terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Lemos para sabermos que não estamos sozinhos.

C. S. Lewis

Legenda: pintura e Henri Fantin-Latour

NOTÍCIAS DO CIRCO

A Divisão de Investigação Criminal da PSP está esta terça-feira a fazer buscas dentro da própria polícia por suspeita de fraude no serviço gratificado.

Em causa, segundo o Público, está um suposto esquema através do qual os agentes que prestam serviço gratificado em estações da CP e nas carruagens de comboios têm recebido mais dinheiro do que aquele a que teriam direito devido à falsificação do número de horas de trabalho.

VIAGENS POR ABRIL


Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Num qualquer tempo antes de 25 de Abril, o director da PIDE-DGS, determinava que, pelo menos três agentes deviam assistir às missas de domingo, principalmente nas igrejas em que alguns padres, em acto de culto, atacam declaradamente as instituições e a política ultramarina do governo e os seus princípios morais.

Sempre que possível as homilias devem ser gravadas.

O que não se pode é assistir passivamente com simples protestos verbais, à acção dissolvente e subversiva conduzida por esses sacerdotes.

DECISÕES INJUSTAS

«Mas a formação dos magistrados é absolutamente essencial, porque já se tornou por demais evidente que ainda hoje há decisões judiciais absolutamente indignas de um país que se diz ser um Estado de direito democrático e tem uma Constituição da República correspondente, que aliás recebe expressamente no seu texto a Declaração Universal como ponto de referência interpretativo privilegiado em matéria de direitos liberdades e garantias.»

Teresa Beleza

OLHAR AS CAPAS


A Experiência de Ler

C. S. Lewis

Tradução e Notas: Carlos Grifo Babo

Capa: José Brandão

Colecção Elementos Sudoeste

Porto Editora, Porto, Abril de 2003

O devoto da acultura é, como pessoa, muito mais válido que o ambiciosos por posição social. Lê, tal como visita galerias de arte ou assiste a concertos, não para se tornar bem-visto, mas para se melhorar a si próprio, desenvolver as suas potencialidades, enfim, tornar-se um ser humano mais completo.

AQUELE QUE PARTIU...

Aquele que partiu
Precedendo os próprios passos como um jovem morto
Deixou-nos a esperança.

Ele não ficou para connosco
Destruir com amargas mãos seu próprio rosto.
Intacta é a sua ausência
Como a estátua de um deus
Poupada pelos invasores de uma cidade em ruínas.
Ele não ficou para assistir
À morte da verdade e à vitória do tempo.

Que ao longe
Na mais longínqua praia
Onde só haja espuma sal e vento
Ele se perca tendo-se cumprido
Segundo a lei do seu próprio pensamento.

E que ninguém repita o seu nome proibido.

Sophia de Mello Breyner Andresen de Mar Novo em Cem Poemas de Sophia

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

POSTAIS SEM SELO


Dedico-me ao poema como um homem velho se dedica a um vaso com flores.

Miguel-Manso

Legenda: pintura de Van Gogh

OLHAR AS CAPAS


Jornada de África

Manuel Alegre

Círculo de Leitores, Fevereiro de 1989

Estão sentados em volta de uma mesa de pinho. Canta-se e bebe-se, a caneca passa de mão em mão. «E se a loucura da sorte/Assim nos quiser perder/Abre os teus braços de morte/E deixa-nos aquecer.» Música de Lopes Graça, letra de Carlos de Oliveira. Cantam em coro canções heroicas, algo está a mudar em Coimbra. Talvez a própria fraternidade: não apenas o vinho, a graça, a boémia. De certo modo Há uma tristeza, uma tristeza forte e nova, no fundo daquela alegria. Sim, tristeza e raiva, como nas antigas canções russas.

VIAGENS POR ABRIL


                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

Não sei a data deste recorte de um texto que Joaquim Vieira publicou, numa revista de fim-de-semana, do Diário de Notícias.

Talvez tenha sido nos 25 anos do 25 de Abril.

A ideia que, rapidamente, ressalta, é que nos 50 anos do 25 de Abril, que agora ocorrem, está tudo na mesma. 

O DIA SEGUINTE

Poderemos pensar que os resultados eleitorais, de ontem nos Açores, podem ter semelhanças com as eleições legislativas que ocorrerão em Março?

Talvez sim, talvez não, mas é salutar rejeitar a ideia.

Mas, há que dizê-lo: são decepcionantes os resultados que aconteceram.

