loucura da sorte/Assim nos quiser
perder/Abre os teus braços de morte/E deixa-nos aquecer.» Música de Lopes
Graça, letra de Carlos de Oliveira. Cantam em coro canções heroicas, algo está
a mudar em Coimbra. Talvez a própria fraternidade: não apenas o vinho, a graça,
a boémia. De certo modo Há uma tristeza, uma tristeza forte e nova, no fundo
daquela alegria. Sim, tristeza e raiva, como nas antigas canções russas.
Este não é o dia seguinte do dia que
foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
Não sei a data deste recorte de um texto que
Joaquim Vieira publicou, numa revista de fim-de-semana, do Diário de
Notícias.
Talvez tenha sido nos 25 anos do 25 de Abril.
A ideia que, rapidamente, ressalta, é que nos 50 anos do 25 de Abril, que agora ocorrem, está tudo na mesma.
Poderemos pensar que os resultados eleitorais, de ontem nos Açores, podem ter semelhanças com as eleições legislativas que ocorrerão em Março?
Talvez sim, talvez não, mas
é salutar rejeitar a ideia.
Mas, há que dizê-lo: são decepcionantes os resultados que aconteceram.
Gente açoriana que vê, ouve
e lê, antes das eleições, publicaram um manifesto em que pretendiam fazer ver
aos partidos, a situação que se vive nos Açores.
Nessa gente estavam incluídos os escritores Joel Neto e João de Melo:
«Temos pessoas
votantes em diferentes partidos, pessoas de esquerda e de direita, não há
intenção de favorecer nenhuma das candidaturas nem tão pouco prejudicar,
estamos a interferir no sentido de obrigar a campanha eleitoral a albergar a
discussão deste tema”, explica Joel Neto.
“São mais de 40 índices de subdesenvolvimento humano que os Açores lideram
regularmente”, sublinhando que “somos a região mais pobre do país, o dobro da
média nacional, somos a região com a maior desigualdade na distribuição de
rendimentos, com mais exclusão social, com mais assistencialismo, com mais
dependência do rendimento social de inserção, com mais subsidiodependência no
geral. No domínio da educação somos a região com mais analfabetismo, com mais
iliteracia, maior défice de formação escolar básica, maior abandono escolar,
maior abandono escolar precoce.”
O documento aponta ainda a mortalidade e a obesidade infantis, o consumo de
drogas sintéticas, a taxa de incidência cancerígena, a violência doméstica, o
abuso sexual ou o ritmo de crescimento da criminalidade violenta como problemas
a resolver.
“Mete-me impressão como é que nove ilhas despovoadas, com 255 mil pessoas e com
700 mil fora, ainda se debate com tantos problemas e tanta solidão e
esquecimento”, afirma, por outro lado, João de Melo, escritor açoriano que
durante nove anos foi conselheiro da embaixada de Portugal em Madrid.
Diz que não podia não fazer nada pelo avanço da Região. “A pobreza açoriana é
mais pobre que a pobreza continental. Os Açores precisam de ter outras
políticas independentemente dos partidos que o governam, acima de tudo estão as
pessoas e aquelas pessoas de condição mais humilde”.»
para o Manuel de Freitas, mon semblable
Sempre soubeste: a morte.
Sempre sentiste: a morte.
As tabernas, fechadas, eram
apenas uma espécie de refrão.
Mas isso, terás de convir,
não desculpa o facto
de andares há vinte anos
a escrever o mesmo.
Faz como as tabernas: cala-te.
Manuel de Freitas em Resumo:
a poesia em 2010
«Ontem, no Expresso da Meia-Noite, uma Maria João AvilLez excitadíssima — porra de imagem para final de dia! — questionava uma Ana Gomes titubeante, cada vez mais patareca, sobre a ameaça à democracia que é o Chega, comparando-o com o PCP e o BE. Foi preciso o Bernardo Ferrão e o Francisco Assis para colocarem alguns pontos nos is, vejam bem. Para as pessoas que ainda têm dúvidas e alimentam hesitações sobre esta matéria, convém lembrar: alguma vez viram o PCP ou o BE com discursos xenófobos sobre a imigração? Alguma vez viram o PCP ou o BE com discursos racistas sobre uma etnia? Alguma vez viram o PCP ou o BE defender a privatização de hospitais, escolas, vias de comunicação e meios de transporte? Alguma vez viram o PCP ou o BE dividir a sociedade portuguesa entre portugueses de bem e portugueses de mal? Isto não basta?»