Gente açoriana que vê, ouve e lê, antes das eleições, publicaram um manifesto em que pretendiam fazer ver aos partidos, a situação que se vive nos Açores.

Nessa gente estavam incluídos os escritores Joel Neto e João de Melo:

«Temos pessoas votantes em diferentes partidos, pessoas de esquerda e de direita, não há intenção de favorecer nenhuma das candidaturas nem tão pouco prejudicar, estamos a interferir no sentido de obrigar a campanha eleitoral a albergar a discussão deste tema”, explica Joel Neto.
“São mais de 40 índices de subdesenvolvimento humano que os Açores lideram regularmente”, sublinhando que “somos a região mais pobre do país, o dobro da média nacional, somos a região com a maior desigualdade na distribuição de rendimentos, com mais exclusão social, com mais assistencialismo, com mais dependência do rendimento social de inserção, com mais subsidiodependência no geral. No domínio da educação somos a região com mais analfabetismo, com mais iliteracia, maior défice de formação escolar básica, maior abandono escolar, maior abandono escolar precoce.”
O documento aponta ainda a mortalidade e a obesidade infantis, o consumo de drogas sintéticas, a taxa de incidência cancerígena, a violência doméstica, o abuso sexual ou o ritmo de crescimento da criminalidade violenta como problemas a resolver.
“Mete-me impressão como é que nove ilhas despovoadas, com 255 mil pessoas e com 700 mil fora, ainda se debate com tantos problemas e tanta solidão e esquecimento”, afirma, por outro lado, João de Melo, escritor açoriano que durante nove anos foi conselheiro da embaixada de Portugal em Madrid.
Diz que não podia não fazer nada pelo avanço da Região. “A pobreza açoriana é mais pobre que a pobreza continental. Os Açores precisam de ter outras políticas independentemente dos partidos que o governam, acima de tudo estão as pessoas e aquelas pessoas de condição mais humilde”.»


TEMA SEM VARIAÇÔES

              

                              para o Manuel de Freitas, mon semblable

 

Sempre soubeste: a morte.
Sempre sentiste: a morte.
As tabernas, fechadas, eram
apenas uma espécie de refrão.

 

Mas isso, terás de convir,
não desculpa o facto
de andares há vinte anos
a escrever o mesmo.

 

Faz como as tabernas: cala-te.

 

Manuel de Freitas em Resumo: a poesia em 2010

domingo, 4 de fevereiro de 2024

BLOGUEANDO POR AÍ

«Ontem, no Expresso da Meia-Noite, uma Maria João AvilLez excitadíssima — porra de imagem para final de dia! — questionava uma Ana Gomes titubeante, cada vez mais patareca, sobre a ameaça à democracia que é o Chega, comparando-o com o PCP e o BE. Foi preciso o Bernardo Ferrão e o Francisco Assis para colocarem alguns pontos nos is, vejam bem. Para as pessoas que ainda têm dúvidas e alimentam hesitações sobre esta matéria, convém lembrar: alguma vez viram o PCP ou o BE com discursos xenófobos sobre a imigração? Alguma vez viram o PCP ou o BE com discursos racistas sobre uma etnia? Alguma vez viram o PCP ou o BE defender a privatização de hospitais, escolas, vias de comunicação e meios de transporte? Alguma vez viram o PCP ou o BE dividir a sociedade portuguesa entre portugueses de bem e portugueses de mal? Isto não basta?»

 

Encontrado na Antologia do Esquecimento.

VIAGENS POR ABRIL

                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

No dia 19 de Março de 2002, o jornalista António Rego Chaves, em 5 pontos, dizia-nos: «Portugal, Lugar de Exílio».

António Guterres, ao fim de seis anos, dizia aos portugueses que não podia governar um pântano e levou-nos para eleições.

Durão Barroso, aliado ao PP de Paulo Portas, ganhou as eleições e a direita disponibilizou-se para governar o país e António Rego Chaves, em fecho de crónica, garantia-nos que não haveria, nos próximos tempos , qualquer Primavera, antes pesadelos – e mais tempo de exílio.

OLHAR AS CAPAS


Não Bebas Dessa Água

Woody Allen

Tradução: José Vieira de Lima

Capa: Emílio Vilar

Difel Editora, Lisboa s/d

Walter – De repente, dizemos a deus a um advogado de sucesso e temos de aceitar um diplomata psicótico!

Marion – A vida é dela, Walter. A nossa filha tem vinte e três anos.