Encontrado na Antologia do Esquecimento.
Este não é o dia seguinte do dia que
foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de
histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias,
figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação
do dia, mês, ano em que aconteceram.
No dia 19 de Março de 2002, o jornalista António
Rego Chaves, em 5 pontos, dizia-nos: «Portugal, Lugar de Exílio».
António Guterres, ao fim de seis anos, dizia
aos portugueses que não podia governar um pântano e levou-nos para eleições.
Durão Barroso, aliado ao PP de Paulo Portas,
ganhou as eleições e a direita disponibilizou-se para governar o país e António
Rego Chaves, em fecho de crónica, garantia-nos que não haveria, nos próximos
tempos , qualquer Primavera, antes pesadelos – e mais tempo de exílio.
Woody Allen
Tradução: José Vieira de Lima
Capa: Emílio Vilar
Difel Editora, Lisboa s/d
Walter – De
repente, dizemos a deus a um advogado de sucesso e temos de aceitar um
diplomata psicótico!
Marion – A vida é
dela, Walter. A nossa filha tem vinte e três anos.
Walter – Ninguém
está a dizer que a vida não é dela. Eu só quero que ela faça o que é melhor
para ela, mais nada…
Marion – Portanto…
Walter – Portanto,
o que eu lhe disse é que está certo. Este sujeito é aquilo a que, nas apostas,
nós costumávamos chamar um perdedor!
Marion –
Licenciou-se em Yale.
Walter – Yale também
se engana.
Marion – Walter,
por favor, não te metas onde não és chamado.
Walter – Ela nunca
teve tão más perspectivas. Olha, preferia aquele com quem esteve para casar, o
que não foi nem à recruta, porque esse, ao menos, era um sucesso – até enganava
o exército!
Marion – Permite-me
que te lembre que quando casei contigo, o teu futuro não parecia especialmente
seguro.
Walter – Era diferente,
não tem comparação possível. . Eu cá tenho joie de vivre.
Marion – Para que
lhe serve a segurança material se ele não se sentir feliz?
«Paulo Macedo, presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia, lamentou que o gabinete do primeiro-ministro tivesse considerado "um ato de insubordinação gravíssimo" a ausência dos agentes destacados para o Famalicão-Sporting de ontem - devidamente justificada com baixas médicas -, entendendo ter também sido colocada em causa a idoneidade dos médicos. Depois, achou "estranho" que nem António Costa nem o ministro da Administração Interna tenham tido "uma palavra de melhoras para com estes polícias, para que possam regressar ao trabalho o mais depressa possível".»
«A PSP ameaça fazer um golpe de Estado: boicotar as eleições
legislativas
O presidente do Sindicato Nacional da Polícia, Armando Ferreira, transformou-se
este sábado numa ameaça à ordem pública, cuja defesa a sua profissão
alegadamente o obriga. Como quem bebe um copo de água, Ferreira afirmou, na SIC
Notícias, que as eleições legislativas de 10 de Março poderão não vir a
realizar-se. “Julgo que pode haver essa possibilidade. Quem transporta os
boletins de voto são as forças de segurança, quem transporta as urnas de voto
são as forças de segurança, e se acontecer algo igual ao que está a acontecer
agora…”, disse o sindicalista, depois de declarar “temer” que “o senhor
primeiro-ministro, se calhar”, não venha a ficar “em funções só até dia 10 de
Março».
Apenas fica o começo de uma crónica de Ana Sá Lopes do Público.
O Circo reduzido a meros apenas?…
Também somos eternos enquanto inventamos histórias. Escreve-se sempre contra a morte.
Humilhados e
Ofendidos
Fédor Dostoievski
Tradução: Maria Franco
Capa: Luiz Duran
Colecção Unibolso nº 65
Editores Associados, Lisboa s/d
O ano passado, a 22 de Março, à noite, aconteceu-me uma das mais estranhas aventuras da minha vida. Durante todo o dia eu percorrera a cidade em busca de alojamento. O antigo era muito húmido e nessa é poca já me queixava de uma tosse rebelde. Quisera mudar no começo de Outono, e já estávamos na Primavera! Por muito afã que fosse o desse dia, foi-me impossível descobrir qualquer coisa aceitável.