Walter – Ninguém está a dizer que a vida não é dela. Eu só quero que ela faça o que é melhor para ela, mais nada…

Marion – Portanto…

Walter – Portanto, o que eu lhe disse é que está certo. Este sujeito é aquilo a que, nas apostas, nós costumávamos chamar um perdedor!

Marion – Licenciou-se em Yale.

Walter – Yale também se engana.

Marion – Walter, por favor, não te metas onde não és chamado.

Walter – Ela nunca teve tão más perspectivas. Olha, preferia aquele com quem esteve para casar, o que não foi nem à recruta, porque esse, ao menos, era um sucesso – até enganava o exército!

Marion – Permite-me que te lembre que quando casei contigo, o teu futuro não parecia especialmente seguro.

Walter – Era diferente, não tem comparação possível. . Eu cá tenho joie de vivre.

Marion – Para que lhe serve a segurança material se ele não se sentir feliz?

Walter – Mas o que é que a felicidade tem a ver com isto? Eu estou a falar de casamento! Quando uma pessoa casa desiste de ser feliz!

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Paulo Macedo, presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia, lamentou que o gabinete do primeiro-ministro tivesse considerado "um ato de insubordinação gravíssimo" a ausência dos agentes destacados para o Famalicão-Sporting de ontem - devidamente justificada com baixas médicas -, entendendo ter também sido colocada em causa a idoneidade dos médicos. Depois, achou "estranho" que nem António Costa nem o ministro da Administração Interna tenham tido "uma palavra de melhoras para com estes polícias, para que possam regressar ao trabalho o mais depressa possível".»

 Apenas fica a notícia tirada do Record on-line.

«A PSP ameaça fazer um golpe de Estado: boicotar as eleições legislativas
O presidente do Sindicato Nacional da Polícia, Armando Ferreira, transformou-se este sábado numa ameaça à ordem pública, cuja defesa a sua profissão alegadamente o obriga. Como quem bebe um copo de água, Ferreira afirmou, na SIC Notícias, que as eleições legislativas de 10 de Março poderão não vir a realizar-se. “Julgo que pode haver essa possibilidade. Quem transporta os boletins de voto são as forças de segurança, quem transporta as urnas de voto são as forças de segurança, e se acontecer algo igual ao que está a acontecer agora…”, disse o sindicalista, depois de declarar “temer” que “o senhor primeiro-ministro, se calhar”, não venha a ficar “em funções só até dia 10 de Março».

 Apenas fica o começo de uma crónica de Ana Sá Lopes do Público.

 O Circo reduzido a meros apenas?…

sábado, 3 de fevereiro de 2024

ENQUANTO INVENTAMOS HISTÓRIAS

Também somos eternos enquanto inventamos histórias. Escreve-se sempre contra a morte.

 Rosa Montero em A Louca da Casa

OLHAR AS CAPAS


Humilhados e Ofendidos

Fédor Dostoievski

Tradução: Maria Franco

Capa: Luiz Duran

Colecção Unibolso nº 65

Editores Associados, Lisboa s/d

O ano passado, a 22 de Março, à noite, aconteceu-me uma das mais estranhas aventuras da minha vida. Durante todo o dia eu percorrera a cidade em busca de alojamento. O antigo era muito húmido e nessa é poca já me queixava de uma tosse rebelde. Quisera mudar no começo de Outono, e já estávamos na Primavera! Por muito afã que fosse o desse dia, foi-me impossível descobrir qualquer coisa aceitável. 

VIAGENS POR ABRIL


                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Ele há-de trazer algumas histórias em que andou metido nos tempos em que esperávamos (quem? quantos? Como, então, apareceram tantos a gritar por Liberdade, a dizerem-se democratas?) pela tal madrugada.

Por madrugada, lembrará, agora, o que leu num comentário à morte de Melanie Safka publicada no Público e um deste dias há-de recordar, sobre Melanie Safka, uma crónica do José Duarte.

«A sua intervenção não se esgotou na música. Cresci a ouvi-la - e foi a única artista estrangeira que explicou ao mundo o conceito de "Madrugada": dizia ela que os portugueses eram os únicos que tinham uma palavra para descrever aquele tempo suspenso entre a noite e o dia, um tempo grávido de sentido. Faz falta.»

 

ZIP 30.020/S - 1971

Pare, Escute e Olhe - Arte Poética

Um muito interessante "single" do pré-25 de Abril, que reuniu algum sucesso popular, comprado na então sucursal da “Discoteca Roma”, na Rua Morais Soares, esquina com a Praça Paiva Couceiro (em Lisboa) e produzido por "Zip-Zip".