Este não é o dia seguinte do dia que
foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de
histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias,
figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação
do dia, mês, ano em que aconteceram.
Ele há-de trazer algumas histórias
em que andou metido nos tempos em que esperávamos (quem? quantos? Como, então,
apareceram tantos a gritar por Liberdade, a dizerem-se democratas?) pela tal
madrugada.
Por madrugada, lembrará, agora, o que leu num comentário à morte de Melanie Safka publicada no Público e um deste dias há-de recordar, sobre Melanie Safka, uma crónica do José Duarte.
«A sua intervenção não se esgotou na música. Cresci a ouvi-la - e foi a única
artista estrangeira que explicou ao mundo o conceito de "Madrugada":
dizia ela que os portugueses eram os únicos que tinham uma palavra para
descrever aquele tempo suspenso entre a noite e o dia, um tempo grávido de
sentido. Faz falta.»
ZIP 30.020/S - 1971
Pare, Escute e Olhe - Arte Poética
Um muito interessante "single" do
pré-25 de Abril, que reuniu algum sucesso popular, comprado na então sucursal
da “Discoteca Roma”, na Rua Morais Soares, esquina com a Praça Paiva Couceiro
(em Lisboa) e produzido por "Zip-Zip".
A loja, com duas simpatiquíssimas e competentes empregadas, não resistiu aos
tempos de Abril e fechou. Mais tarde a
casa-mãe também fechou as portas na Av. de Roma. Para não variar instalou-se lá
uma agência bancária e agora é café a armar ao fino.
À época, e ao nível da pequena banheira onde vivíamos (vivemos), este disco
originou uma leve e doméstica polémica, qualquer coisa como mosquitos por
cordas.
Por uma estranha omissão (tipográfica ou qualquer outra) não consta da ficha do
disco o nome de Hélia Correia como autora do poema “Arte Poética”, face B do
"single".
O disco revela apenas o nome de José Jorge Letria e daí poder inferir-se que
Letria é o responsável, não só da música, como da letra.
O suplemento “Juvenil” do jornal “República” de 19 de Outubro de 1971, fazia
publicar um “Para Que Conste” em que o facto é denunciado e, ao mesmo tempo, se
revelava que “mesmo em espectáculos públicos não tem feito Jorge Letria
qualquer alusão ao nome de Hélia Correia” e exigia-se a respectiva rectificação
e invocavam-se direitos de autor e reprodução.
Já que estamos em maré de documentos e curiosidades, diga-se que, na contracapa
do disco, José Jorge Letria fez publicar um texto de sua autoria: “É do
Silêncio Que Vos Falo” e que aqui se reproduz:
"Para mim conservo a certeza de que está tudo ainda por fazer. Não são meia dúzia de discos ou de frases publicitárias, publicamente ditas, que definem uma música e lhe dão a necessária consistência. Desfaçam-se pois os equívocos. Já não é sem tempo. A quem me ouvir deixo, entretanto, a possibilidade de transformar em acto (ou quase) o que no canto se propõe. Se isso não acontecer fico, pelo menos, com a certeza de ter levado até ao fim a minha ingenuidade. Ou seja o silêncio donde partiu. Para os que ficarem pelo caminho vai também a minha saudação.”
O tempo de todos os perigos ou os começos de um qualquer fim…
O resto são frases tiradas de dois Coffee
Break de Bábara Reis no Público.
«Madeleine Albright alertou para o perigo dos “vendedores ambulantes de ódio” em 2018. É triste dizer isto, mas parece que não há muito que se possa fazer.»
«António Damásio pede há anos uma “vacina contra a raiva”. É fácil pedir. Como
para o cancro, difícil é descobri-la.»
«Não estamos a conseguir um debate produtivo — insisto na expressão, que os
especialistas usam, porque descreve bem o que está a passar-se. Vai ser um “ano
supereleitoral” e não se vêem soluções para o problema da polarização extrema a
que chegámos. António Damásio pede há anos uma “vacina contra a raiva”. É fácil
pedir. Como para o cancro, difícil é descobri-la.»