A loja, com duas simpatiquíssimas e competentes empregadas, não resistiu aos tempos de Abril e fechou. Mais tarde  a casa-mãe também fechou as portas na Av. de Roma. Para não variar instalou-se lá uma agência bancária e agora é café a armar ao fino.

À época, e ao nível da pequena banheira onde vivíamos (vivemos), este disco originou uma leve e doméstica polémica, qualquer coisa como mosquitos por cordas.

Por uma estranha omissão (tipográfica ou qualquer outra) não consta da ficha do disco o nome de Hélia Correia como autora do poema “Arte Poética”, face B do "single".

O disco revela apenas o nome de José Jorge Letria e daí poder inferir-se que Letria é o responsável, não só da música, como da letra.

O suplemento “Juvenil” do jornal “República” de 19 de Outubro de 1971, fazia publicar um “Para Que Conste” em que o facto é denunciado e, ao mesmo tempo, se revelava que “mesmo em espectáculos públicos não tem feito Jorge Letria qualquer alusão ao nome de Hélia Correia” e exigia-se a respectiva rectificação e invocavam-se direitos de autor e reprodução.

Já que estamos em maré de documentos e curiosidades, diga-se que, na contracapa do disco, José Jorge Letria fez publicar um texto de sua autoria: “É do Silêncio Que Vos Falo” e que aqui se reproduz:


“Foi mais de um ano de silêncio (depois do primeiro disco-fracassado). Mais de um ano de silêncio inteiramente assumido. Voluntariamente aceite. É fora dos circuitos normais (televisão, rádio, promoção, venda) que, dolorosamente, sem trincheiras nem disfarces, se descobrem os amigos (?), que se aprende a abominar a hipocrisia e a falsa coerência, a miséria das intenções, a ignorância das coisas elementares.

"É no silêncio (um certo silêncio, entenda-se), que se descobre a utilidade das palavras. O seu fogo. A sua forma exacta. A sua acutilante facilidade de chegar onde mais ninguém chega. E ao mesmo tempo a sua infinita pobreza. A sua enorme timidez. Sim, porque as palavras são tímidas. Haverá alguém que duvide?

"Para mim conservo a certeza de que está tudo ainda por fazer. Não são meia dúzia de discos ou de frases publicitárias, publicamente ditas, que definem uma música e lhe dão a necessária consistência. Desfaçam-se pois os equívocos. Já não é sem tempo. A quem me ouvir deixo, entretanto, a possibilidade de transformar em acto (ou quase) o que no canto se propõe. Se isso não acontecer fico, pelo menos, com a certeza de ter levado até ao fim a minha ingenuidade. Ou seja o silêncio donde partiu. Para os que ficarem pelo caminho vai também a minha saudação.” 

NOTÍCIAS DO CIRCO

O tempo de todos os perigos ou os começos de um qualquer fim…

O resto são frases tiradas de dois Coffee Break de Bábara Reis no Público.

 «Madeleine Albright alertou para o perigo dos “vendedores ambulantes de ódio” em 2018. É triste dizer isto, mas parece que não há muito que se possa fazer.»

«António Damásio pede há anos uma “vacina contra a raiva”. É fácil pedir. Como para o cancro, difícil é descobri-la.»

«Não estamos a conseguir um debate produtivo — insisto na expressão, que os especialistas usam, porque descreve bem o que está a passar-se. Vai ser um “ano supereleitoral” e não se vêem soluções para o problema da polarização extrema a que chegámos. António Damásio pede há anos uma “vacina contra a raiva”. É fácil pedir. Como para o cancro, difícil é descobri-la.»

 «A vacina é necessária porque a raiva ajuda a extrema-direita e os populistas radicais de direita a crescer. O Chega está com 21% de intenções de voto e, na Europa, é possível que a direita radical consiga eleger qualquer coisa como 200 eurodeputados, ou seja, 25% do Parlamento Europeu, ou seja, ser a terceira força, ou seja, ser uma minoria de bloqueio real.»

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

VIAGENS POR ABRIL


                 Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                 João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 Jorge de Sena , por motivos óbvios, também variados, amiúde há-de visitar estas Viagens por Abril.

Hoje, transcreve-se o poema «AOS CINQUENTA ANOS…» que pertence ao livro «Tempo de Exorcismos» (1970-1972) e que na Biblioteca da Casa existe em 40 ANOS DE SERVIDÃO 2ª edição, Setembro de 1982.

 

Aos cinquenta anos sou um ser perplexo,
não como aos vinte, aos trinta, ou aos quarenta,
mas radicalmente perplexo. Não sei
se amo a vida ou a detesto. Se desejo
ou não desejo continuar vivendo.
Se amo ou não amo aqueles que amo,
se odeio ou não odeio os que detesto.
Se me quero patriarca, pai de família, como acabei sendo,
ou se me quero livre pelas ruas nocturnas
como quando não acabei de descobri-las
em décadas de andá-las, perseguindo
sequer o amor mas corpos, corpos, corpos.
Sou de Europa ou de América? De Portugal
ou Brasil? Desejo que toda a humanidade
seja feliz como queira, ou quero que ela morra
do cogumelo atómico prometido e possível?
Não sei. Definitivamente, não sei.
Julgas que estou deitado num leito de rosas?
— perguntava ao companheiro de tortura Cuauhtemoc(1).
Mas, mesmo destituído, preso e torturado,
ele era o Imperador, descendente dos deuses.
Eu não descendo dos deuses. O corpo dói-me,
que envelhece. O espírito dói-me de um cansaço físico.
As belezas de alma, seja de quem forem, deixaram de interessar-me.
Resta a poesia que me enoja nos outros
a não ser antigos, limpos agora do esterco
de terem vivido. E eu vivi tanto
que me parece tão pouco. E hei-de morrer
desesperado por não ter vivido. Aos 50 anos
nem sequer a raiva dos outros ainda me sustenta
o gosto e a paciência de estar vivo.
Outros que tentem e descubram:
que digam ou não digam é-me indiferente.

 

Junho 15, 1970

Legenda: pintura de René Magritte

OLHAR AS CAPAS


 Memórias Políticas

Basílio Teles

Fixação de texto, prefácio e índices: Augusto da Costa Dias

1ª edição, conforme o manuscrito do Autor, datado de 1895

Capa: João da Câmara Leme

Portugália Editora, Lisboa, Março de 1969

É esta certeza irrefragável, esta certeza matemática que imprimiria à coalização a sua feição proeminente – a de ser fundamentalmente imbecil. Não há pretexto, considerando, motivo, por mais justo, por mais sério, por mais sagrado na aparência, que leve o Partido Republicano a associar-se com qualquer dos partidos ou grupos realengos. Entre uns e outros traçou o destino, como a vara da feiticeira, uma risca fatídica, que vem desde o ultimatum inglês até à recente ditadura. E mal irá para os republicanos que se abalancem a transpô-la se nesse país restam vida, energia e vontade para se lançar ousadamente na tarefa de preparar o futuro! Há colapsos de memória que são talvez desculpáveis num povo, mas que exautoram por completo o homem público em que eles se produzem. Pense, e diga-me se é possível esquecer e perdoar este rosário de torpezas.

POEMA DA MENINA TONTA

A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...
No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...
A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.

 

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


De Olhos Abertos consta de uma série de conversas entre Marguerite Yuorcenar e Matthieu Galey, acontecidas ao longo de vários anos.

«Essa paz conquistada e dominada lê-se nos olhos azuis. No olhar «celta» de Marguerite Yourcenar, que nos fita com uma sabedoria que se sente vinda de muito longe.»

Gosto de livros em que os autores de quem gosto conversa com jornalistas ou um outro escritor, ou um crítico literário, como é o caso de Matthieu Galey.

Também gosto de correspondência trocada entre escritores, ou livros em que se reúnem entrevistas que os autores deram ao longo das suas vidas. Com esses livros consegue-se ter uma outra visão e ideia sobre os escritores que apenas «conhecemos» dos seus livros.

E este livro é mesmo uma bela maravilha!

OLHAR AS CAPAS


De Olhos Abertos

Marguerite Yourcenar

Prefácio: Matthieu Galey

Tradução: Renata Correia Botelho

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio D’Água Editores, Junho de 2011

Gosto muito de ler e também gosto de reler, como os amantes de música gostam de tocar novamente um mesmo trecho, ou de pôr a tocar um mesmo disco. Entre os escritores da geração que precedeu a minha, releio muito Hardy, Conrad, Ibsen, Tolstoi… Alguns Tchekov, certos Thomas Mann… E o livro que reli, se não mais vezes, foi a autobiografia de Gandhi.

SECRETO APELO

Na floresta silenciosa,

Fui encontrar a rosa

Prometida.

 

Na floresta silenciosa

Fui encontrar, generosa,

A minha vida.

 

Ruy Cinatti de Obra Poética Volume I em Cem Melhores Poemas Portugueses