«A vacina é necessária porque a raiva ajuda a extrema-direita e os populistas radicais de direita a crescer. O Chega está com 21% de intenções de voto e, na Europa, é possível que a direita radical consiga eleger qualquer coisa como 200 eurodeputados, ou seja, 25% do Parlamento Europeu, ou seja, ser a terceira força, ou seja, ser uma minoria de bloqueio real.»
Este não é o dia seguinte do dia que
foi ontem.
João Bénard da Costa
Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.
Jorge de Sena , por motivos óbvios, também variados, amiúde há-de visitar estas Viagens por Abril.
Hoje, transcreve-se o poema «AOS CINQUENTA
ANOS…» que pertence ao livro «Tempo de Exorcismos» (1970-1972) e que na Biblioteca
da Casa existe em 40 ANOS DE SERVIDÃO 2ª edição, Setembro de 1982.
Aos cinquenta anos sou um ser perplexo,
não como aos vinte, aos trinta, ou aos quarenta,
mas radicalmente perplexo. Não sei
se amo a vida ou a detesto. Se desejo
ou não desejo continuar vivendo.
Se amo ou não amo aqueles que amo,
se odeio ou não odeio os que detesto.
Se me quero patriarca, pai de família, como acabei sendo,
ou se me quero livre pelas ruas nocturnas
como quando não acabei de descobri-las
em décadas de andá-las, perseguindo
sequer o amor mas corpos, corpos, corpos.
Sou de Europa ou de América? De Portugal
ou Brasil? Desejo que toda a humanidade
seja feliz como queira, ou quero que ela morra
do cogumelo atómico prometido e possível?
Não sei. Definitivamente, não sei.
Julgas que estou deitado num leito de rosas?
— perguntava ao companheiro de tortura Cuauhtemoc(1).
Mas, mesmo destituído, preso e torturado,
ele era o Imperador, descendente dos deuses.
Eu não descendo dos deuses. O corpo dói-me,
que envelhece. O espírito dói-me de um cansaço físico.
As belezas de alma, seja de quem forem, deixaram de interessar-me.
Resta a poesia que me enoja nos outros
a não ser antigos, limpos agora do esterco
de terem vivido. E eu vivi tanto
que me parece tão pouco. E hei-de morrer
desesperado por não ter vivido. Aos 50 anos
nem sequer a raiva dos outros ainda me sustenta
o gosto e a paciência de estar vivo.
Outros que tentem e descubram:
que digam ou não digam é-me indiferente.
Junho 15, 1970
Basílio Teles
Fixação de texto, prefácio e índices:
Augusto da Costa Dias
1ª edição, conforme o manuscrito do Autor,
datado de 1895
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Março de 1969
A menina tonta
passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...
No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...
A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.
Manuel da Fonseca em Poemas Completos
«Essa paz
conquistada e dominada lê-se nos olhos azuis. No olhar «celta» de Marguerite
Yourcenar, que nos fita com uma sabedoria que se sente vinda de muito longe.»
Gosto de livros em que os autores de quem
gosto conversa com jornalistas ou um outro escritor, ou um crítico literário,
como é o caso de Matthieu Galey.
Também gosto de correspondência trocada
entre escritores, ou livros em que se reúnem entrevistas que os autores deram
ao longo das suas vidas. Com esses livros consegue-se ter uma outra visão e
ideia sobre os escritores que apenas «conhecemos» dos seus livros.
E este livro é mesmo uma bela maravilha!
Marguerite Yourcenar
Prefácio: Matthieu Galey
Tradução: Renata Correia Botelho
Capa: Carlos César Vasconcelos
Relógio D’Água Editores, Junho de 2011
Gosto muito de ler
e também gosto de reler, como os amantes de música gostam de tocar novamente um
mesmo trecho, ou de pôr a tocar um mesmo disco. Entre os escritores da geração
que precedeu a minha, releio muito Hardy, Conrad, Ibsen, Tolstoi… Alguns
Tchekov, certos Thomas Mann… E o livro que reli, se não mais vezes, foi a autobiografia
de Gandhi.
Na floresta silenciosa,
Fui encontrar a rosa
Prometida.
Na floresta silenciosa
Fui encontrar, generosa,
A minha vida.
Ruy Cinatti de Obra Poética Volume I em Cem Melhores Poemas Portugueses